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Oito mentiras de Theresa May sobre o “Caso Skripal”

Alexander Shulgin [*] :: 30.04.18

Nesta notável intervenção, o embaixador Shulgin desmonta uma por uma as mentiras, falsificações e fraudes que o governo britânico desenvolve em torno do chamado “caso Skripal.” Que uma tal conjunto de falsidades flagrantes tenha dado origem a uma ofensiva diplomática de grande escala contra a Federação Russa é mais um sinal dos perigosos tempos que vivemos.

Senhor Presidente,
Gostaria de começar a minha intervenção com palavras que pertencem ao grande pensador Martin Luther King: “uma mentira é como uma bola de neve: quanto mais rola, maior se torna”.

Este sábio aforismo é plenamente aplicável em política. Quem escolheu o caminho do engano terá de mentir repetidamente, inventar explicações para as discrepâncias, espalhar desinformação e falsificar, usando desesperadamente todos os meios para cobrir as pistas das mentiras e esconder a verdade.
O Reino Unido entrou nessa via escorregadia. Tudo Isto se vê claramente no exemplo do “caso Skripal” fabricado pelas autoridades britânicas, esta mal disfarçada provocação anti russa, acompanhada de uma campanha de propaganda sem precedentes, retomada por um grupo de países, finalizando com a expulsão definitiva e sem precedentes de diplomatas sob um rebuscado pretexto. Por favor não tentem fazer passar esse grupo pela comunidade internacional – está longe de ser o caso.
Faz já um mês que a primeira-ministra britânica Theresa May avançou com acusações extremamente graves contra a Rússia relativas à alegada utilização de armas químicas. Esperamos há longo tempo por uma explicação, confiando que os nossos colegas britânicos poderiam eventualmente apoiar estas empoladas afirmações com factos pelo menos parcialmente inteligíveis. Propusemos várias vezes trabalhar juntos na investigação dos acontecimentos de Salisbury, pedimos informações. A resposta consistiu em altivas e arrogantes declarações dizendo que a Rússia deveria confessar o crime.
A parte britânica continua a divulgar acusações absolutamente infundadas, espalhando cada vez mais novas versões dos acontecimentos, muitas vezes desprovidas de sentido. Os políticos e funcionários britânicos simplesmente não podem já deixar de derramar novas torrentes de mentiras. Londres sabota qualquer tentativa de conduzir uma investigação verdadeiramente objectiva do incidente de Salisbury com a participação de especialistas russos. Classificaram tudo, supostamente conduzindo a sua própria investigação. Embora os “responsáveis” tivessem já sido apontados.
A razão por que fazem isso é óbvia. A Grã-Bretanha pretende a todo custo evitar o estabelecimento da verdade sobre os factos, esconde todas as provas que podem desmascará-los. Estão simplesmente a ganhar tempo. Porque quanto mais se protela, mais difícil será saber o que realmente aconteceu (ou não) em Salisbury.
A mentira teme sempre a verdade, porque a verdade é a mais terrível arma contra a mentira. Passemos então aos simples factos que demonstram a que ponto o governo britânico difunde insolentemente e de forma tosca insinuações relativas ao caso “Skripal”.

MENTIRA Nº1
A Rússia não responde a qualquer das legítimas perguntas apresentada pelo Reino Unido em 12 de Março de 2018, através do embaixador da Federação Russa em Londres, A.V. Yakovenko (alguns aliados do Reino Unido continuam a repetir isto como um mantra).

Eu gostaria de vos lembrar que a parte britânica sugeriu que nós confessássemos uma das duas versões que ela inventou: ou o envenenamento de Sergei e Yulia Skripal foi uma acção deliberada da Rússia; ou a Rússia perdeu o controlo do arsenal de armas químicas que alegadamente possui. Apesar do descarado atrevimento deste ultimato, nós certamente não o ignorámos e demos de imediato uma resposta inequívoca: a Rússia não tem nada a ver com o incidente químico de Salisbury. A Grã-Bretanha não nos contactou com quaisquer outras perguntas.

MENTIRA Nº2
A Grã-Bretanha age em estrita conformidade com a Convenção sobre armas químicas.

