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Repescado

João Ramos de Almeida :: 06.12.17

Se esta nomeação tem algum significado político, foi o de dar um novo peso político a Centeno dentro do governo português. E não será com os melhores fins. Ele não será a bissectriz: ele será a tentativa para que não haja necessidade de bissectriz. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa já veio avisar de que Portugal terá de dar o exemplo ao eurogrupo.

Sinceramente, ainda não consegui compreender esta ovação nacional à escolha de um ministro português e de ser Mário Centeno, actual ministro português das Finanças, para um posto num organismo inexistente e opaco na hierarquia institucional comunitária como é o eurogrupo.

Tal como Durão Barroso também era o nosso “português na Comissão Europeia” e acabou gordo no Goldman Sachs, Centeno não irá ser nem presidente, nem português, nem socialista, nem ministro das Finanças.

A partir deste momento, Centeno será - na prática - o embaixador no governo português dos governos conservadores que o apoiaram. Centeno sentar-se-á e tentará convencer o governo português das coisas com que se irá comprometer no seio do eurogrupo.
O seu discurso irá ter tantas nuances quantas pessoas que o influenciarão. Pela sua voz, ouviremos nalguns momentos o tom áspero da chanceler alemã, ou a voz artificial de Rajoy, ou o tom de pó de talco de Macron.

Se esta nomeação tem algum significado político, foi o de dar um novo peso político a Centeno dentro do governo português. E não será com os melhores fins. Ele não será a bissectriz: ele será a tentativa para que não haja necessidade de bissectriz. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa já veio avisar de que Portugal terá de dar o exemplo ao eurogrupo… O PSD já o colou ao velho programa de que até se quer esquecer agora, para mais tarde o aplicar: “Quem preside é o guardião das regras europeias”.

Em vez de mais uma voz discordante da política seguida, em vez de uma forma de inverter verdadeiramente os “erros” da política de direita, em vez de uma verdadeira alteração da correlação de forças no eurogrupo, Centeno será o salvo-conduto para salvar a cara dessa direita. Ele será a possibilidade efectiva de reformatar uma direita derrotada, dando-lhe o colorido que a esquerda conseguiu em Portugal e permitindo a transmissão da ideia de que até a esquerda segue as ideias da direita. Será mais um socialista a ser promovido para levar a cabo o que disse estar contra. Ou para levar a cabo a parte do contra do que Centeno disse defender, como é o dossier das políticas laborais de direita, em que Centeno se assemelha tanto a Macron, o que poderá ter alguma influência no seio do governo de esquerda ou entre o governo e os seus apoios parlamentares.

Na ausência de qualquer compromisso público para as suas novas funções, Centeno será - na prática - a nova cara da direita conservadora que, daqui a pouco, daqui a muito pouco, irá querer impor a velha receita do passado.

Fonte: http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2017/12/repescado.html


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