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O 14-S da Arábia Saudita em 23 notas

Nazanín Armanian :: 24.09.19

O recente ataque a instalações petroleiras na Arábia Saudita suscita as mais desencontradas suposições, dúvidas e acusações. A única coisa certa é que serve de justificação para o agravamento da tensão na zona, e para uma nova escalada de agressividade em relação ao Irão. Mas outras suposições chegam até mesmo às lutas de facção no interior da classe dominante nos EUA. Acontecem coisas semelhantes na história de todos os impérios em decadência.

Em 14 de Setembro, as instalações petroleiras de Aramco, Abqaiq e Khurais, situadas na província oriental do Reino da Arábia Saudita (RAS), cuja população é maioritariamente xiita, ardiam em chamas por uns supostos ataques de objectos voadores, enviados pelo Grupo iemenita Ansarolá, paralisando metade da produção de petróleo do reino. A milícia alertou os trabalhadores estrangeiros do complexo (paquistaneses, indianos, bengalis, etc.) a abandoná-lo, pois pode repetir esta “Operação Contenção” ainda mais dolorosa para a família al Saud, se Riad não detiver a agressão contra o Iémen. Atacarão os seus palácios? Ameaçaram também os Emirados Árabes Unidos (EAU), outro componente agressor da coligação EUA-RAS que destroçou a vida de 24 milhões de iemenitas desde 2015, perante o desonesto silêncio dos media.

Com os dados disponíveis até o momento e com uma vista rápida, regista-se o seguinte:

1. As supostas imagens de satélite disponibilizadas pelos EUA não mostram a procedência dos ataques e, embora os houthis os tenham reivindicado, este assunto tornou-se um conflito internacional por dois motivos:

• Dúvidas sobre a capacidade dos houthis de dispor de uma tecnologia tão avançada pela sua potência e precisão.

• A distância entre a zona controlada pelos houthis no Iémen e o ponto de impacto no RAS, cerca de 1000 quilômetros.

Hipóstases sobre o lugar e a autoria

2. Iémen e os Houthis: A milícia já havia atacado o aeroporto e o oleoduto do RAS há alguns meses. Portanto poder, pode: eles riram-se da segurança de um país que é o terceiro orçamento militar do mundo. Para o fazer, tiveram:

a) Razões: Desde 2015, o seu estratégico país sofreu dezenas de milhares de ataques com bombas e mísseis de todos os tipos por parte da coligação, causando a pior crise humanitária do mundo. Os houthis atacaram instalações, não escolas e hospitais, como costuma fazer a Coligação.

b) Tecnologia: o próprio Riad justifica os seus bombardeamentos sobre o Iémen com o pretexto da ameaça à sua segurança que as armas avançadas dos houthi. Eles conseguem-nas 1) nos seus assaltos aos quartéis do exército, 2) dos traficantes que abundam em todas as guerras e 3) fabricando-as eles mesmos com peças extraídas de outros artefactos, criando armas “Frankenstein”: colocam motores potentes nos veículos aéreos não tripulados kamikazes e dão-lhes capacidade de transportar bombas.

c) Possibilidade de o fazer: contaram com a “cooperação de pessoas honradas dentro do reino”, afirma Yahya Saree, um dos seus porta-vozes. A esta “quinta coluna” acrescentam-se as ajudas de alguns príncipes sauditas opositores de Mohammed Bin Salman (MBS) no Iémen, incluindo a família do “príncipe” Bin Laden, cujo pai era iemenita. Trata-se de uma defesa legítima, mas cega: sendo um grupo religioso e de direita, há dúvidas quanto à sua capacidade de calcular correctamente a correlação de forças na região e suas consequências para os povos.

