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Argentina: Aumentam os preços, congelam os rendimentos populares y dizem que baixa a pobreza…

Julio C. Gambina :: 04.04.18

Na Argentina de Macri todos os indicadores mostram uma política que privilegia o capital especulativo, onde os sectores do imobiliário, da construção e financeiro prosperam, os serviços são privatizados, a inflação dispara e os salários e pensões são severamente contidos. O capital monopolista e neoliberal transnacional no seu esplendor. E uns serviços de estatística que conseguem ver, num tal contexto, a pobreza e a indigência a diminuírem…

A combinação da evolução dos preços e das restrições aos rendimentos populares é contraditória com a evolução da pobreza e da indigência segundo os dados oficiais.
Embora não existam dados actualizados sobre o crescimento de preços para Março, os pronósticos oscilam entre 2 e 2,5%, com um registo trimestral próximo dos 50% da projecção oficial para todo 2018: uns incumpríveis 15%.
O próprio BCRA indica projecções para o ano próximas dos 20% de inflação, contra uma actualização dos rendimentos salariais que se pretende não superior a 15%.
Acaba de ser anunciado um aumento de 40% na tarifa do gás e novos ajustamentos de preços em transporte, energia e combustíveis, com um acumulado em dois anos de gestão Macri que supera qualquer actualização de salários, pensões ou subsídios a sectores desprotegidos.
Fica claro que se propõem eliminar subsídios a serviços e legitimar a sua mercantilização, em coincidência com a expectativa de lucros de proprietários estrangeiros transnacionalizados.
Toda concepção de direitos sucumbe às mãos da mercantilização dos serviços públicos privatizados.
A projecção é de continuidade do aumento de tarifas, pelo menos durante o primeiro semestre do presente ano, pelo que se augura uma tendência para a estabilização de preços e tarifas no final de 2018.
É algo que haverá que verificar, especialmente face à conflitualidade e aos protestos emergentes dos aumentos em curso.
Resulta muito curioso que ao mesmo tempo que escalam os preços, que como sabemos discriminam regressivamente os mais empobrecidos, o INDEC informe de uma queda percentual da pobreza e indigência devida aos rendimentos.
Agora seriam pobres 25,7% das pessoas que habitam a Argentina, e os pobres indigentes alcançariam segundo el INDEC os 4,7%.
Nesta línea, o Cabaz Alimentar Básico que define o limiar da indigência alcança os 6.665 pesos mensais e a média de rendimentos dos abrangidos é de 4.061 pesos ao mês.
O Cabaz Básico total, que define o limiar da pobreza é de 17.223 pesos mensais e o rendimento médio das pessoas nesta situação é de 11.114 pesos ao mês.
Alguns interrogam.se sobre a evolução dos indicadores de pobreza e indigência no curto prazo, à luz da renovada subida de preços, não só nos serviços, como também em alimentos, ou naquilo que se denomina a inflação núcleo, ou seja, aquela não associada aos preços regulados.
¿É sustentável um discurso de redução da pobreza e indigência com a inflação actual ou próxima?
Para além das discussões relativas ao método aplicado pelo INDEC para chegar a estas quantificações, sobressaem ainda nestes números apresentados como positivos os quase 40% de pobreza entre os menores de 14 anos, o que justifica outros debates sobre o presente e o futuro do país.
A especulação define a economia
O debate sobre a pobreza existe num quadro de consolidação de uma política económica que privilegia a especulação financeira.
Para prova basta assinalar a intervenção do BCRA, que no mês de Março vendeu mais de 2.000 milhões de dólares das reservas internacionais para sustentar o preço de um dólar em 20,50 pesos.
¿Vender reservas no mercado financeiro é a única coisa que se pode fazer com recursos das reservas internacionais? ¿Poderiam ter o destino dos investimentos produtivos que se imaginam para os capitais externos?
Ao mesmo tempo, o Banco Central manteve a taxa de juro em 27,25% para as LEBAC, com o argumento de suster a subida dos preços.
Preocupa-os a escalada do dólar e por isso são estimuladas taxas em alta que afastam qualquer destino produtivo do crédito e a expansão da actividade económica, que cresce de forma enviesada.
Com efeito, é notória a expansão da construção, da actividade imobiliária e das finanças, a que se soma o agro, o motor da economia nas palavras de Mauricio Macri.
Os dados não determinam um crescimento sustentado e por isso na mensagem presidencial ante os parlamentares na inauguração do ano legislativo se aludiu a um crescimento “invisível”, o que se manifesta em empregos de baixa qualidade e deficiente segurança social associada.
O país continua sendo sustentado pelo endividamento público, hipotecando o presente e o futuro, enquanto a política económica depende da entrada de capitais externos, precisamente quando o Ministro da Energia explica que na medida em que cresça a confiança expatriará os seus activos no exterior.
Por isso, a essência da política governamental é o ajustamento nos rendimentos populares, controlando as negociações colectivas para limitar salários dos trabalhadores, que condicionam outros rendimentos de contratados de forma irregular.
Imensos lucros por operações financeiras e concessões com origem em sectores hegemónicos da produção e da exportação, contra os rendimentos deteriorados de uma parte maioritária da sociedade.
Isso sim, com indicadores que favorecem um discurso para a disputa do consenso político da sociedade.
La Haine
Texto completo em: https://www.lahaine.org/argentina-crecen-los-precios-congelan


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