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Prémios*

Filipe Diniz :: 09.11.17

A atribuição pelo Parlamento Europeu do prémio Sakharov à «oposição democrática» venezuelana já foi devidamente denunciada por aquilo que verdadeiramente representa: uma provocação ao governo bolivariano, um encorajamento a gente que, apoiada pelo imperialismo, procura afundar o país na violência e no caos. Não é excepção. O historial do prémio Sakharov, criado em 1988, é em boa parte dos casos elucidativo da hipocrisia da maioria do PE no que diz espeito a “democracia” e “direitos humanos.”

Quando Antonio Tajani, presidente do PE, anunciou que o prémio Sakharov de 2017 fora atribuído à «oposição democrática» venezuelana ouviram-se gargalhadas na sala. Gargalhadas que, se eram minoritárias aí, são certamente maioritárias entre os que defendem a Venezuela bolivariana.

Prémios desta natureza têm a sina de ter frequentemente os cordelinhos demasiado à vista. Se acontece com o Nobel da Paz, como não havia de suceder com este, sendo o PE o que é? Mas há que ser justo: na lista dos Nobel da Paz há muitos nomes e entidades inteiramente merecedoras de respeito. É certo que o ambiente da guerra-fria desequilibrou significativamente a balança. É certo que houve, em várias ocasiões, a salomónica atribuição a agredidos e agressores (Kissinger/Le Duc Thô; Arafat/Rabin/Shimon Peres). É insólito que já tenha sido atribuído a quatro presidentes e a um vice-presidente dos EUA e a 3 dirigentes israelitas. É escandalosa a atribuição à UE em 2012, numa altura em que o seu directório (e não só) tinha no currículo recente a destruição da Jugoslávia, do Iraque, da Líbia. É chocante que nunca tenha sido atribuído ao Conselho Mundial da Paz e à sua figura mais destacada durante mais de meio século, Romesh Chandra. Mas outros nomes de premiados prestigiaram o prémio Nobel da Paz.

Quanto ao prémio Sakharov, a coisa é significativamente mais desequilibrada. E até arriscada. Com uma manifesta obsessão de premiar «dissidentes» recentes (só Cuba já foi brindada por três vezes), arrisca-se a distinguir alguma gente a contas com a justiça por razões que nada têm a ver com «democracia» ou «direitos humanos». Ou trastes políticos cujo valor democrático a vida se encarrega de esclarecer, como sucede com Robert Ménard, cabeça da premiada ONG Repórteres Sem Fronteiras, maire pelo Front National, fascista e racista. António Tajani não gostou de ouvir risos no PE. Apesar da vida dura a que a conspiração imperialista o sujeita, o último a rir será o povo venezuelano.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2292, 2.11.2017


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