3. Desde e pelo Irão: Mike Pompeo, sem apresentar qualquer prova, aponta Teerão como o autor material: já dispõe do Casus belli que procurava. Em 2009, um artigo do Instituto Brookings intitulado “Qual caminho seguir em relação à Pérsia?” propunha: “Antes de lançar ataques ao Irão, é preferível que os EUA o acusem de uma série de provocações”. Entretanto Trump, que a princípio se recusou a acusar a República Islâmica (RI), entregava à mentirosa família al Saud (lembrem-se do caso Khashoggie), não apenas a decisão de determinar o autor, mas também o “que querem que faça”, ou seja a própria política externa da superpotência. Teerão nega envolvimento, mas já havia dito que “se não nos deixam vender o nosso petróleo, ninguém poderá fazê-lo no Golfo Pérsico”. Claro que a RI celebrou o ataque bem-sucedido com um chá com açafrão, mas: 1) não são suicidas, exatamente quando Trump insistiu em aliviar as sanções e expulsava John Bolton - o principal falcão anti-iraniano - da sua equipa, 2) A tensão no seu relacionamento com o RAS (e com os Emirados Árabes Unidos) fora reduzida, 3) está ciente de que as próprias instalações de petróleo iranianas são vulneráveis ​​a um contra-ataque. O senador Chris Murphy afirma que “o Irão está a apoiar os houthis e tem sido um mau actor, mas a coisa não é tão simples como Houthis = Irão”.
Exagera-se a influência da RI sobre os grupos que patrocina, como o Hamas, o Hezbollah, Ansarola e o resto. Do mesmo modo, nem todos os xiitas do mundo são seus aliados: o clérigo iraquiano Muqtada al-Sadr reclama que os EUA e o Irão deixem o país. Teerão nega qualquer participação, embora não oculte que ajude os houthis, da mesma forma que Israel treina os militares sauditas e também, como revela o Haaretz (17/02/2019), treina no Negev os mercenários colombianos e nepaleses recrutados pelos Emirados Árabes Unidos para serem enviados para o Iémen. Ao Irão não beneficia um aumento da tensão: também porque afasta a China e a Rússia, ambas com muito boas relações com Riad e necessitadas de paz na região.

4. A partir do Iraque, afirma a CNN, apesar do desmentido de Bagdad. Pretende este canal justificar os ataques impunes e ilegais de Israel contra o grupo Hashd al-Shaabi (Forças de Mobilização Popular)? Esta milícia iraquiana – pró-governamental, xiita de direita e patrocinada pela RIe, e que lutou contra o Daesh junto com os EUA -, desde há alguns meses tem sido alvo de ataques de Israel, com a cumplicidade dos EUA, que controlam o céu do país colonizado. Se assim foi, porque é que as bases militares do Pentágono não o detectaram?
5. CIA / Mossad a partir da Arábia Saudita: um ataque de bandeira falsa realizado por um sector desses serviços de informações, com o método de “demolição” de dentro das instalações. Têm um longo historial neste tipo de acções. Estão incomodados com a demissão de John Bolton, que ocorreu cinco dias antes. A sua saída provocou a queda dos preços do crude Brent em 2%, algo que não havia acontecido com a saída de seus dois antecessores: Michael Flynn e Robert Mueller. No dia 12, as forças de segurança dos EUA encontram próximo da Casa Branca equipamentos de escuta em miniatura chamadas “StingRays” e suspeitam de Israel, não dos jihadistas do Daesh! As forças de Bolton contra-atacarão.
Surpreendentemente, a Quinta Frota dos EUA no Bahrein, as suas bases militares em Omã, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, a mega base no Catar - que é a sede do Centro de Operações Aéreas Combinadas dos EUA e controla todo o Médio Oriente - ou as cinco bases dispersas no próprio território saudita, incluindo a de “rei Abdul Aziz”, o local do ataque, não se aperceberam de que cerca de vinte objectos voadores atravessavam o céu do país, viajando de ponta a ponta do país para descarregar os seus explosivos. Até o próprio complexo de Aramco (com piscinas, um grande campo de golfe e campo de ténis) é “protegido” por um exército privado, equipado com mísseis antiaéreos. Pode suceder que alguns comandantes militares se tenham distraído a ver futebol, mas todos? O imperialismo dos EUA necessita de uma guerra com o Irão, ou deixará de existir. É do domínio público que, além disso, uma facção do establishment dos EUA pretende acabar com a tenebrosa família al Saud, catarizar este estratégico país. Não é uma “teoria da conspiração”: trata-se de serviços que conspiraram contra nações inteiras com as suas falsidades e em todas as suas guerras. É possível que estejam a preparar uma armadilha a Trump, empurrando-o para uma guerra, que será desastrosa, para sabotar a sua reeleição. Uma operação em Outubro de 2020 criaria uma nova “Surpresa de Outubro” e novamente com o Irão como protagonista.. Por outro lado, sabotaram a aproximação que estava a produzir-se entre Riad e Teerão. Mais um dado: apenas dois dias antes, o Irão assinou um contrato de 440 milhões de dólares com a empresa local Petropars para desenvolver a jazida de gás Belal que compartilha com o Catar no Golfo Pérsico. Agora, tudo fica congelado.

