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O Mundo Ocidental vive todo em Dissonância Cognitiva

Paul Craig Roberts :: 29.06.18

Craig Roberts descreve neste artigo aspectos de um fenómeno que Domenico Losurdo apontou noutro lugar: a dominação de classe actual manifesta-se não apenas através das ideias dominantes, mas através dos sentimentos dominantes. É assim que a opinião pública pode ficar justamente chocada com a separação das crianças das suas famílias nas fronteiras dos EUA, e ser incapaz de associar esse facto à destruição de milhões de famílias que a agressão imperialista leva a cabo em todo o mundo.

Vou utilizar neste artigo três das notícias mais difundidas para ilustrar a desconexão que lavra em todo o lado na mente ocidental.
Comecemos com a questão da separação das famílias. A separação das crianças dos seus pais imigrantes/refugiados/solicitadores de asilo causou um tal protesto público que o Presidente Trump recuou na sua política e assinou uma ordem executiva pondo fim à separação de famílias.
O horror de crianças encerradas em armazéns geridos por empresas privadas lucrando à conta dos impostos pagos pelos norte-americanos, enquanto os seus pais são processados por entrada ilegal no país, despertou do seu letargo até os mais “excepcionais e indispensáveis” norte-americanos satisfeitos consigo próprios. Constitui um mistério a razão pela qual o regime de Trump escolheu desacreditar a sua política de protecção de fronteiras através da separação de famílias. Talvez fosse intenção dessa política suster a imigração ilegal enviando a mensagem de que, se vens para os EUA, os teus filhos são-te retirados.
A questão é: como é que os norte-americanos vêem e rejeitam a desumana política de controlo de fronteiras e não vêem a desumanidade da destruição de famílias que tem constituído o sistemático resultado da destruição levada a cabo por Washington da totalidade ou de parte de sete ou oito países no século XXI?
Milhões de pessoas têm sido separadas das suas famílias por mortes infligidas por Washington, e em quase já duas décadas os protestos têm sido inexistentes. Nenhum protesto público impediu George W. Bush, Obama e Trump de realizarem acções clara e indiscutivelmente ilegais à luz do direito internacional - estabelecidos pelos próprios EUA como crimes de guerra – contra os habitantes do Afeganistão, Iraque, Líbia, Paquistão, Síria, Iémen e Somália. E podemos ainda acrescentar um oitavo exemplo: os ataques militares levados a cabo pelo estado neonazi fantoche da Ucrânia, apoiado pelos EUA, contra as províncias separatistas russas.
As mortes em massa, destruição de povoações, cidades, infra-estruturas, a mutilação, física e mental, a deslocalização que tem enviado milhões de refugiados em fuga das guerras de Washington a caminho da Europa, cujos governos consistem numa colecção de lacaios idiotas que apoiaram os massivos crimes de guerra de Washington no Médio Oriente e no Norte de África, não provocou qualquer protesto comparável ao que a política de imigração de Trump suscitou.
Como poderá suceder que os norte-americanos descortinem desumanidade na separação de famílias no controlo da imigração mas não a descortinem nos crimes de guerra massivos cometidos contra os povos em oito países? Estaremos a passar por uma forma de dissonância cognitiva de psicose de massas?
Passamos agora ao segundo exemplo: a retirada de Washington do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.
Em 2 de Novembro de 1917, duas décadas antes do holocausto atribuído à Alemanha Nacional-Socialista, o Secretário dos Estrangeiros Britânico Arthur James Balfour escreveu ao Lorde Rothschild dizendo que apoiava que a Palestina se tornasse uma pátria judaica. Por outras palavras, o corrupto Balfour ignorou os direitos e as vidas de milhões de Palestinianos que ocupavam a Palestina há dois milénios ou mais. Quem eram essas pessoas comparadas com o dinheiro de Rothschild? Para o Secretário dos Estrangeiros Britânico, não eram nada.
A atitude de Balfour para com os legítimos habitantes da Palestina é idêntica à atitude britânica para com os povos em todas as colónias ou territórios sobre os quais prevalecia o seu poder. Washington aprendeu este hábito e tem-no repetido de forma consistente.
No outro dia, a embaixadora de Trump na ONU, Nikki Haley, a tresloucada e insana cadela de estimação de Israel, anunciou que Washington se retirara do Conselho de Direitos Humanos da ONU por este constituir uma “latrina de preconceito político” contra Israel.
Que fizera o Conselho de Direitos Humanos da ONU para justificar esta censura da agente de Israel Nikki Haley? O Conselho de Direitos Humanos denunciara a política de Israel de assassinar palestinianos – médicos, crianças, mães, homens e mulheres idosos, pais, adolescentes.
Criticar Israel, por maior e óbvio que seja o crime cometido por Israel, significa que és um anti-semita e um “negacionista do holocausto.” Para Nikki Haley e para Israel, isto coloca o Conselho de Direitos Humanos da ONU nas fileiras nazis dos veneradores de Hitler.
O absurdo disto é óbvio, mas poucos, se é que existem, o detectam. Sim, o resto do mundo, à excepção de Israel, tem condenado a decisão de Washington, não só os seus adversários e os Palestinianos mas também os fantoches e vassalos de Washington.
