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A verdade por trás da nacionalização do Banco Citigroup

F. William Engdahl* :: 17.12.08

WILLIAM ENGDAHLPesem as constantes declarações dos governantes que procuram mostrar uma capacidade para controlar minimamente os efeitos da crise, a verdade é que “a procissão ainda vai no adro. No ano de 2009 haverá confrontos e mudanças colossais para a ordem global numa escala talvez nunca vivida nos últimos cinco séculos. É por isso que se pode falar no fim do século americano e do seu sistema do dólar.”

Na sexta-feira dia 21 de Novembro o mundo esteve a uma unha negra do mais colossal colapso financeiro da história, de acordo com banqueiros que estão por dentro dos acontecimentos, com quem temos ligação. O processo foi desencadeado pelo banco que apenas há dois anos era o maior dos EUA, o Citigroup. A dimensão da nacionalização oficial [1], pelo Governo dos EUA, desta instituição bancária que vale 2 milhões de milhões [trillion] de dólares, é um sinal de futuros choques noutros bancos de entre os maiores dos EUA, e talvez também da Europa, que se pensava serem “demasiado poderosos para falir”.

O modo desajeitado como o Secretário de Estado do Tesouro Henry Paulson, que não é, ele próprio, um banqueiro, mas um “investidor” em Wall Street, cuja experiência foi obtida no mundo bem diferente da compra e venda de acções e obrigações ou a subscrição e venda das mesmas, lidou com a crise emergente, foi mais que incompetente. Tornou uma situação grave numa situação alarmante à escala global.

“Chover no molhado”

Exemplo disto é o modo sigiloso como Paulson usou os 700 mil milhões de dólares de impostos que lhe foram atribuídos por votação num Congresso instável, em Setembro. Desde logo, Paulson aplicou 125 mil milhões de dólares nos nove maiores bancos, incluindo 10 mil milhões de dólares na sua velha empresa, a Goldman Sachs. Contudo, se compararmos o valor das acções compradas por 125 mil milhões de dólares com o preço de mercado das acções desses bancos, os contribuintes norte-americanos pagaram 125 mil milhões de dólares por acções que um investidor privado poderia ter comprado por 62,5 mil milhões de dólares, de acordo com uma análise detalhada de Ron W. Bloom, economista da United Steelworkers, cujos membros e fundo de pensões enfrentariam perdas devastadoras se a General Motors (GM) falisse. Isto significa que metade do dinheiro dos contribuintes foi uma prenda para os amigos de Paulson em Wall Street. Neste momento, passadas apenas algumas semanas, o Tesouro é forçado a intervir para nacionalizar oficialmente o Citigroup. E este banco não será o último.

Paulson exigiu e conseguiu obter de um Congresso norte-americano instável, entre democratas e republicanos, o poder de decidir livremente como e onde investir os 700 mil milhões de dólares, até agora sem efectiva supervisão. Mais uma vez, quanto a resolver o problema fundamental, o que o Secretário do Tesouro fez foi “chover no molhado”.

Deveria neste momento ser claro para qualquer analista sério que a decisão, tomada por Paulson em Setembro, de adoptar uma austera ideologia financeira e deixar o quarto maior banco de investimento norte-americano, o Lehman Brothers, falir, despoletou a presente crise global. O surpreendente colapso do Lehman Brothers desencadeou a actual crise de confiança global. Não foi nada claro para o resto do sector bancário que instituição financeira norte-americana poderia ser salva ou não, depois do Governo ter protegido o Bear Stearns, muito mais pequeno, enquanto deixava o Lehman Bros., maior e muito mais estratégico, falir.

Alguns pormenores do caso Citigroup

O aspecto mais alarmante da crise é o facto de estarmos num período de interregno em que o próximo presidente foi eleito mas não pode agir até 20 de Janeiro de 2009, altura em que prestará juramento.

