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Tillerson, um périplo fracassado

Ángel Guerra Cabrera :: 10.02.18

No artigo que ontem publicámos era feita a denúncia dos planos EUA para uma escalada de agressão contra a Venezuela, e do périplo do Secretário de Estado Tillerson visando arregimentar apoios. Mas o que conseguiu foi muito pouco, se comparado com a arrogância imperial com que fora antecipado. O poder militar EUA está cada vez mais distante do seu poderio económico. Mesmo os países latino-americanos que nada têm de progressistas constatam que até a defesa dos interesses das suas burguesias implica perspectivas menos sujeitas ao decadente vizinho do norte.

Fracassou a tentativa do secretário de Estado Rex Tillerson de impor no seu périplo pela América Latina e o Caribe as obsessões e pesadelos do imperialismo estado-unidense no seu momento de maior decadência. O seu propósito principal de avançar para o derrubamento do presidente Maduro mediante um golpe de Estado ou outras vias violentas que já conhecemos, de liquidar a revolução bolivariana e apoderar-se do petróleo de Venezuela, está muito longe de se concretizar como resultado da sua deslocação. Recebeu um contundente e imediato repudio não só de Maduro como de Vladimir Padrino, general em chefe da Fuerza Armada Nacional Bolivariana, rodeado dos principais comandantes da instituição, clamorosamente apoiado pelos quadros e massas chavistas.

A viagem foi precedida por um discurso desrespeitoso, irresponsável e ingerencista contra Cuba e Venezuela na Universidade de Texas, em que teve a ousadia de reivindicar a vigência da Doutrina Monroe e de questionar as relações de China e Rússia com a nossa região. “A América Latina não necessita de novos poderes imperiais que apenas olham pelo seu interesse. Os Estados Unidos são diferentes: não procuramos acordos de curto prazo com lucros assimétricos, nós procuramos parceiros”. ¡Que cinismo!

O secretario omitiu que é a potência que ele representa, juntamente com as suas corporações, e não a China e a Rússia, quem por mais de um século submeteu a nossa região ao saque, à exploração, à ingerência, às intervenções militares, aos golpes de Estado e ao assassínio de centenas de milhares de operários, camponeses, estudantes e indígenas.

Tillerson chegou a sugerir que fosse embora o presidente eleito por uma maioria de venezuelanos e a intrometer-se descaradamente no processo eleitoral de Cuba. O chefe do departamento de Estado não parece ter-se dado conta de que os Estados Unidos não são o poder quase omnímodo que aparentavam ser com o desaparecimento da URSS e que a actual presença chinesa e russa na nossa América obedece a decisões soberanas dos governos da região, inclusivamente de alguns muito à direita, como Argentina e Brasil. Tillerson poderá dizer o que lhe ocorra mas, como o demonstram os exemplos de Cuba e Venezuela, Washington nem sempre alcança os seus objectivos com a política de sanções, ameaças, tentativas de chantagem e intervenções. Pelo contrário, essas políticas acabam por ser contraproducentes, como o presidente Obama compreendeu depois de seis décadas de as aplicar a Cuba.

Tão pouco, por mais pressão que Washington faça, vão os governos da região cessar as relações com Rússia e China, pois necessitam de lhes vender as suas matérias-primas, o que beneficia as suas economias e enriquece as oligarquias e inclusivamente as transnacionais. Também porque existem já projectos conjuntos de infra-estrutura de milhares de milhões de dólares com Pequim e há muitos mais a caminho, que a potencia do norte carece dos recursos e da vontade de acometer. Isto viu-se muito claramente na última Cimeira CELAC-China em Santiago do Chile. Quanto às armas russas, para além da sua grande qualidade e preços razoáveis, é evidente que para qualquer país decidido a ser independente e a preservar a sua soberania são uma muito melhor opção que as estado-unidenses.

Tillerson não fez mais do que trazer-nos a sua versão pessoal do desprezo face aos nossos povos e aos africanos – países de merda (sic) - como Trump costuma dizer. Da grosseria e da arrogância com que o seu chefe fala de nós. Veio buscar lã e saiu tosquiado. Pretendia que saltasse um Pinochet e foi rechaçado por um coro de militares patriotas venezuelano falando pela boca do general Padrino: “Na Venezuela não aceitaremos jamais que algum governo ou potência estrangeira intervenha seja de que forma for”. Contrasta com a conduta servil e suicida dos líderes da oposição venezuelana, a quem bastou um telefonema de Tillerson desde Bogotá para não assinarem os acordos da República Dominicana.

A viagem do secretario concentrou-se nos países do chamado Grupo de Lima. Cabe recordar que os Estados Unidos tiveram que recorrer a estes governos ultraneoliberais porque os caribenhos e os países da ALBA os impediam de impor sanções à Venezuela no seio da OEA. Mas mesmo estes governos ingerencistas, como o mexicano, sublinham que não são partidários de uma saída violenta na Venezuela. Suponho que olham no espelho de Iraque, Líbia e Síria.

Como diz a declaração da chancelaria cubana em resposta a Tillerson: «A Nossa América despertou e já não será tão fácil dominá-la.»

Rebelión publicou este artigo com autorização do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar em outras fontes.


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