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A desmesurada ajuda estado-unidense a Israel

Khelil Bouarrouj :: 09.05.18

Trump decidiu – e concretizou - grandes cortes na ajuda concedida a outros Estados. A excepção é Israel. O dinheiro dos contribuintes dos EUA financia o Estado sionista e a sua política de apartheid, arma as suas tropas de ocupação, financia a sua indústria de armamentos, financia a reconstrução dos edifícios e infra-estruturas que Israel destrói com dinheiro que vai parar a empresas israelitas. Enquanto no seu próprio país infra-estruturas básicas estão à beira do colapso, e se agudizam problemas sociais e ambientais.

No quadro da campanha “America First”, Donald Trump comprometeu-se a cortar substancialmente a ajuda exterior. Em resultado desta promessa de campanha, durante o primeiro ano da sua presidência a ajuda estrangeira diminuiu dos 49 mil milhões de dólares de 2016 para 23 mil milhões em 2017, e no que respeita a 2018 a tendência prossegue com uns 10 mil milhões menos. Isto significou para numerosos países do mundo cortes súbitos e generalizados de consequências devastadores na saúde, educação e outros programas básicos.

A excepção desta tendência é Israel. No mais recente orçamento fiscal, o Congresso dos Estados Unidos aprovou 705.8 milhões para o programa de defesa de misseis de Israel, superando os 600 milhões atribuídos no ano passado. Esta ajuda soma-se aos 31 mil milhões de ajuda militar anual a Israel, em virtude de um Memorando de Entendimento (MOU) de dez anos, que aumentará até os 38 mil milhões durante o período 2019-2028.

Israel não só recebe estas somas de dinheiro de forma regular como exerce além disso um trabalho de lobby ante o Congresso estado-unidense para obter fundos complementares. Nos últimos anos o Congresso proporcionou milhares de milhões em ajuda adicional para o programa de misseis de Israel. Desde 1948 o Congresso atribuiu-lhe 134.7 mil milhões de dólares, convertendo o Estado israelita no maior receptor de ajuda estado-unidense desde a Segunda Guerra Mundial. Além disso, enquanto os demais beneficiários de assistência dos Estados Unidos são obrigados a gastar o total da ajuda em armas estado-unidenses, a Israel é permitido desviar 25% dos fundos da ajuda militar para subsidiar a sua própria indústria de defesa. Por outras palavras, os contribuintes dos Estados Unidos vêm financiando com o seu dinheiro o desenvolvimento da indústria de defesa israelita.

O Congresso dos Estados Unidos não só outorga estes benefícios a Israel como não lhe aplica a sua própria legislação relativa à proibição de dar assistência económica “a qualquer unidade das forças de segurança de um país estrangeiro se o Secretario de Estado tem informação fidedigna de que a referida unidade cometeu uma grave violação dos direitos humanos”. O mais recente relatório de direitos humanos do Departamento de Estado sobre Israel (2016) documenta “importantes abusos contra os direitos humanos” que incluem “assassínios extrajudiciais” cometidos pelas forças de segurança israelitas. Entretanto, é o oportunismo – e não a lei nem os princípios – o que rege a política de ajuda dos Estados Unidos a Israel. Não obstante, numa rara manifestação de coragem no Congresso, a representante democrata pelo Minnesota, Betty McCollum, introduziu uma proposta legislativa para cortar a ajuda estado-unidense que Israel utiliza nas suas agressões contra menores palestinos.

Paralelamente, o povo palestino enfrenta uma crise humanitária desde que Trump cortou mais de 300 milhões de dólares de ajuda destinada aos refugiados palestinos, numa tentativa de aplicar uma mão dura contra a direcção palestina. O corte afecta a UNWRA, com a qual os Estados Unidos têm vindo a colaborar durante anos para apoiar o acesso a alimentação, educação e saúde à população palestina refugiada. Agora o Congresso rejeitou manter este compromisso, apesar de a contribuição dos Estados Unidos a este organismo das Nações Unidas (364 milhões de dólares) ser menos de metade da ajuda adicional que o Congresso acaba de conceder a Israel.

Além disso, grande parte da assistência que os Estados Unidos (e outros Estados) proporcionam aos palestinos reverte para o Estado de Israel e para empresas israelitas. O economista israelita Shir Hever cunhou o termo “desvio da ajuda” ao descrever que pelo menos 78% do dinheiro da ajuda destinada aos palestinos acaba em mãos israelitas. Toda a ajuda humanitária aos palestinos deve passar por Israel, que se arroga o direito de cobrar taxas por transporte, armazenamento e “segurança”. Os Estados doadores que pagam a reconstrução de infra-estruturas palestinas depois de cada guerra israelita ou após a demolição das suas habitações estão inevitavelmente obrigados a negociar com as empresas israelitas de cimento, como a Nesher, que proporciona cimento a 85% de todas as construções de Israel e Palestina. O mesmo para outros fornecimentos e materiais que devem ser comprados a empresas israelitas. E isto relativamente às habitações, escolas e explorações agrícolas palestinas financiadas por países doadores que Israel destrói. Mas sucede que, além disso, os Estados Unidos não proporcionam assistência directa à Autoridade Palestiniana e desviam parte dos fundos que atribuem à assistência palestina ao pagamento directo de dívidas da AP para com Israel, como electricidade e tratamentos médicos.

Nos argumentos que se expõem tanto a favor como contra a assistência externa não é tomado em consideração o disparatado nível de apoio financeiro a Israel. Considerado na actualidade como Estado rico, a ajuda que recebe dos Estados Unidos coloca questões que vão para além da sua função de patrocinador de meio século de ocupação e apartheid. É efectivamente a própria agência de ajuda externa estado-unidense USAID quem informa que Israel é o mais rico receptor de ajuda externa e sublinha que o Banco Mundial (BM) o classifica como “país de altos rendimentos”. Segundo o BM, Israel é o vigésimo segundo Estado mais rico do mundo pelo seu PIB per capita, pouco abaixo de Japão e acima da França. O PIB de Israel ocupa a posição 34 na clasificación mundial, acima de Dinamarca, Irlanda e Singapura.

Para além de todos estes dados, urge questionar a assistência a Israel tendo em conta o colapso que afecta muitas infra-estruturas públicas estado-unidenses. Os aeroportos estado-unidenses necessitam de 42 mil milhões para se modernizar. A crise da água em Flint, MI, teve a sua origem na sistemática falta de investimento na manutenção da infra-estrutura de abastecimento de água. O Serviço de Parques Nacionais propôs aumentar as tarifas de entrada e alojamento para cobrir quase 12 mil milhões em custos de manutenção. Igualmente, os portos estado-unidenses requerem 15 mil milhões de investimento, enquanto a reparação de auto-estradas requer outros 420 mil milhões, além de 123 mil milhões para a manutenção de pontes deterioradas.
Com os 38 mil milhões de dólares que Israel receberá entre 2019-2028 (além de milhares de milhões mais para programas especiais) haveria o suficiente para renovar todos os aeroportos dos Estados Unidos, mais do que suficiente para restaurar parques nacionais e melhorar portos, e representaria um investimento crucial em estradas, pontes e água potável.

Embora a maioria dos membros do Congresso não se preocupe com os direitos dos palestinos, deveriam reflectir sobre a natureza desmesurada da ajuda a Israel.

Khelil Bourrouj é membro do Institute for Palestine Studies.
Fonte: https://palestinesquare.com/2018/04/23/the-grotesque-case-of-u-s-aid-to-israel/


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