Possíveis consequências

6. O fim do controlo monopolista dos EUA sobre o espaço aéreo do Golfo Pérsico.

7. A coligação continuará a massacrar os iemenitas.

8. Mais ataques de Israel sobre o Iraque.

9. Aumento do preço do petróleo que, se os ataques continuarem ou houver guerra, poderá chegar aos 150 dólares por barril. Situação que beneficia os países produtores, incluindo os dos EUA, prejudica os consumidores e a China, tanto por ser o RAS o seu segundo fornecedor como por aumentar os preços.

10. A subida do preço do dólar, devido à correlação desta moeda com o petróleo.

11. Converter a segurança na prioridade para os iranianos, enquanto a população sofre a pior crise económica de sua história recente. O Irão está em estado de alerta e prepara-se para uma “guerra em larga escala”, diz o brigadeiro-general Amir Hachizadeh, que também revelou uma informação de impacto: que o derrube do drone Global Hawk dos EUA pelo Irão em Junho passado foi um acidente. causado por um oficial que agiu “por conta própria”. Seguramente que a transmissão rápida desse dado aos americanos impediu que Trump retaliasse e matasse 150 iranianos

12. Mais pressão sobre os europeus para que abandonem o acordo nuclear com o Irão.

13. Um castigo simbólico ao Irão. A estratégia de Trump é exercer pressão económica sobre o Irã, em vez de lançar uma acção militar. Os militares apoiam-no: o almirante John Kirby adverte Trump sobre confrontar o Irão por ser “uma das oito potências militares mais importantes do mundo”. Pelo que, para tranquilizar os sauditas (que podem levar o presidente à falência se deixam de lhe alugar os 500 quartos da Trump Tower nos EUA), pode atacar o aliado mais íntimo do RII: o Hezbollah. O senador Bernie Sanders lembrou ao presidente que apenas o Congresso, não a Casa Branca nem a ditadura saudita, tem autoridade constitucional para aprovar a acção militar dos EUA (embora isso tenha as suas nuances).

14. Uma maior militarização do Golfo Pérsico, se possível. Com incidentes menores nos últimos meses os EUA enviaram porta-aviões e centenas de soldados para a região.

15. Desviar as preocupações mundiais centradas no Brexit e na guerra comercial EUA-China, devido à gravidade da situação.

16. Fazer fluir mais dinheiro para a oligarquia norte-americana: se os sauditas querem melhor segurança, que “entrem com a massa”: em 2018, Trump descreveu o RAS como uma “vaca leiteira” que será morta quando o leite lhe acabar.

17. Corrida entre as empresas de armamento para fabricar drones com maior capacidade de destruição, impossibilitando a protecção de instalações civis.

18. Aprofundar a fractura na Casa Saud: mais isolamento para o príncipe das trevas MBS, responsável pelo desastre no Iémen; danos ao prestígio do outro filho do rei, Abdolaziz, recém nomeado ministro do petróleo; problemas orçamentários, que deixarão sem sustentação o projecto MBS Vision 2030 e a própria continuidade da sua guerra no Iémen.

19. A repressão contra dissidentes e também a minoria xiita na Arábia aumentará.

20. Prejudica o projecto de privatização da companhia pública de petróleo da RAS, Aramco, cujo valor, devido aos problemas de segurança, cairá a curto prazo.

21. Uma nova guerra pelo petróleo ”? Trump, cuja política, mais do que assaltar os poços alheios é procurar clientes para o seu petróleo de xistos, tardará em substituir pela Reserva Estratégica dos EUA os 5 milhões de barris sauditas no mercado e, se a crise persiste, devido ao alto custo da sua produção, não poderá continuar a faze-lo.

22. Mudar o conceito de guerra e o ataque às instalações estratégicas de terceiros, que será “de baixo custo” e muito eficaz.

23. Trata-se de um ataque histórico - à família real saudita, ao mercado de energia e às formas de travar uma guerra - cujo impacto durará nos próximos anos. Essas guerras são reaccionárias e apenas beneficiam os homens do poder dos países envolvidos, destruindo a vida de centenas de milhões dos seus cidadãos.

A Rússia oferece-se para mediar entre o RII e o RAS, mas ninguém pega na luva. As forças antimilitaristas do mundo, que continuam ausentes, e também os ambientalistas, que se esquecem do factor da guerra, deveriam ter-se mobilizado há muito tempo.

Fonte:https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6039/el-14-s-de-arabia-saudi-en-23-apuntes/


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