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A Torre Bela e o mostrengo

Demétrio Alves :: 30.12.20

Demétrio AlvesA bárbara matança na Torre Bela tem suscitado indignação pública. Mas tem havido cautela mediática em separar esse acontecimento da instalação de uma grande central fotovoltaica na mesma propriedade. O ministro do Ambiente foi o primeiro em empenhar-se em que essa ligação não fosse feita. Mas a questão está no terreno: até os que vieram defender a caça como boia de salvação do mundo rural ficaram descalços, porque o que aparentemente a matança fez foi limpar o terreno de animais de maior porte para o avanço de uma opção energética. Cuja consequência tem sido a da colonização extensíssima do território com fins energéticos, e que pouco ou nada adianta aos problemas do mundo rural.

Uma vez conhecida a fuzilaria da Torre Bela, ouviu-se, célere, o trovejar ministerial: o crime nada tinha a ver com os centros de produção eléctrica fotovoltaica previstos para aquele mesmo território! Com a prepotência iluminada que o caracteriza, o ministro foi ainda mais longe: embora falando em inquéritos e participação ao Ministério Público, antecipou, quase representante de privados interesses, que as duas empresas energéticas nenhumas responsabilidades tinham na acção criminosa.

Poucas horas depois, o governante, aflito, foi obrigado a recuar em manobra desgovernada. Agora, mantendo-se o intenso fluxo mediático, ensaia-se a minimização de estragos e a fuga às responsabilidades: que foi apenas um erro grosseiro, uma coincidência terrível, talvez mesmo um crime moral, ambiental e contra o bem-estar animal, mas em nada relacionado com a política energética baseada no dogma climático.

Assim, sobrariam a cassação da licença de caça e a interrupção do estudo de impacte ambiental (EIA) com o objectivo de o refazer porque, pasme-se, as condições ambientais objectivas estarão alteradas!? No final, daqui a alguns meses de investigação, análise técnico-administrativa, e tramitação em instâncias judiciais, quem sabe, as centrais fotovoltaicas serão construídas no mesmo sítio ou noutro, lá perto, onde não haja animais de grande porte: apenas árvores, solos agricultáveis, paisagem rústica e alguns pássaros e bichos miúdos, tomados como pormenores fáceis, descartáveis, sem ruído.

Responsáveis, por detrás do banco de nevoeiro que se vai adensando, apenas uma se vislumbra: Isabel de Angola! O acontecido poderia, e já não seria pouco, justificar-se com crimes desencadeados pela ganância e oportunismo de agentes que, actuando nestes circuitos baseados na caça organizada em herdades e coutos, vão muitíssimo além das tradições seculares, do turismo, da dinamização do mundo rural e das actividades ao ar livre: são um negócio internacional de carnes e exploração intensa da Natureza. Mas é notório, no caso concreto, o nexo de causalidade com um outro negócio que também é intenso e com traços oportunistas: o da colonização extensíssima do território com fins energéticos. É paradigmático do cisma climático que suporta o idealismo energético instalado que mesmo várias organizações com militância ambiental e ecologista ainda não tenham alcançado os impactos enormes que têm milhares de hectares de ocupação de solos nas linhas de cumeada em serranias um pouco por todo o país (eólicas), nas planícies do Centro e Sul do país (fotovoltaicas) e nos respectivos corredores de linhas de transporte. A colecta maciça de energia solar nas fileiras eólica e fotovoltaica, obrigatoriamente dispersa no território e replicada em milhentos sítios nas mais variadas condições naturais, apresentando baixos rendimentos e altas intermitências, deficiências estruturais muito difíceis e onerosas de mitigar tecnologicamente, é um mostrengo energético sustentado por contribuintes e consumidores sacrificados no altar de “São Carbono.”
Estas fontes de energia renovável podem e devem ser aproveitadas, mas não da forma predatória instalada pelos poderosos interesses financeiros, energéticos e industriais. É que, na via imposta pelos dogmas institucionais dominantes na Europa, não resolverão o problema central energético e, quem sabe, também não o climático tomado como referência justificativa. Não admitir que a carnificina de Torre Bela está correlacionada com a prevista central fotovoltaica, mas, apenas, pelo desvario de uns quantos homens e mulheres de armas, valentes empreendedores, seria o mesmo que dizer que My Lai e Wiriyamu não estavam correlacionados com as guerras coloniais respectivas.

Fonte: jornal “Publico”, 28.12.2020


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