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Confirmado: os EUA reconhecem que as sanções visam o colapso da Venezuela

Misión Verdad :: 09.02.18

A ingerência e a agressão dos EUA e seus aliados contra a Venezuela sobe de tom e é abertamente assumida: com a CIA no comando, trata-se mais um processo em que todos os meios são colocados no terreno no sentido de criar o caos no país, de aí intervir militarmente, de tomar posse das riquezas nacionais, de destruir o processo bolivariano. O que os EUA vêm fazendo em particular no Médio Oriente e em África querem agora prossegui-lo na América Latina.

O Estado profundo no confessionário
Na semana passada o chefe da CIA, Mike Pompeo, confessou num fórum do think-tank neoconservador American Enterprises Institute que o aparelho de informações que dirige trabalhou lado a lado com Trump as componentes operacionais das sanções contra a Venezuela.
Os media internacionais que registaram a declaração extraíram dela a parte mais rentável para as suas conveniências, encobrindo os detalhes que durante quase uma hora Pompeo expôs sobre o trajecto que deu lugar à institucionalização de sanções financeiras mediante uma Ordem Executiva (13692) e várias suspensões de reconhecimento por parte da OFAC/Departamento do Tesouro a mais de 30 funcionários de alto nível do Estado venezuelano.
Para instrumentar as sanções a CIA, segundo o seu máximo chefe, preparou diversos relatórios sobre o status actual da Fuerza Armada Nacional Bolivariana (FANB) e sua relação com o poder executivo, e de igual forma foi elaborado um estudo sobre os pontos débeis na dívida externa quanto a prazos e a capacidade de pagamento do país, procurando uma maior eficácia que se traduziria não só em forçar uma situação de default, mas também distorcer o esquema de comercio internacional da Venezuela em produtos básicos como alimentos e medicamentos.
Devido talvez ao esmagador fluxo de (des)informação na Venezuela, onde acontecimentos chave podem ser submersos por alguma irrupção “noticiosa” de acontecimentos ligados ao entretenimento ou do espectáculo, as declarações do chefe da CIA passaram pela malha da indiferença, interessadamente promovida pelas novas tecnologias da informação relativamente à política. E isso também faz parte do plano: a individualização como processo sistémico (o oposto absoluto da política) é a última pincelada da grande obra do poder global para suprimir os vasos comunicantes da sociedade.
Do que diz Pompeo decorrem, pelo menos, três sinais que vão enquadrando o conflito político, e a sua transnacionalização consciente por urgentes razões geopolíticas, depois da instalação da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) e do descalabro da oposição interna:
1) A confissão da CIA é um reflexo de que o poder duro (chamam Estado profundo ao conclave de grandes corporações que decide a política exterior das potencias) deixa para trás a diplomacia, e na melhor das hipóteses impõe os seus ritmos e formas de execução,
2) que organismos de segurança estado-unidenses entrem em jogo frontal revela que o enfoque das sanções e suas derivações no terreno corresponde a um laboratório pré-bélico, onde a vida da população e o Estado-nação se tornam objectivos a ser destruídos por mecanismos de poder real (interrupção de abastecimentos alimentares, sanitários e financeiros), forçando um cenário de intervenção preventiva por “razões humanitárias”; o tão anunciado “colapso” final,
e 3) as agencias do poder executivo dos EUA e o Congresso ajustam-se a um ponto de viragem operativo e narrativo onde “a saída” para a questão venezuelana é transnacional e de força; as eleições e o Estado em exercício (a Constituição nacional), enquanto prática social e quadros simbólicos da nação venezuelana, transformam-se em obstáculos para o desenvolvimento do plano de fundo. A Administração Trump é basicamente uma Junta Militar. Por essa razão a cantiga de “fraude” minutos passados sobre o anúncio de que seriam proximamente convocadas eleições presidenciais.
A criação de “Sou Venezuela” como vanguarda ideológica da “intervenção humanitária”, nomeada já sem nenhum disfarce pois sabem que a partir do Congresso receberão alguns aplausos, deve ver-se como ampliação dessa frente. A vertigem que o aumento das sanções implica também requer aparentar certa venezuelanização.

O Departamento de Estado acata as ordens

Através de uma videoconferência com jornalistas de vários meios de comunicação, um alto funcionário do Departamento de Estado, referido sem mais pormenores como “Oficial do Departamento de Estado Maior”, forneceu alguns detalhes sobre a deslocação à América Latina a partir de 1 de Fevereiro que o Secretario de Estado, Rex Tillerson prepara. Na programação está agendado visitar México, Argentina, Colômbia, Peru e Jamaica, onde se reunirá com as principais autoridades e o corpo diplomático de países que integram o Grupo de Lima.
Como dado fundamental: esta deslocação realiza-se a poucos dias de a China, qualificada como uma das principais ameaças para os EUA na sua Estratégia de Segurança Nacional e de Defesa do ano 2018, apresentar oficialmente o seu projecto Iniciativa da Franja e da Rota no II Fórum Celac-China. Um dado que não é menor, dado que a China vem aumentando a sua influencia financeira na região e desalojando os EUA enquanto principal parceiro comercial, onde a Venezuela figura como uma plataforma estratégica para a projecção do gigante asiático.
Os jornalistas interrogaram o “Oficial” sobre os diversos temas que Tillerson trataria na deslocação. As labirínticas negociações sobre o TCLAN com México, o aumento da produção de drogas na Colômbia e outras negociações sobre a abertura de mercados para as exportações estado-unidenses parecem preencher boa parte da agenda, embora o tema Venezuela vá entrar pela porta do cavalo e à força nas primeras páginas da imprensa mundial.

