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O paradigma do Mercado Livre está longe do seu fim

Naomi Klein :: 01.10.08

Naomi Klein
“Se o Estado pode intervir para salvar corporações que assumiram riscos imprudentes nos mercados imobiliários, porque não pode intervir para impedir milhões de americanos da execução iminente de uma hipoteca?”

Seja qual for o significado dos acontecimentos desta semana, ninguém deve acreditar nas afirmações exageradas de que a crise do mercado assinala a morte do paradigma do “Mercado Livre” [1]. O paradigma do “Mercado Livre” tem servido sempre os interesses do capital, e os seus altos e baixos servirão sempre aqueles interesses.

Durante tempos de crescimento económico é rentável pregar o “laissez faire” porque um governo ausente permite inflacionar as bolhas especulativas. Quando essas bolhas rebentam, a ideologia torna-se um empecilho e hiberna temporariamente enquanto o “Grande Governo” corre a salvar a situação. Mas estejamos descansados: a ideologia voltará em força logo que os salvamentos se tenham realizado.

As dívidas enormes acumuladas pelos bens públicos para salvar os especuladores tornar-se-ão então parte duma crise do orçamento global que será a justificação para cortes profundos em programas sociais e para um impulso renovado na privatização do que restar do sector público. Ser-nos-á também dito que as nossas esperanças num futuro “verde” são, infelizmente, demasiado dispendiosas.

O que não sabemos é como o público vai responder. Tenhamos em conta que na América do Norte todos aqueles com menos de 40 anos cresceram ouvindo que “o governo não pode intervir para melhorar as nossas vidas”; que “o governo é o problema, não a solução”; que o “laissez faire” era a única opção. Agora, subitamente, vemos um governo fortemente intervencionista, extremamente activo, mostrando-se capaz de fazer tudo o que for necessário para salvar os investidores deles próprios.

Este espectáculo levanta, necessariamente, a questão: Se o Estado pode intervir para salvar corporações que assumiram riscos imprudentes nos mercados imobiliários, porque não pode intervir para impedir milhões de americanos da execução iminente de uma hipoteca? Pelos mesmos critérios, se 85.000 milhões de dólares podem ser imediatamente disponibilizados para comprar o gigante dos seguros AIG, porque é que os cuidados médicos suportados por um serviço nacional de saúde [2] - o que protegeria os Americanos das práticas predatórias das companhias de seguros de saúde - parece ser um sonho tão inatingível? E se cada vez mais corporações necessitam dos fundos dos contribuintes para sobreviver, porque não podem os contribuintes fazer, em compensação, exigências como limitar os montantes dos ordenados dos executivos e uma garantia de que não haja mais despedimentos?

Agora que é claro que os governos podem realmente intervir em tempos de crise, será muito mais difícil para estes invocarem impotência no futuro. Outra consequência prende-se com as esperanças do mercado em futuras privatizações. Durante anos os grandes bancos de investimento têm feito lobby junto dos políticos para acesso a dois novos mercados: um que resultaria da privatização dos fundos públicos de pensões e o outro resultante de uma nova onda da privatização, total ou parcial, de estradas, pontes e dos sistemas de distribuição de água. Ambos estes sonhos tornaram-se mais difíceis de vender: Os americanos não estão na disposição de confiar mais dos seus activos individuais ou colectivos a jogadores imprudentes em Wall Street, principalmente porque é mais do que provável que os contribuintes terão de pagar para recuperar de novo os seus activos quando a próxima bolha rebentar.

Com as negociações na Organização Mundial do Comércio fora dos carris, esta crise pode ser um catalizador para uma abordagem radical alternativa para a regulação dos mercados mundiais e sistemas financeiros. Vemos já um movimento no sentido da “soberania alimentar” nos países em desenvolvimento, em vez de deixar o acesso aos alimentos à mercê dos caprichos dos negociantes de matérias-primas. Pode ter finalmente chegado o momento para ideias como impostos ao comércio, o que reduziria o investimento especulativo, bem como outras formas de controlo do capital global.

E agora que nacionalização já não é uma palavra ofensiva, as companhias do gás e petróleo têm de se acautelar: alguém tem de pagar as mudanças para um futuro mais verde e faz todo o sentido que o grosso desses fundos venha do sector altamente rentável que é o principal responsável pela nossa crise climática. Faz certamente mais sentido do que criar outra bolha perigosa no comércio das emissões de carbono.

Mas a crise que presenciamos exige mudanças ainda mais profundas. A razão pela qual se permitiu a proliferação destes empréstimos lixo não foi só porque os reguladores não entenderam o risco. É porque temos um sistema económico que mede a nossa saúde colectiva unicamente baseado no crescimento do PIB. Enquanto os empréstimos lixo alimentavam o crescimento económico, o nosso governo apoiou-os activamente. O que esta crise veio realmente pôr está em causa é o compromisso inquestionado de crescimento a todo o custo. Aonde esta crise nos deve levar é a um modo radicalmente diferente das nossas sociedades avaliarem a sua saúde e progresso.

Nada disto, porém, acontecerá sem uma enorme pressão pública sobre os políticos neste período decisivo. E não o lobby cortês mas um regresso às ruas e o tipo de acção directa que resultou no “New Deal” nos anos 30. Sem isso, haverá mudanças superficiais e um regresso, tão rápido quanto possível, ao “business as usual”.

Notas do tradutor:
[1] No original “ideology”.
[2] No original “single-payer health care” que é o termo Americano para descrever o pagamento dos cuidados de saúde através de um fundo único, em geral gerido pelo governo.

22 de Setembro 2008

O original em: www.zcommunications.org, (The Guardian/Znet).

Tradução de Nuno Pinhão


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