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Irá o Exército dos EUA invadir o México?

Carlton Meyer :: 05.10.08

“Ao fim e ao cabo, as empresas americanas têm investimentos no México de milhares de milhões de dólares. Pedirão às tropas americanas para protegerem os seus investimentos, o que é uma função tradicional das tropas americanas na América Latina. O caos no México fornece também oportunidade para forçosamente anexar o México numa União Norte Americana”

Os americanos estão cheios de debates sobre o Iraque. Os generais insistem que os EUA vencem, o que não quer dizer nada, visto que são incapazes de avaliações negativas da sua acção. Dizem-nos que a “vaga” foi um êxito, ainda que agora tenham ficado mais tropas no Iraque. Se os EUA agora ganharam, porque não reduzem o nível dos efectivos e das despesas? O candidato presidencial John McCain não tem resposta para esta pergunta simples. O seu oponente, Barack Obama, diz que a maior parte das tropas deviam ser retiradas e enviadas para o Afeganistão. Enquanto ambos planeiam as suas jogadas de próximo imperador, quem quer que vença as eleições fará provavelmente regressar tropas para cuidar do agonizante Estado do México.

Poucos americanos sabem que os EUA invadiram o México em 1846 devido a uma disputa de fronteiras que resultou na anexação pelos expansionistas americanos de território para oeste. O México continuou a ser desgovernado por governantes corruptos na Cidade do México, do que resultaram frequentes rebeliões e uma prolongada e sangrenta guerra civil. Como consequência, a fronteira mexicana ficou guardada por uma missão de paz do exército dos EUA até 1940. O mapa seguinte mostra os inúmeros fortes de fronteira do exército americano no Texas no fim dos anos 80 do séc. XIX, quando o total das tropas americanas era inferior a 40.000 soldados.

Em 1916, tropas do líder revolucionário mexicano Pancho Villa atacaram Columbus no Novo México. Mataram 14 soldados americanos e 10 civis. O presidente Wilson enviou uma expedição do exército americano de 10.000 homens para capturar Villa. O General John J. Pershing dirigiu um desajeitado esforço para encontrar Villa nas acidentadas montanhas do norte do México. Depois de alguns recontros breves, foi declarada vitória e as tropas americanas regressaram a casa em 1917, embora as forças de Villa continuassem com pequenos ataques fronteiriços.

O confronto civil mexicano terminou poucos anos mais tarde. A II Guerra Mundial trouxe prosperidade para o México neutral, visto que os bens e serviços tinham grande procura pelas partes beligerantes. Enquanto os EUA mobilizavam a maior parte dos homens aptos para a tropa, recrutavam milhões de mexicanos para trabalho temporário nos EUA. O desenvolvimento económico do pós-guerra alastrou no México sob a forma de turismo, provocando mais ganhos económicos. O Acordo de Comércio Livre Norte Americano de 1994 (NAFTA - North American Free Trade Agreement) trouxe consigo milhares de empregos à medida que centenas de fábricas americanas se deslocavam para sul da fronteira. [1]

Todos estes factores beneficiaram o povo mexicano, embora os ganhos fossem prejudicados pela tradicional corrupção e incompetência dos governos. No entanto, a passada década assistiu a um brusco retrocesso da prosperidade mexicana em várias frentes, a qual desestabilizou o México.

O Reverso do Comércio Livre

Enquanto a NAFTA proporcionou um aumento do investimento estrangeiro, destruiu também mais tarde grande parte do sector agrícola do México visto que os pequenos agricultores não conseguiram competir em preços com as grandes empresas agrícolas a norte da fronteira. Os especialistas notaram que a redução de emprego na agricultura era compensada pelo aumento do emprego nas fábricas. Contudo, a maior liberdade de comércio com os países asiáticos, em particular com a China, veio permitir o acesso a mão-de-obra e a produtos mais baratos, facto de que a indústria mexicana se ressentiu.

A consequência foi a violência armada em regiões afastadas do sul do México povoadas principalmente por povos indígenas. Não há emprego em fábricas na região, devido à falta de infra-estruturas e à instabilidade. O exército mexicano tem mantido a rebelião sob controle desde então para cá.

