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Venezuela: Paramilitares atacam uma base do exército

Geraldina Colotti* :: 11.08.17

A eleição da Assembleia Nacional Constituinte na Venezuela constituiu um duro golpe para todos os inimigos do processo bolivariano. À extraordinária expressão massiva do povo venezuelano sucederam-se gestos hostis de tipo diverso no plano internacional. Do Vaticano a Washington, passando pelo governo português, recusando-se a reconhecer um processo democraticamente exemplar. Internamente, uma caricata tentativa de acção militar terrorista. Gestos de hostilidade, mas também sinais de impotência perante a determinação popular.

«A Força Armada Nacional Bolivariana informa o povo venezuelano e o mundo inteiro que na madrugada de hoje, domingo 6 de agosto de 1017, houve um ataque terrorista de tipo militar contra a quadragésima primeira Brigada Blindada do Exército Bolivariano, situada em Valência, Estado de Carabobo…». É assim que começa o comunicado dirigido ao país pelo General Vladimir Padrino López, ministro da Defesa venezuelano.

Durante o ataque ao Forte Paramacay foram presos 8 indivíduos, entre os quais 5 civis que usavam uniformes militares. Duas outras pessoas morreram. O chefe era um ex-tenente, desertor. Alguns outros atacantes, conseguiram roubar armas aos soldados da base, fugiram e são activamente procurados. Antes, o grupo difundiu um vídeo feito por um suboficial que há três anos tinha sido expulso do exército por traição e rebelião, fugido para Miami, que também foi preso. De acordo com o comunicado, o grupo confirmou ter sido contratado por militantes da extrema-direita dos Estados de Zulia, Lara e Yaracuy com ligações a «governos estrangeiros».

A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) repeliu uma manifestação de simpatizantes dos mercenários. Não foi um golpe militar, mas um «ataque paramilitar».

Um ataque «terrorista que não passou de um show propagandístico, um passo desesperado» de quem persegue a via desestabilizante em vez do diálogo aberto na Assembleia Nacional Constituinte (ANC). A ANC foi instalada, e como foi aprovado por unanimidade, poderá estender os seus trabalhos até um máximo de dois anos.

A FANB «fica incólume, unida como um monólito, aferrada às suas convicções democráticas e com elevada moral» assegurou Padrino López, que reafirmou o seu «firme e incondicional apoio ao presidente Nicolás Maduro, à Constituinte, à Revolução Bolivariana» e às suas conquistas que «as ambições e os interesses perversos de alguns grupitos» pretendem desconhecer.

Daqui um «apelo a cada mulher e a cada homem desta terra para que como irmãos unidos pela história e pelas nossas raízes saibamos encontrar as soluções para os problemas, dentro da legalidade. Um país não se constrói com violência e com ressentimento, mas com justiça, cooperação e compreensão». Imediatamente a seguir ao ataque, a partir dos Estados Unidos, o senador Marco Rubio, que foi candidato às primárias do Partido Republicano estado-unidense, atacou Diosdado Cabello, dirigente chavista eleito para a ANC, definindo-o como «narcotraficante».

Cabello respondeu no twitter: «Narco Rubio, aliás Marco Rubio, o pior da política imperialista aparece como defensor dos terroristas do ataque. Já sabemos de onde chega tudo isto. Perderam uma vez, perderão mil vezes».

Da oposição, o líder de Primeiro Justiça, Henrique Capriles, ao contrário, condenou o ataque, afirmando que «a mudança» deve chegar «através de eleições livres e democráticas».

