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A variável curda assume protagonismo no conflito sírio

Alfredo Hurtado :: 30.01.18

A situação na Síria entrou aparentemente numa nova fase. Os agressores, depois de terem sobretudo agido através de organizações terroristas, intervêm agora abertamente, com a invasão turca e com a intenção dos EUA de instalação permanente em território sírio. Os curdos são agora simultaneamente actor e pretexto. E seria bom que os seus dirigentes reflectissem sobre o longo historial de instrumentalização e traição a que têm sido sujeitos.

A Rússia, ao entrar de forma directa no conflito sírio, pôs um travão na balcanização desse país. Depois da hipotética queda da Síria, o objectivo seguinte era o Líbano, cortando o apoio histórico sírio ao Hezbollah, o que implicava também o corte de abastecimentos a partir do Irão, que seria o último país a cair, sonho do Estado terrorista de Israel que aspira ao seu “espaço vital”.

O que efectivamente conseguiram (até agora) foi travar em seco um acordo assinado por Síria, Irão e Iraque em Julho de 2011 para instalar um gasoduto que ligaria a jazida iraniana de South Pars, a maior do mundo, com a Síria e com o Mediterrâneo, o que reafirmaria a sua condição de “pedra angular” como parte importante da equação energética da região, sendo assim uma alternativa relativamente a outros gasodutos que se encontram sob o controlo de empresas dos EUA e europeias.

Mas o gasoduto é apenas uma das muitas razões que impulsionaram a agressão contra a Síria, abarcando âmbitos tais como a religião, o território, a energia o imperialismo. Cada força beligerante persegue os seus próprios objectivos.

O tema curdo toma recentemente relevância na Síria, e parece ser o que no final determinará o futuro dos acontecimentos naquela nação árabe. Lamentavelmente, e durante muito tempo, o povo curdo tem sido utilizado pelos interesses de diferentes potências coloniais. Em algumas ocasiões actuaram como mercenários do melhor pagador. Se remontarmos a poucas décadas atrás, os curdos iraquianos foram utilizados pelos EUA contra Sadam Hussein no norte do Iraque, respondendo este último de forma criminosa para travar a divisão do país. Foram deixados sós e sofreram até ataques com armas químicas.

No ano de 1962 realizou-se um censo populacional na Síria, o qual constatou que apenas 162 mil curdos habitavam este país. Em finais do século passado, durante a guerra civil entre a Turquia e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um milhão de curdos turcos procuraram refúgio na Síria, país que além disso lhes concedeu asilo político. Actualmente são 2 milhões e a República Árabe Síria concedeu-lhes nacionalidade em 2011. No início do actual conflito os curdos defenderam a Síria, com armamento e salários proporcionados por Damasco. Lamentavelmente, no princípio de 2014, os EUA ofereceram aos chefes das diferentes tribos curdas instaladas na Turquia, Iraque e Síria a velha promessa da criação de um Estado, aceitando muitos a proposta. Foi uma traição brutal a quem lhes deu abrigo num momento crítico.

Num primeiro momento, a Rússia apoiou o projecto de criação de uma região autónoma curda na Síria, segundo o modelo das repúblicas autónomas russas. Mas Moscovo tomou consciência do facto de que a situação da República Árabe Síria não tem nada a ver com o que existe na Federação Russa. As minorias sírias estão tão misturadas entre sí que não existe nenhuma região do país onde uma delas seja maioritária.

Ancara recusa a possibilidade de um Curdistão sírio que possa servir de retaguarda ao PKK. E não é que eles desejem a manutenção da integridade territorial da Síria, antes apoiam a ideia de uma nação curda em territórios de Síria e Iraque, deportando os milhões de curdos que se encontram no seu território através de uma limpeza étnica que neste século seria intolerável.

Durante séculos os líderes curdos preferiram, lamentavelmente, as alianças com grandes potências em lugar de acordos com os povos com que viviam, ou seja colocando os próprios interesses acima dos daqueles que representavam. Entre os diferentes partidos curdos também se dão divisões e traições. Massud Barzani, líder dos curdos iraquianos, assinou um pacto com Erdogan contra os clãs presentes em Turquia e Síria. Os EUA têm-nos utilizado com à-vontade, dando-lhes apoio e retirando-o quando o mesmo entra em conflito com os seus próprios interesses. Uma vez o secretário de Estado Henry Kissinger foi interpelado por uma comissão de senadores relativamente à falta de lealdade para com os curdos, e este respondeu que “a política exterior dos EUA não é uma questão de filantropia”.