Os Ricos Mais Ricos

Nos anos 80, os banqueiros americanos pressionaram os países latino-americanos para privatizarem as suas indústrias nacionais e autorizarem a propriedade estrangeira, com o argumento de que isso favorecia a competição. Houve recusa por razões nacionalistas, até os banqueiros convencerem os políticos de que o comércio livre era altamente lucrativo para os “insiders” [pessoas com acesso a informação reservada – N.T.].

“Banqueiros de Sangue” de James Henry descreve como os maiores banqueiros americanos ajudaram os dirigentes latino-americanos a roubar os seus países vendendo os activos nacionais, comprados muito barato por “insiders” e depois vendidos com grandes lucros, ou então com cotações subindo em flecha em mercados monopolistas como as acções. Tudo isto provocou revolta e fez alastrar um movimento “socialista” para que o roubo seja desfeito, actualmente liderado pelo presidente venezuelano Hugo Chavez.

O México sofreu uma transição desse tipo com resultados semelhantes. O México é frequentemente considerado um país pobre, mas ao mesmo tempo tem hoje dez bilionários [com milhares de milhões de dólares – N.T.]. O homem de negócios Carlos “Slim” Helu com 60 mil milhões de dólares é o segundo homem mais rico do mundo, ultrapassando recentemente a fama de Bill Gates da Microsoft. [2] Estes desequilíbrios económicos evidentes levaram ao descontentamento da classe trabalhadora e à formação de um novo partido político socialista “Partido da Revolução Democrática”, conhecido por PRD.

Este partido quase venceu a eleição presidencial de 2006, perdendo por menos de 1% para o partido conservador PAN no poder, depois de cerca de 3 milhões de votos serem invalidados por “marcação incorreta,” o que levou a protestos em massa e batalhas judiciais, embora sem violência de maior. Dadas as condições económicas em declínio no México, será difícil para o partido PAN no poder ganhar as próximas eleições. Contudo, os bilionários e as maiores empresas do México receiam um partido socialista no poder e podem tentar invalidar ainda mais votos, levando à violência.

As Oportunidades de Trabalho Diminuem

Durante as últimas décadas, a economia dos EUA em crescimento forneceu oportunidades para dezenas de milhões de trabalhadores mexicanos ganharem salários decentes. Isso foi tranquilamente encorajado pelos industriais americanos, num esforço com sucesso para quebrar os sindicatos e deprimir os salários. No entanto, esta imigração em massa foi hostilizada pela a maior parte dos americanos, que recentemente fizeram pressão sobre os políticos para tomarem medidas para guardar a fronteira. Além disso, o rápido aumento do desemprego nos EUA diminuíu as oportunidades de emprego e aumentou a pressão para deportar os imigrantes ilegais.

Após 31 de Janeiro de 2009, milhões de trabalhadores mexicanos ilegais vão deixar de poder atravessar a fronteira só porque falam bem o inglês ou porque apresentam carta de condução. Vai ser preciso um passaporte dos EUA ou seja o novo “U.S. passport card” tamanho carteira, bastante mais difícil de obter ilegalmente ou falsificar, de modo que muitos trabalhadores mexicanos tradicionais vão-se ver bloqueados no “otro lado.” Também o comércio e o turismo através da fronteira vão ficar prejudicados, de modo que menos dólares americanos vão escoar para sul. Embora a ideia seja consistente, será outro abanão na frágil economia mexicana.

De acordo com o Banco do México, 12,6% das famílias residentes nos municípios mexicanos recebem dinheiro dos EUA. As remessas são a segunda maior fonte de receita do México, depois das exportações de petróleo. Em 2007, as remessas entradas no México atingiram um máximo de 23,98 mil milhões de dólares, mas o Banco do México calcula terem diminuído 2,2% na primeira metade deste ano. [3]

Pico do Petróleo no México

O México sempre foi um dos principais produtores mundiais de petróleo. Todas as operações são controladas pelo monopólio governamental PEMEX. Emprega 138.000 trabalhadores mexicanos e gera cerca de 200 mil milhões de dólares de receita, representando 40% da receita do governo federal. A produção atingiu o máximo em 2004 e tem estado em rápido declínio. Trata-se principalmente da diminuição das reservas, mas também se deve ao governo ter exigido todos os anos da PEMEX o mesmo valor da receita do petróleo, mesmo quando a produção caiu. Como resultado, o investimento na exploração e no desenvolvimento foi mínimo.