A deslocação de Tillerson anuncia uma ronda coordenada de sanções mais agressivas contra a economia venezuelana

Assim foi desvelado por entre as perguntas, devido a que o quadro de desconfiança e incerteza que a Administração Trump gerou nos países da região pode, em termos de pertinência, competir em condições de igualdade com o forçado tema venezuelano.
A uma pregunta da jornalista María Molina, de Radio Colômbia, sobre a eficácia das sanções contra a Venezuela, respondeu: “A campanha de pressão está a funcionar. As sanções financeiras que impusemos ao Governo venezuelano obrigaram-no a começar a cair em default, tanto em dívida soberana como da PDVSA, a sua companhia petroleira. E o que estamos vendo (…) é um colapso económico total na Venezuela. Então a nossa política funciona, a nossa estratégia funciona (…)”. A declaração de um crime brutal. E também uma mensagem para tentar debilitar a mesa de diálogo na República Dominicana.
Também destaca (com certo tom de euforia) as sanções coordenadas com a União Europeia e a criação do Grupo de Lima, como modo de configurar uma coligação que acompanhe e aumente a capacidade de dano da agenda de sanções dos EUA.
Desta forma os EUA reconhecem algo que era óbvio, mas que soa de forma diferente quando emana da boca do poder: as sanções impostas contra a Venezuela não tinham como objectivo “restaurar a democracia” ou oferecer incentivos para uma “negociação seria” com a oposição, mas sim o colapso financeiro e económico do país para instalar uma situação de caos perpetuo que pudesse abrir uma saída militar. A privação de alimentos e medicamentos, o boicote do dólar paralelo e o bloqueio financeiro são passos prévios, e os seus executores reconhecem que vão por bom caminho. E o tempo de ocultar as agendas passou já.
Entretanto o Congresso dos EUA aprovou já na sua câmara baixa um projecto de lei de “assistência humanitária” à Venezuela, que obriga a diplomacia estado-unidense a conseguir no Conselho de Segurança da ONU as medidas coercitivas que permitam fazer chegar essa “ajuda” sob mecanismos militares e privados. O Departamento de Estado reconhece que as políticas de sanções representam um conjunto de agressões previas para que a referida lei se imponha como única opção viável para a Venezuela.
Um quadro que parece estar suficientemente fechado.

As visitas de altos funcionários dos EUA como método

Parece que Tillerson tem bem marcada a sua agenda e para onde dirigir a bússola e as pressões, não é em vão que Pompeo adjudica a si próprio as sanções e o “Oficial” entrevistado do Departamento de Estado lhe fabrica um molde para os objectivos que as sanções visam. Uma manobra que deixa à vista os actores de peso que estão por detrás operando os comandos.
Neste sentido, e à luz dos componentes da frente interna (diálogo, Assembleia Nacional nas mãos de actores como Un Nuevo Tiempo, a decomposição da oposição de partidos políticos e a convocação de eleições presidenciais) tudo sugere que o périplo de Tillerson não só anuncia uma ronda de sanções mais agressivas contra a economia - no Diario de las Américas projecta-se um possível embargo petroleiro -, como a construção das bases de apoio regional para a sua sustentação e legitimidade. Para isso foi criado o Grupo de Lima, que nesta primeira etapa funcionou como garante do cerco político, diplomático e financeiro contra o país. Haverá que ver quantos países são arrastados a romper relações comerciais e diplomáticas com a Venezuela, pois para além dos comunicados os EUA necessitam de enviar uma mensagem de força e aumentar a eficácia do cerco diplomático e financeiro.
Uma mínima observação prospectiva das variáveis comentadas permite manter a probabilidade de que à medida que avance o colapso induzido pelas sanções, essa coligação poderia transformar-se numa frente militar para pressionar por uma intervenção “humanitária”. A resistência que geraram as palavras de Trump de que não descartava a “opção militar” na Venezuela, soa de forma diferente se a “alternativa” é uma intervenção para supostamente proteger/salvar uma nação colapsada ou a abertura de “corredores humanitários” por países fronteiriços, com fins de balcanização. A CIA e o Congresso estão a trabalhar nessa mudança de sentido, ante a qual o Departamento de Estado e seu “chefe” baixam a cabeça.
Meios de comunicação com amplas relações comerciais e políticas com la CIA, pense-se em The Washington Post e The New York Times, aceleram a toda a força numa intensa campanha para homologar a Venezuela com a Somália ou o Congo, países também vítimas de acções de guerra similares. Os crimes não são só económicos, são também informativos.
Os périplos de altos funcionários dos EUA como mecanismo para preparar uma agenda de assedio mais abrangente têm o seu antecedente na deslocação de Mike Pence em Agosto, semanas depois de instalada a ANC e com uma coligação opositora devastada, visita em que tratou de integrar apoios regionais no sentido de aumentar as pressões contra a Venezuela.
Semanas mais tarde uma Ordem Executiva assinada por Donald Trump institucionalizou o bloqueio financeiro contra a Venezuela, uma acção que hoje caotiza todos os aspectos da vida social, económica e política do país. Um crime que hoje desafia toda a legalidade internacional e local e que põe encostado à parede o estômago da população.


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