Considerem-se os pormenores da recente nacionalização oficial do Citigroup pelo Governo, (por razões ideológicas, Paulson e a administração Bush evitam histericamente admitir que estão a nacionalizar bancos fundamentais). O Citigroup tem mais de 2 milhões de milhões de dólares de activos, superando largamente empresas como a American Internacional Group Inc., que obteve cerca de 150 mil milhões de dólares em impostos nos últimos dois meses. Ironicamente, apenas oito semanas antes, o Governo designara o Citigroup para absorver o banco Wachovia, prestes a entrar em falência. Normalmente as autoridades determinam que um banco em dificuldades seja absorvido por um mais forte. Neste caso parece ter-se dado a situação inversa. Agora está claro que o Citigroup estava em maiores apuros que o Wachovia. Numa questão de horas, na semana anterior ao anúncio da nacionalização governamental, o valor das acções do Citibank caiu para 3,77 dólares em Nova Iorque, dando à empresa um valor de mercado de cerca de 21 mil milhões de dólares. O valor de mercado das acções do Citigroup em Dezembro de 2006 fora de 247 mil milhões de dólares. Dois dias antes da nacionalização, o Director-executivo Vikram Pandit anunciara um grande plano de redução de 52.000 postos de trabalho. O que nada fez para travar a escorregadela.

A proporção dos prejuízos encobertos dos que são talvez os vinte maiores bancos norte-americanos é tão volumosa que o primeiro decreto presidencial de Barack Obama (se tal não acontecer antes) será provavelmente declarar um “feriado bancário” norte-americano e a plena nacionalização dos maiores bancos, adquirindo os activos tóxicos e os prejuízos até que a economia volte a funcionar com os créditos de novo a fluir para a indústria.

O Citigroup e o Governo identificaram um fundo de cerca de 306 mil milhões de dólares em activos tóxicos. O Citigroup absorverá os primeiros 29 mil milhões de dólares de prejuízos. Posteriormente, os restantes prejuízos serão repartidos entre o Citigroup e o Governo, com o banco absorvendo 10% e o Governo 90%. O Tesouro norte-americano usará os seus 700 mil milhões de dólares do TARP (Troubled Asset Recovery Program), um fundo de recuperação de activos tóxicos, para assumir até 5 mil milhões de dólares de prejuízos. Se necessário, a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), instituição governamental, irá suportar os próximos 10 mil milhões de dólares de prejuízos. Para além disso, a Reserva Federal suportará quaisquer prejuízos adicionais. Estas medidas não têm precedente na história financeira dos EUA. Não está de modo nenhum garantido que irão salvar o sistema do dólar.

Estas situações estão de tal modo interligadas, com seis dos principais bancos norte-americanos detendo a vasta maioria do risco associado ao uso dos derivados financeiros à escala global, que a falência de uma única grande instituição financeira norte-americana poderá resultar em prejuízos no mercado de derivados fora de bolsa [2] da ordem dos 300 a 400 mil milhões de dólares, de acordo com as conclusões de um recente relatório técnico do FMI. As consequências seriam ainda maiores, uma vez que uma tal falência iria provavelmente originar uma série de outras falências. O total de prejuízos do sistema financeiro global poderia exceder os 1.500 mil milhões de dólares, de acordo com um estudo do FMI de [Manmohan] Singh e [Miguel A.] Segoviano.

A loucura de um acordo de recuperação da General Motors

A situação financeira do Citigroup não é a única crise sufocante a ter que ser enfrentada. As altercações políticas e ideológicas no Congresso norte-americano impediram até agora uma simples ampliação do empréstimo de emergência de 25 mil milhões de dólares à GM e a outro dos três grandes grupos automóveis norte-americanos, a Ford ou a Chrysler. O absurdo espectáculo dos congressistas norte-americanos atacando os presidentes desses três grandes grupos por se deslocarem para audiências de emergência no Congresso por razão de um empréstimo de recuperação nos seus aviões privados, ignorando as consequências para a economia de uma falência da GM sublinha a total falta de noção da realidade que tem atacado Washington em anos recentes.