A Israel interessa a balcanização da Síria e Iraque porque será mais fácil para eles o controlo de pequenas repúblicas. Desde a época da Guerra Fria Israel mantém muito estreitas relações com o clã Barzani, actualmente no poder no Curdistão iraquiano. Além disso apoia a Turquia e os EUA na ideia da criação de um Estado curdo sem tocar em território turco. A criação do novo Estado suporia a expulsão ou o massacre das populações árabes e cristãs assírias que vivem no norte da Síria, e que acolheram ali na altura os curdos que fugiam da repressão turca.

Não há que esquecer que o Emirato Islâmico é uma criação dos serviços de informações ocidentais, outorgando à Turquia o seu controlo. Por isso durante anos este país foi a base logística dos grupos terroristas no norte da Síria. Depois do derrube em 24 de Novembro de 2015 do Sukhoi SU-24 russo por caças F-16 da Força Aérea da Turquia, a Rússia começou a revelar o que era um segredo de polichinelo, mas com provas irrefutáveis, sobre o imoral saque do petróleo iraquiano e sírio com apoio da Turquia.

Durante a tomada de Yarablus (norte de Alepo) pelo exército turco, os jihadistas do Emirato Islâmico que controlavam essa localidade síria limitaram-se a retirar, obedecendo a ordens do seu mentor turco, sem opor resistência. Erdogan, carregado de arrogância pelo rápido avanço em território sírio tentou tomar Manbij, mas essa zona era a linha vermelha que, de acordo com os planos dos EUA, não devia transpor. Ao procurar fazê-lo, as forças blindadas turcas foram vítimas dos misseis antitanque disponibilizados aos curdos pelos serviços de informações dos EUA, travando as ambições de Erdogan mas deixando-o carregado de muito ressentimento e ódio.

Depois das ameaças turcas de um ataque iminente aos curdos aliados dos EUA em Afrín, no norte da Síria, as Unidades de Protecção Popular (YPG) confirmado o início dos bombardeamentos de Ancara na zona. O [terrorista] “Exército Livre Sírio” (ELS) une-se à ofensiva turca. Os curdos sofrem uma nova traição e os EUA, ao que parece, irão novamente deixá-los sós como já sucedeu no passado. Vale a pena ressaltar que o ELS jamais moveria uma simples peça de artilharia sem a coordenação com os serviços de informações dos EUA.

A França convoca uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para tratar os últimos acontecimentos na região, e ante o forte protesto e chantagem da parte turca, tratou de retirar importância à invasão do norte da Síria, anunciando que a sua prioridade é a situação de “direitos humanos” em Guta Oriental e Idlib, precisamente duas zonas onde o Exército Árabe Sírio realiza intensas ofensivas contra os mais bestiais grupos terroristas. Acabou-se aquela França com uma política exterior própria e soberana, desde há anos que andam a reboque dos EUA.

A República Árabe Síria é um Estado soberano e nenhum dos actores externos e internos tem direito algum de lhe arrancar parte do seu território para criar ali uma nova entidade. Se os líderes do YPG reflectissem e respeitassem a integridade do território sírio e rompessem qualquer pacto com potencias estrangeiras, o fim do conflito seria mais cedo do que o esperado. Lamentavelmente não há muitas esperanças de tomada de consciência por parte dos dirigentes curdos.

A situação está a complicar-se ainda mais devido aos interesses díspares entre as entidades beligerantes do conflito. Aos EUA interessa mantê-lo vivo, activo, para justificar a instalação de bases permanentes em [e a balcanização do] território sírio. A Turquia anuncia que Afrín não é necessariamente um limite territorial para a sua invasão. Os próximos acontecimentos determinarão o futuro imediato da Síria e da região.

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Texto completo en: https://www.lahaine.org/la-variable-kurda-toma-protagonismo


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