A produção estabilizou no complexo petrolífero mexicano Cantarell, um dos maiores do mundo. De acordo com o ministro da Energia, a produção média diária caiu para pouco mais de 1 milhão de barris por dia (m b/d), comparada com os mais de 1,6 m b/d no mesmo mês do ano anterior. A produção total de petróleo do México caiu cerca de 10% nos últimos 12 meses para 2,79 m b/d em Maio. [4]

Em consequência, as receitas governamentais da exportação do petróleo estão em queda acentuada, exigindo aumento de impostos ou redução da despesa. Esta quebra podia ser compensada por preços do petróleo mais altos, salvo que o México vai deixar de ter petróleo excedentário para exportação dentro de poucos anos. O consumo interno de petróleo é superior a 2,0 m b/d e aumenta, enquanto a produção é de 2,8 m b/d e diminui. Além disso, produção decrescente significa dezenas de milhar de empregados da PEMEX bem pagos que deixam de ser necessários e são dispensáveis.

O México desde há muito que subsidia os custos dos combustíveis domésticos, mas os custos de produção mais elevados têm sido absorvidos pela PEMEX. Os preços de venda do diesel e da gasolina são quase metade da Califórnia. À medida que os lucros da exportação de petróleo diminuírem drasticamente, o governo vai ter que transferir gradualmente todas as receitas dos impostos do petróleo para subsidiar os combustíveis domésticos, ou então aumentar os preços dos combustíveis, o que irá provocar a revolta dos mexicanos e atingir duramente a economia.[5]

A Corrupção da Guerra à Droga

A infindável e absurda “guerra à droga” do governo dos EUA piorou o problema da corrupção no México. Os maiores barões da droga são demasiado sofisticados para serem destruídos. A maior ameaça que sentem é a competição no arranque, mas o problema é facilmente resolvido fornecendo umas dicas aos guerreiros da droga americanos que alegremente se contentam com o “peixe miúdo.” Um filme notável sobre este complexo jogo é o “Traffic” com Michael Douglas.

Também o exército mexicano tem sido corrompido pela guerra à droga, fazendo muitas vezes guarda às entregas de droga. Há todos os anos dezenas de recontros com soldados mexicanos armados no lado americano da fronteira.[6]

O governo dos EUA e os donos das empresas de comunicação social evitam histórias como a da praga, receando que possam estragar o seu plano de uma União Norte Americana com o Canadá e o México. Pensam, evidentemente, que os americanos estão mais interessados em histórias sobre a violência fronteiriça na Ossetia do Sul.

Há dois meses, um funcionário americano anti-narcóticos de topo avisou que na batalha do país contra os cartéis da droga está em jogo o desenvolvimento democrático do México. Falando ao mesmo tempo que o Congresso americano aprovava um pacote de ajuda de 400 milhões de dólares há muito aguardado para a luta anti-droga, David Johnson, chefe de gabinete do departamento dos assuntos internacionais dos narcóticos e cumprimento da lei, descreveu a violência como “uma carga extraordinária sobre o povo mexicano… consequência da confrontação com um problema muito real que, se não for resolvido, fomentaria ainda mais violência e que tem potencial para corroer as instituições estatais sãs formadas durante os últimos anos no México.”[7]

Um Estado Mexicano falhado

Os factores citados desestabilizaram o México e todo o país pode mergulhar numa guerra civil, podendo resultar na deslocação de milhões de rurais desesperados para as principais cidades, tentando migrar para norte ou juntando-se a gangs da droga ou políticos. Assim, os militares americanos podem receber ordem para protegerem e ajudarem a gerir grandes campos de refugiados no México. As cidades americanas de fronteira precisarão também de protecção militar das hordas de refugiados em fuga para o norte. As tropas americanas poderão também ser usadas para desalojar os senhores da droga, o que significa combaterem contra soldados mexicanos destacados para a defesa dos seus impérios. Os senhores da droga podem retaliar com incursões através da fronteira que forcem o presidente americano a fazer regressar mais tropas para servirem na fronteira.