A possibilidade da GM abrir falência representa um desastre de proporções colossais. Embora a Lehman Bros., a maior bancarrota da história dos EUA, tenha aparentemente tido uma liquidação correctamente efectuada dos seus credit default swaps [3], a perturbação deu-se antecipadamente, no momento em que os protection writers [4] tiveram que transferir cauções adicionais antes da liquidação. Este foi um factor essencial na dramática recessão global dos preços de mercado em Outubro. A GM é de longe muito maior, o que significa maiores prejuízos, e isto ocorreria num momento em que o sistema financeiro está ainda mais vulnerável que quando a Lehman faliu.

Além disso, uma segunda questão, potencialmente muito mais perigosa, foi amplamente ignorada. Aqueles que defendem que se deixe a GM ir à falência argumentam que esta pode recorrer ao Capítulo 11 [5] tal como fazem outras empresas em dificuldades. Isso pode no entanto não acontecer, e uma liquidação da GM, situação enquadrada no Capítulo 7, que daí resultaria, seria um acontecimento de proporções dantescas.

O problema é que de acordo com o Capítulo 11 da Código Norte-americano de Falências, é preciso esperar até que a empresa possa obter protecção de um tribunal de falências. Até esse momento, que pode ser de semanas ou meses, a empresa necessitaria urgentemente de ‘financiamento intercalar’ para continuar em funções. Isto é conhecido como Debtor-in-possession ou DIP financing. O DIP é essencial para a maior parte das falências enquadradas no Capítulo 11, já que é preciso esperar que o plano de reorganização seja aprovado pelos credores e pelos tribunais. A maior parte das empresas, como hoje a GM, apelam ao tribunal de falências quando chegam ao fim da sua liquidez.

O DIP aplica-se especificamente às empresas em falência, ou à beira da falência, e a dívida geralmente precede as reclamações dos credores. Portanto é na verdade um risco muito baixo, uma vez que a quantia dispendida não é geralmente muito elevada, em termos relativos. Mas o financiamento DIP atravessa actualmente um processo de severa redução, justamente quando é mais necessário, à medida que os bancos em situação mais favorável cortam drasticamente nos empréstimos, na presente situação de severa redução do crédito.

Se não tiver acesso ao financiamento DIP, a GM será forçada a uma liquidação parcial, ou mesmo total. As implicações são terríveis. Para além da perda de 100.000 postos de trabalho na GM propriamente dita, a empresa é fundamental para manter muitos fornecedores da indústria automóvel em actividade. Se a GM falir em breve, a maior parte, talvez mesmo todos os fornecedores da indústria automóvel norte-americana, e mesmo estrangeira, se seguirão. Esses fornecedores de peças são importantes para outros fabricantes automóveis. Muitas fábricas de automóveis estrangeiras seriam forçadas a encerrar devido à perda de fornecedores. Alguns analistas situam a perda de postos de trabalho em 2009 resultante das consequências de uma falência da GM ao nível dos 2,5 milhões. Se o impacto desses 2,5 milhões for considerado em termos de perdas globais de postos de trabalho fora da indústria automóvel, tais como nos serviços, se considerarmos as hipotecas de casas daí resultantes e outras consequências, alguns calculam que o impacto global seja superior a 15 milhões de postos de trabalho.

Até à data, dada a perspectiva de um tal desastre, os membros do Congresso norte-americano optaram por se concentrar no facto de que o Presidente da GM, Rick Wagoner, se ter deslocado a Washington no seu avião privado, como se fosse Nero a tocar a sua lira enquanto Roma ardia, de acordo com a farsa imaginada pelo Congresso. Não nos deve surpreender que, na recente Cimeira de Pequim entre a Ásia e a União Europeia, as autoridades chinesas tenham considerado a ideia de se negociar entre a UE e países asiáticos tais como a China em Euro, Renmimbi, Iene, ou outras moedas nacionais que não o dólar. O plano de recuperação do Citigroup e o fiasco da GM confirmaram a morte do Sistema do Dólar de Bretton Woods que surgiu em 1944.