Os factos demonstram exactamente o oposto. Por exemplo, o artigo IX do Convenção estipula que os Estados partes nos casos devem realizar consultas bilaterais sobre quaisquer questões ambíguas. Vemos que, na realidade, o Reino Unido evitou agir em conformidade com esta disposição e recusa ainda interagir connosco. No que diz respeito ao ultimato britânico já referido, feito chegar ao embaixador da Federação da Rússia, ele não pode em nenhum caso ser considerado como uma “proposta de cooperação” no sentido da Convenção ou um “pedido de apoio jurídico”.
Pela nossa parte enviamos, a 13 de Abril, através do Secretariado Técnico, uma nota para a parte britânica no âmbito do nº 2 do artigo IX, com uma lista de questões legítimas que temos sobre o “caso” Skripal”. Agimos estritamente em conformidade com a Convenção e esperávamos que nossos parceiros de Londres fizessem o mesmo. Ainda não houve resposta. É como se o Reino Unido não se tivesse absolutamente apercebido da existência da Convenção ou não quisesse agir em conformidade com as suas normas.
Também fomos testemunhas da maneira como Londres desenvolveu uma nova forma de trabalho – “a verificação independente pelo Secretariado Técnico da OPAQ sobre as conclusões da parte britânica”. Quero sublinhar que não há nada disto na Convenção. É uma invenção do Reino Unido. Ao invés de seguir com rigor as disposições da Convenção, o Reino Unido decidiu lançar poeira para os olhos de nós todos.

MENTIRA Nº3
A Rússia recusa-se a cooperar no estabelecimento da verdade.

Na realidade, é exactamente o contrário. A Rússia está extremamente interessada - provavelmente mais do que qualquer outro país - numa investigação honesta, aberta e imparcial sobre o incidente de Salisbury. Temos repetidamente proposto, pedido, exigido ao lado britânico para cooperar na investigação. Submetemos a exame da 57ª sessão extraordinária do Conselho Executivo um projecto de decisão que continha o apelo a que Rússia e Grã-Bretanha estabelecessem essa interacção com a participação do Secretariado Técnico. Manifestamos então e confirmamos agora a nossa disponibilidade para cooperar com a OPAQ e no seio da OPAQ.
Infelizmente, todos os nossos esforços esbarram com a parede cega da total relutância de Londres em interagir.

MENTIRA Nº4
O Reino Unido pretende que a Rússia, alegadamente, multiplica infinitamente as suas versões do incidente químico de Salisbury, tentando desviar de si mesmo a onda de críticas pela alegada utilização de armas químicas em solo britânico.

Na realidade, isto é o que o lado britânico tem vindo a fazer, difundindo através de seus meios de comunicação ditos “independentes” infinitas versões: primeiro o veneno estava na mala, depois no puxador da porta, em seguida nos cereais, depois no restaurante, depois no ramo de flores, depois no sistema de ventilação do carro, depois no perfume, etc.

MENTIRA Nº5
Os dirigentes russos teriam declarado que o extermínio dos traidores no exterior é uma política de Estado da Federação Russa.

É uma calúnia e um total absurdo. Mostrem onde viram isso. É óbvio que o Reino Unido não poderá apresentar um único exemplo de uma declaração deste tipo porque nada de semelhante foi alguma vez dito pelos líderes russos.

MENTIRA Nº6
As conclusões dos peritos do Secretariado Técnico com base nos resultados da análise de amostras colhidas do pai e filha Skripal confirmaram que tinham sido envenenados com uma substância da família “Novichok”.

Os nossos peritos militares estão prontos a apresentar a sua avaliação do que foi dito no relatório do Secretariado Técnico com base nos resultados do trabalho do grupo de especialistas do Reino Unido.
Por agora, direi apenas uma coisa: a afirmação de que o Secretariado Técnico confirmou que este produto químico indica sua origem russa é uma mentira completa. O próprio relatório não diz uma única palavra sobre o nome “Novichok”; a Convenção sobre Armas Químicas simplesmente não contém esse conceito. E no relatório do Secretariado Técnico também não há nenhuma confirmação de “pegada russa” na substância química encontrada em Salisbury.
Apesar disso, as autoridades britânicas lançaram imediatamente nos media de todo o mundo a falsa notícia de que a OPAQ teria supostamente confirmado que os Skripal haviam sido envenenados com “Novichok”, e que este último, dizem, foi desenvolvido na URSS e na Rússia, donde a culpa seria de Moscovo. É assim que as conclusões do relatório do Secretariado Técnico são falsificadas.