Para verificar a desconexão, é necessário dar atenção à forma como são formuladas as condenações de Washington.
Um porta-voz da União Europeia disse que a retirada de Washington do Conselho de Direitos Humanos da ONU “arrisca minar o papel dos EUA enquanto defensor e apoiante da democracia na cena mundial.” Pode alguém imaginar uma declaração mais idiota? Washington é conhecido como um apoiante de ditaduras que aderem à vontade de Washington. Washington é conhecido como um destruidor de qualquer democracia latino-americana que tenha eleito um presidente que represente o seu povo e não os bancos de Nova Iorque, os interesses comerciais dos EUA e a política externa dos EUA.
Digam um só lugar em que Washington tenha sido um apoio da democracia. Falando só dos anos recentes, o regime de Obama derrubou o democraticamente eleito governo de Honduras e impôs o seu fantoche. O regime de Obama derrubou o democraticamente eleito governo da Ucrânia e impôs um regime neonazi. Washington derrubou os governos da Argentina e do Brasil, vem tentando derrubar o governo da Venezuela, e tem a Bolívia na mira juntamente com a Rússia e o Irão.
Margot Wallstrom, a ministra dos Estrangeiros da Suécia, disse: “Entristece-me que os EUA tenham decidido retirar-se do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Isto surge num momento em que o mundo necessita de mais direitos humanos e de mais ONU – e não do contrário.” Por que carga de água pensa Wallstrom que a presença de Washington, um conhecido destruidor de direitos humanos – basta perguntar aos milhões de refugiados dos crimes de guerra de Washington acorrendo à Europa e à Suécia – no Conselho de Direitos Humanos reforçaria o Conselho em lugar de o enfraquecer? A disconectividade de Wallstrom é assombrosa. É de tal forma extrema que é quase inacreditável.
A Ministra dos Estrangeiros da Austrália, Julie Bishop, exprimiu-se como o mais lambe-botas dos vassalos de Washington quando disse que estava preocupada pelo “preconceito anti-Israel” do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Aqui têm uma pessoa cujo cérebro foi objecto de tão extrema lavagem que é completamente incapaz de estabelecer contacto seja com o que for da realidade.
O terceiro exemplo é a “guerra comercial” que Trump desencadeou contra a China. O regime de Trump afirma que, devido a práticas injustas, a China tem um superavit no comércio com os EUA de perto de $400 milhares de milhões. Na realidade dos factos, o défice comercial com a China resulta da Apple, Nike, Levi, e o largo número de empresas dos EUA que produzem offshore na China os produtos que vendem aos norte-americanos. Quando a produção offshorizada das empresas EUA entra nos EUA, é contabilizada como importação.
Há muitos anos que venho apontando isto, desde a altura em que testemunhei perante a Comissão China do Congresso dos EUA. Escrevi numerosos artigos publicados praticamente em toda a parte. Estão sintetizados no meu livro de 2013, The Failure of Laissez Faire. Capitalism.https://www.amazon.com/Failure-Laissez-Faire-Capitalism/dp/0986036250/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1529582838&sr=1-1&keywords=Paul+Craig+Roberts+books&dpID=51HWdHsbtFL&preST=_SY291_BO1,204,203,200_QL40_&dpSrc=srch
Os media financeiros “presstituídos,” os lobistas das corporações, o que inclui muitos economistas académicos “de nome,” e os desgraçados políticos EUA cujo intelecto é quase inexistente são incapazes de reconhecer que o massivo défice comercial dos EUA resulta da transferência de empregos para o exterior. É este o nível de completa estupidez que governa os EUA.
Em The Failure of Laissez Faire Capitalism expus o extraordinário erro cometido por Matthew J. Slaughter, membro do Grupo de Conselheiros Económicos de George W. Bush, que afirmou – com a maior incompetência – que por cada emprego EUA enviado para o exterior dois novos empregos eram criados nos EUA. Expus também como uma fraude o “estudo” do professor da Universidade de Harvard Michael Porter para o chamado Conselho em Competitividade, um grupo de pressão para a offshorização, em que fazia a extraordinária afirmação de que a força de trabalho dos EUA estava a beneficiar da externalização dos seus empregos de alta produtividade e elevado valor acrescentado.
Os economistas norte-americanos idiotas, os media financeiros norte-americanos idiotas, e os decisores políticos norte-americanos idiotas ainda estão para entender que o envio de postos de trabalho para o exterior destruiu as perspectivas económicas dos EUA e impeliu a China para a vanguarda 45 anos antes daquilo que Washington esperava.
Resumindo tudo isto, a mentalidade ocidental, e as mentes dos Russos Integracionistas Atlantistas e a juventude chinesa pró-EUA estão de tal forma repletas de absurdos propagandísticos que não possuem qualquer relação com a realidade.

Existe o mundo real e existe o mundo propagandístico inventado que cobre o mundo real e serve interesses particulares. A minha tarefa é retirar as pessoas do mundo inventado e coloca-las no mundo real. Apoiem-me neste esforço.


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