Os EUA podem tomar partido num conflito civil em funções de manutenção de paz, mantendo em respeito esses socialistas que pensam que deviam dirigir um país lá porque ganharam as eleições. Ao fim e ao cabo, as empresas americanas têm investimentos no México de milhares de milhões de dólares. Pedirão às tropas americanas para protegerem os seus investimentos, o que é uma função tradicional das tropas americanas na América Latina. O caos no México fornece também oportunidade para forçosamente anexar o México numa União Norte Americana.

Tal situação será rejeitada pelos generais americanos de espírito imperial, que pensam não ser sua função proteger o país de um ataque. Bom exemplo deste quadro mental encontra-se num artigo noticioso de 2005, “Travessias de fronteira dificultam treinos nas bases do Arizona”, no qual oficiais do Corpo de Marinha dos EUA se queixam de que o grande número de imigrantes ilegais que atravessam os campos de treino no Arizona estão a interromper os preparativos para os desembarques no Iraque. Afirmam que não é sua função deter esses invasores estrangeiros e pedem “ajuda federal.”[8]

Os generais vão-se queixar de que a protecção do império exige a totalidade dos seus recursos e de que já não têm mais para proteger cidadãos dos EUA. Estão orgulhosos das suas novas bases permanentes no Iraque e constroem outras novas em sítios como a Roménia e a Bulgária. [9] Felizmente, os militares dos EUA ainda dispõem de várias bases ao longo da fronteira mexicana, onde as tropas podem rapidamente desembarcar, incluindo o grande posto do exército de Fort Bliss, próximo de El Paso, Texas.

Juarez, uma cidade de 1,3 milhões de habitantes próximo de El Paso, viu ser batido o recorde de assassínios com mais de 500 até agora durante este ano. Oficiais da polícia de alta patente são mortos em pleno dia. Homens de negócios são raptados, mantidos como reféns e horrivelmente mortos se as famílias não pagam. Têm sido apanhadas crianças no fogo cruzado. O México tem assistido neste ano a um nível de raptos sem precedentes, desencadeando a revolta das pessoas e pedidos ao governo para tomar medidas severas, mesmo que isso signifique perseguir a polícia que se pensa efectuar alguns dos raptos. De acordo com o gabinete do procurador da Cidade do México, os raptos cresceram 76% nos primeiros quatro meses de 2008, comparando com o ano passado. [10]

É difícil prever quando é que tropas dos EUA voltarão à fronteira e talvez ao México. Notícias recentes relatam que dezenas de oficiais da polícia mexicana, homens de negócios e pelo menos um procurador e um jornalista pediram asilo político aos EUA numa tentativa desesperada para escaparem a uma vaga sem precedentes de assassínios e raptos relacionados com droga a sul da fronteira. George W. Grayson, um especialista mexicano do College of William and Mary, afirmou recentemente: “Nunca houve nada comparado como isto em termos de actividades dos cartéis. Nos anos setenta, houve guerrilha em vários estados do sul muito pobres, mas não qualquer espécie de violência como esta.”[11]

Notas:
[1] Ver a revista de livros da SRA [Sanders Research Associates Ltd – N.T.]: “A Venda do Comércio Livre por John R. MacArthur,” de Chris Sanders. 13 Janeiro 2004; também do mesmo autor “Recordar Álamo,” 5 Julho 2003.
[2] “Os Bilionários do Mundo”; Forbes; 5 Março 2008;
[3] “Queda das Remessas Lança Debate”; La Opinion; 18 Agosto 2008.
[4] “Produção estagna em grande campo petrolífero mexicano,” Financial Times, 8 Julho 2008.
[5] “O México faz jogada económica para manter combustíveis baratos,” Reuters, 29 Maio 2008.
[6] “Agente de Patrulha de Fronteira apanhado na mira,” Washington Times, 6 Agosto 2008.
[7] “EUA Alertam sobre Guerra à Droga no México,” Financial Times, 29 Junho 2008.
[8] “Travessias de fronteira dificultam treinos nas bases do Arizona”, Boston Globe, 7 Abril 2005.
[9] “Projectos de habitação militar dos EUA avançam na Europa Oriental,” Stars and Stripes, 27 Julho 2008.
[10] “Cada vez mais raptos todos os dias,” CNN.com, 13 Agosto 2008.
[11] “Vaga de mexicanos pede passagem para os EUA com a escalada de assassínios na fronteira,” Fox News, 11 Julho 2008.

Original em: www.sandersresearch.com

Tradução: Jorge Vasconcelos


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