MENTIRA Nº7
O dito “Novichok” é uma invenção soviética que, supostamente, não poderia ser produzido senão na Rússia.

É necessário lembrar que “Novichok” é o nome inventado no Ocidente para um grupo de agentes químicos que foram desenvolvidos em muitos países, incluindo o Reino Unido. Numa das suas entrevistas recentes, o Secretário de Estado Boris Johnson confirmou que o Reino Unido tem amostras dessa substância no laboratório em Porton Down. Na verdade, temos muitas perguntas a fazer a este laboratório. Seria interessante saber como é que determinaram que os Skripal haviam sido envenenados com um agente neurotóxico tipo “Novichok”. Porque qualquer pessoa razoável entenderia que só se poderia estabelecê-lo se tivessem o componente original para poderem comparar com a substância química que foi encontrada. Decorre daí que este laboratório tem um stock de “Novichok” e possivelmente também os antídotos que foram usados no tratamento dos Skripal.
Na Rússia, nunca houve investigação e desenvolvimento ou trabalho experimental no âmbito de um programa designado “Novichok”. Repito, nunca houve programa com tal nome. Na era soviética, com início na década de 1970, não só os soviéticos, mas também cientistas britânicos e norte-americanos estavam a trabalhar na criação de novos tipos de agentes neurotóxicos. Foi assim que o famoso gás de nervos VX foi criado. E na década de 1990, após o colapso da URSS, os serviços secretos ocidentais levaram da Rússia um grupo de químicos com a respectiva documentação. Os especialistas ocidentais começaram a estudar cuidadosamente os documentos e, com base neles começaram a trabalhar nesse sentido, obtiveram certos resultados, que foram tornados públicos.
Sabemos muito bem que os agentes neurotóxicos do tipo “Novichok” estavam em produção em vários países. E, contrariamente aos nossos parceiros ocidentais, que estão constantemente a dar a entender que sabem algo mas que se trata, como dizem, de assuntos secretos e que não podem revelá-lo, nós operamos de forma diferente. Trabalhamos com fontes abertas. Assim em 1 de Dezembro de 2015, o United States Patent and Trademark Office contactou a agência russa responsável pelas questões relativas a patentes com um pedido de verificação de patenteabilidade de uma invenção feita por um cientista americano T. Rubin. Eis o documento. (apresenta-o).
Este documento fala sobre a invenção de uma bala especial, cuja peculiaridade é ter uma cavidade separada para equipá-la com diferentes tipos de agentes tóxicos. Ao usar a invenção mencionada, o efeito letal é alcançado graças ao efeito deste agente tóxico no organismo humano. Por outras palavras, estas munições caem sob a responsabilidade da Convenção sobre armas químicas. O princípio de funcionamento da bala é equipa-la com componentes binários que interagem entre si no momento do impacto. E isso é o que lemos na página 11 deste documento americano oficial, “Pelo menos uma das substâncias activas pode ser escolhida entre agentes neurotóxicos, incluindo… tabun (GA), sarin (GB), soman (GD), cyclosarin (GF) e VG,… VM, VR, VX e [atenção!] agentes Novichok ”
Por outras palavras, este documento confirma que nos Estados Unidos, os agentes neurotóxicos tipo “Novichok” não só foram produzidos como também patenteados como arma química. E não há muito tempo, apenas há um par de anos – a patente é datada de 1 de Dezembro de 2015.
Além disso, pesquisando a palavra-chave “Novichok” no google.patents.com, podem encontrar-se mais de 140 patentes concedidas pelos Estados Unidos, relativas à utilização e à protecção contra a exposição ao agente neurotóxico “Novichok”.
Estes são os factos reais e não palavreado oco. E a resposta àqueles que insolentemente pretendem que os agentes nervosos do tipo “Novichok” existiam e foram produzidos na URSS e na Rússia.

