ODiario.info

Imprimir

Colômbia:
Do desarmamento à paz

La Jornada (Editorial) :: 01.09.17

O cessar fogo e o acordo já feito com as FARC criaram condições para uma paz com justiça social, democracia verdadeira e prosperidade, condições desde sempre defendidas de boa-fé por aquela organização revolucionária.
Mas se as FARC têm cumprido escrupulosamente a sua parte no acordo, o governo tem, no mínimo, mostrado demasiado desleixo as suas obrigações acordadas, nomteadamente no que à garantia da terra dos campesinos, à libertação dos presos e à integração dos guerrilheiros e apoiantes farquianos na sociedade.
O editorial do diário mexicano La Jornada que hoje reproduzimos reflete estas preocupações.

Com a entrega das últimas armas que permaneciam em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), num ato realizado em 15 de agosto na localidade rural de Pondores, departamento de Guajira (norte do território colombiano), o velho conflito que pôs em confronto essa outrora organização guerrilheira com o governo de Bogotá e que ensanguentou o país sul-americano ao longo de décadas parece ter sido definitivamente superado.

Na presença do presidente Juan Manuel Santos e da direção dos ex-guerrilheiros, as espingardas, que permaneciam sob custódia de uma missão da Organização das Nações Unidas (ONU) foram selados num contentor. Ivan Marquez, líder das FARC, anunciou na ocasião que no próximo dia 1 de setembro se realizará o congresso fundacional de uma nova organização política de esquerda que, possivelmente, levará o nome Força Alternativa Revolucionária da Colômbia, que recuperará não só as siglas, mas também parte do ideário do dissolvido grupo insurreto.

Termina desta forma um longo e acidentado processo de pacificação que se iniciou há mais de quatro anos e que contou com a mediação de diversos organismos internacionais e governos, particularmente o cubano. Nesse lapso foi necessário sortear monumentais obstáculos inerentes à negociação e, o mais grave, a má-fé com que estruturas belicistas e de ultradireita colombianos, encabeçados pelo ex-presidente Álvaro Uribe, tentaram uma e outra vez descarrilar o processo de negociação.

A satisfação pelo fim do desarmamento e a iminente inserção dos antigos rebeldes na vida política e institucional da Colômbia não deve, no entanto, subestimar os perigos que ainda devem ser superados para consolidar uma paz verdadeira e plena na nação sul-americana. Deve ter-se em conta, em primeiro lugar que outra organização guerrilheira, o Exército de Libertação Nacional ainda se encontra em negociações com o governo colombiano para alcançar um acordo de paz separado.

Por outro lado, as autoridades terão de garantir escrupulosamente a segurança dos membros das FARC que agora integram a vida civil, e sobre os quais poderá recair a ameaça dos já referidos sectores reacionários e paramilitares. É necessário recordar, a este respeito, que há umas décadas estas forças, infiltradas nos corpos de segurança do Estado, assassinaram milhares de militantes da União Patriótica (entre eles dois candidatos presidenciais, uma vintena de deputados, 70 concelheiros e 11 presidentes de Câmara), um partido político surgido da desmobilização de diversas frentes e grupos guerrilheiros.

Finalmente, se as condições sociais que deram origem e nutriram durante décadas a guerrilha – miséria, marginalização, exploração iníqua, desigualdade extrema – não começam a ser superadas através de um esforço sustentado do Estado, a guerra terá terminado, mas a violência, necessariamente, não se extinguirá. Um exemplo doloroso deste paradoxo pode ver-se em El Salvador, onde depois da guerra civil (1079-1992) teve llugar um doloroso auge criminoso.

Cabe esperar, em suma, que a sociedade colombiana consiga superar os riscos que ainda se avizinham e que possa consolidar uma paz com justiça social, democracia verdadeira e prosperidade.

Este texto foi publicado em: http://www.jornada.unam.mx/2017/08/16/edito


https://www.odiario.info