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Zimbabwe: Mugabe demitiu-se*

Carlos Lopes Pereira  :: 26.11.17

A recente crise no Zimbabwe passou por uma intervenção das forças armadas, e evoluiu sem que se tivessem verificado quaisquer actos de violência, seja da parte destas, seja da parte de civis. Tanto quanto se sabe, trata-se de movimentos internos para resolver problemas internos. O que, a confirmar-se, será uma boa notícia para África, onde a ingerência imperialista procura manobrar em todo o lado, e agir contra independências a que as velhas potência coloniais não se conformaram.

O presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, demitiu-se na terça–feira, 21, pondo termo a uma crise desencadeada pela intervenção das forças armadas, que exigiram o afastamento do dirigente, de 93 anos.
Mugabe dirigiu o Zimbabwe independente durante quase quatro décadas, a partir de 1980 como primeiro-ministro e, depois, de 1987 até agora, como presidente da
República.
É um herói da independência do seu país: nos anos 60 e 70, passou uma década (1964- -1974) nas cadeias dos colonialistas britânicos. Combateu, com os guerrilheiros da ZAPU, de Joshua Nkomo, e da ZANU, que criou e liderou, contra o domínio colonial na Rodésia do Sul e o regime racista de Ian Smith, que em 1965 proclamou a independência «branca» da Rodésia.
Mugabe foi agora forçado a demitir-se pelos seus companheiros de armas.
Na madrugada de 15, o Exército, chefiado pelo general Constantino Chiwenga, sublevou-se, intervindo alegadamente para acabar com as «forças criminosas» que rodeavam o presidente, que foi mantido sob custódia.
Os militares acusaram Grace Mugabe, de se aproveitar da fragilidade do marido para manobrar nos corredores do poder em seu favor e conseguir ser nomeada vice-presidente, a via constitucional que a conduziria à chefia do Estado, em caso de morte de Mugabe. Grace terá organizado uma facção, o Grupo dos 40, de jovens que se opunham aos quadros mais velhos.
A acção dos militares terá sido acolhida com simpatia pela população e recebeu o apoio tanto do partido no poder, a ZANU-PF, como da associação dos veteranos da guerra de libertação.
A direcção do partido reuniu-se, no domingo, destituiu Mugabe da liderança e designou para o substituir à frente da ZANU-PF o antigo vice-presidente da República, Emmerson Mnangagwa, que tinha sido demitido a 6 de Novembro.
Também ele antigo combatente independentista, com ligações às forças armadas e de segurança, Mnangagwa, de 75 anos, o principal mentor do movimento que destituiu Mugabe, deverá assumir igualmente as funções de presidente da República, até às eleições marcadas para 2018.
No plano africano, diversos dirigentes levaram a cabo nestes dias esforços visando uma solução política para a crise zimbabweana. Evitaram falar de golpe de Estado e procuraram salvaguardar a segurança de Mugabe e da família.
O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, que também preside à Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), enviou dois ministros a Harare. Reuniu- -se depois em Luanda com os seus homólogos João Lourenço, de Angola, e Edgar Lundu, da Zâmbia.
Foi noticiado que Lundu convidou Kenneth Kaunda, antigo presidente da Zâmbia, a deslocar-se a Harare, procurando convencer Mugabe a aceitar uma solução política.
Nas novas condições, coloca-se aos dirigentes e povo do Zimbabwe, ultrapassar os problemas e as dificuldades e prosseguir, de acordo com os interesses e as aspirações do seu povo, a caminhada pelo desenvolvimento, pelo reforço da unidade nacional, pela consolidação da independência.
*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2295, 23.11.2017


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