MENTIRA Nº8
Uma das vítimas, a cidadã russa Yulia Skripal, está alegadamente a evitar contactos com parentes e a recusar assistência consular russa.

Na realidade, as autoridades britânicas estão zelosamente a ocultar Yulia Skripal dos media e do público. Não se sabe onde se encontra. Ao lado russo, tal como aos seus parentes (à sua prima Victoria foi negado um visto de entrada pelas autoridades britânicas) está a ser-lhe negado o acesso. Não tem a oportunidade de regressar à Rússia e ser medicamente examinada e tratada.
As circunstâncias acima mencionadas indicam que a cidadã russa Yulia Skripal está de facto a ser retida como refém pelas autoridades britânicas, retida pela força no território do Reino Unido, sujeita a manipulação psicológica.
Expus apenas alguns exemplos da forma como as autoridades britânicas espalham desinformação e mentem abertamente. Esta lista de revelações poderia provavelmente prosseguir, mas talvez devamos parar por aqui. É sintomático que o Reino Unido não esteja sequer a considerar refutar uma qualquer das suas teses, apesar do facto de elas serem completamente desprovidas de fundamento.
Não tenho quaisquer dúvidas de que no futuro podemos esperar novas vagas de desinformação, de pseudo-fugas de informação para os meios de comunicação, ataques insolentes por parte das autoridades britânicas. Mas nenhuma prova real será jamais apresentada.
O Reino Unido mostra claramente que não está disposto a cooperar adequadamente no quadro da investigação desta obscura história. Isto convence-nos de que o Reino Unido não quer a verdade. Eles não podem permitir que seja revelada.
O relatório apresentado pelo Secretariado Técnico sobre as conclusões dos peritos britânicos suscita uma série de perguntas e requer exame pormenorizado suplementar, inclusive do lado britânico. Qualquer especialista entenderia que as conclusões finais não podem ser feitas senão tendo perante os nossos olhos os materiais do produto químico e a análise espectral das amostras mencionadas. E o Secretariado Técnico transmitiu esses materiais apenas a Londres.
Sublinhamos que a Rússia não atribuirá credibilidade a quaisquer conclusões relativas ao caso “Skripal”, enquanto uma simples condição não for cumprida: os especialistas russos terão acesso às vítimas, bem como aos materiais referidos na análise dos peritos da OPAQ e ao volume total das informações reais sobre este incidente que Londres tem à sua disposição.
Temos bases sólidas para acreditar que tudo isto é uma provocação grosseira contra a Rússia por parte dos serviços secretos do Reino Unido. E se o lado britânico continua a recusar-se a cooperar connosco, não fará senão reafirmar a nossa convicção de que o caso é exactamente esse.

Senhor Presidente,

Não podemos deixar de lembrar o seguinte ditado: para algumas pessoas, a mentira não é um meio de justificação, mas um meio de defesa. Em 16 de Abril, ouvimos uma outra estranha declaração: o G7 apela à Rússia para responder a questões legítimas do Reino Unido sobre o caso Skripal. Podeis considerar esta declaração como a nossa resposta.
Ao mesmo tempo, gostaríamos que a parte britânica respondesse às numerosas perguntas específicas da Federação Russa sobre o incidente de Salisbury. Mais ainda, ficaríamos gratos se os representantes do G7 pudessem explicar-nos por que razão os seus países lançaram uma guerra diplomática contra a Rússia com base em falsificações.

Obrigado, Sr. Presidente.

[*] Embaixador da Federação da Rússia na Organização para a Proibição de Armas Químicas ( OPAQ ). A presente declaração foi apresentada na 59ª reunião dessa organização da ONU.

A versão em inglês encontra-se em netherlands.mid.ru/…
e a versão em francês em www.legrandsoir.info/…

Esta declaração encontra-se em http://resistir.info/ . Tradução revista por odiario.info


https://www.odiario.info