Depois de meses de violência e de convites ao boicote às eleições, a maioria da direita decidiu participar nas eleições regionais de Dezembro próximo. Os candidatos estão a inscrever-se no Conselho Nacional Eleitoral (CNE), de novo considerado confiável depois da campanha de descrédito orquestrada até aqui… Entretanto, depois do ex-alcaide da Grande Caracas, António Ledezma, também o líder de Vontade Popular, Leopoldo López, voltou à prisão domiciliária, de que tinha sido retirado, por ter violado as suas obrigações com repetidos apelos ao golpe. López pediu para ser ouvido pela Comissão de Verdade, Justiça e Reparação às vítimas dos grupos de combate de rua [«guarimbas»]. Por aqueles actos de violência, desencadeados em 2014 e retomados há três meses, foi condenado a quase 14 anos e cumpriu três.

Apesar do alarme do golpe, esperançosamente difundido pelos media mainstream, quase não se vêem as «guarimbas». Pelas ruas dos municípios governados pela oposição ficam escombros, lixo e troncos destruídos que as autoridades não recolhem. São deixados nas valetas e junto aos semáforos, precisamente para a sua reutilização. Mas os habitantes respiram fundo, depois de ao longo de meses terem sido sequestrados e extorquidos. Ontem [6 de agosto] estivemos em Los Chorros, no município de Sucre, zona da classe média-alta, um dos principais focos das «guarimbas».

Ali resistiu, como uma fortaleza assediada, uma «comuna» em construção, de que daremos conta nos próximos dias. Grande parte do país olha para a Assembleia Nacional Constituinte com grande esperança. Um momento histórico que contradiz a propaganda de guerra de quem queria apresentar a democracia participativa «e protagonizada» da Venezuela como «a ditadura» de uma só pessoa, Nicolás Maduro. Uma esperança que repousa sobretudo nas mãos dos jovens que obtiveram um resultado histórico: 72% dos 545 constituintes eleitos têm menos de 35 anos. As franjas extremistas dirigidas a partir de fora jogaram o tudo por tudo.

Ouvida a opinião do Supremo Tribunal de Justiça que tinha aberto um processo contra a Procuradora Geral Luísa Ortega, a ANC suspendeu-a do cargo enquanto se instrui o processo. Ela fez-se fotografar entre dois motociclistas quando deixou apressadamente o seu gabinete: «Tirou a máscara, converteu-se na heroína dos «guarimbeiros», disse ontem o presidente durante a transmissão do programa ‘Domingos com Maduro’. Entretanto, o chavismo rechaça o ataque internacional, com o apoio dos governos progressistas da América Latina e das organizações populares, que cumprem a sua parte no âmbito da «comissão internacional» da ANC.

O Mercosur suspendeu a Venezuela daquele organismo internacional, por unanimidade e por tempo indeterminado. O Vaticano condenou a ANC. O novo ministro das Relações Exteriores, Jorge Arreaza, recordou o paradoxo do Brasil, o primeiro que devia ser sancionado por ser fruto de um golpe institucional, em contrapartida suspende ilegalmente a Venezuela, violando os próprios preceitos do Mercosur, juntamente com outros países neoliberais e pós-golpistas (Paraguai), tudo com o aval do Uruguai.

Numa entrevista com a emissora argentina Radio Rebelde, durante o programa do Padre Juan Carlos Molina, Maduro acusou o seu homólogo argentino, Mauricio Macri, de ser «um empregado de Washington» e o governo a que preside «uma miserável oligarquia». Quanto ao Vaticano, o presidente distinguiu a posição do Papa, «que é um defensor dos pobres», das hierarquias eclesiásticas «aliadas dos sectores que retêm o poder e os privilégios»!

Através da rádio, Maduro falou com Milagro Sala, líder indígena argentina de Tupac Amaru, que se espera seja brevemente libertada. Milagro expressou solidariedade ao presidente bolivariano que respondeu: «Em breve daremos um abraço de vitória».

* Geraldina Colotti é directora de Il Manifesto e editora (em Itália) do Le Monde Diplomatique.

Publicado em: http://www.resumenlatinoamericano.org/2017/08/07/venezuela-paramilitares-atacan-una-base-del-ejercito/

Tradução de José Paulo Gascão


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