A verdade por trás do plano de recuperação do Citigroup

O que nem Paulson nem ninguém em Washington está disposto a revelar é a verdade por trás do plano de recuperação do Citigroup. Mediante a sua peremptória recusa inicial, no que foi acompanhado pela Administração de Bush, em agir resolutamente desde logo, nacionalizando imediatamente os cerca de nove bancos mais problemáticos, Paulson originou este desaire. Mediante a sua recusa, por razões ideológicas, em reorganizar os activos dos bancos de forma a distinguir os “bons” e os “maus”, à semelhança do que fez o Governo Sueco com a empresa a que chamou Securum, durante a crise da banca sueca no principio dos anos 1990, Paulson e companhia colocaram o mundo financeiro à beira de um abismo.

Uma empresa semelhante à Securum ou uma nacionalização temporária semelhante teria permitido aos bancos em situação favorável continuar a emprestar à economia real permitindo-lhe manter-se operacional, enquanto o estado apenas se apoiaria em activos reais subvalorizados durante alguns meses, até que a economia em recuperação tornasse os activos novamente negociáveis para o sector privado. Ao invés, Paulson e os seus comparsas em Washington tornaram uma situação má numa globalmente catastrófica.

A sua aparente percepção do erro que constituiu a recusa inicial em nacionalizar chegou tarde demais. Quando Paulson inverteu a sua política em 19 de Setembro e apresentou aos nove maiores bancos dos EUA um ultimato para aceitar uma participação parcial do estado, abandonando o seu estranho plano original de comprar apenas os títulos tóxicos garantidos por activos dos bancos com os 700 mil milhões de dólares dos contribuintes oriundos do TARP, nunca revelou por que razão o fez.

De acordo com o Plano Paulson original, como apontam Dimitri B. Papadimitriou e L. Randall Wray do Instituto Jerome Levy em Bard College, Nova York, Paulson procurou criar uma situação na qual o “Tesouro norte-americano se tornaria dono de instituições financeiras em dificuldades em troca de uma injecção de capital, mas sem exercer nenhuns direitos de propriedade, tais como substituir os administradores responsáveis pela situação. O plano de recuperação seria usado como uma oportunidade para consolidar o controlo do sistema financeiro nacional nas mãos de uns poucos grandes bancos (de Wall Street), com fundos governamentais a subsidiar aquisições de bancos em dificuldades por parte de outros «estáveis»”.

Paulson cedo compreendeu que a dimensão da crise, em grande parte impulsionada pelo modo inepto como tratou o caso Lehman Brothers, originara uma situação insustentável. Tivesse Paulson usado os 700 mil milhões de dólares para comprar activos tóxicos ABS [6] dos bancos designados ao preço de mercado actual e os 700 mil milhões de dólares estariam muito longe de poder tirar uns estimados 2 triliões de dólares em ABS dos registos bancários.

Os economistas do Levy Economics Institut afirmam que “é provável que muitos, ou talvez a maioria das instituições financeiras estejam hoje em situação de insolvência, com um buraco negro de activos líquidos negativos capaz de engolir os 700 mil milhões do Plano Paulson de uma vez só.”

Essa realidade é a verdadeira razão por que Paulson foi obrigado a abandonar o seu original “plano amigo de recuperação”, o TARP, e a optar por usar algum desse dinheiro para comprar acções nos nove maiores bancos.

Mas também esse esquema está condenado à partida, como demonstra o recente plano de nacionalização do Citigroup. O Dilema que Paulson criou com o seu tratamento inepto da crise é simples: se o Governo dos EUA tivesse pago o valor real por esses activos que quase nada valiam, os bancos teriam que registar enormes perdas e, como os economistas do Levy Institut referem, teriam que “anunciar ao mundo a sua situação de insolvência. ” Por outro lado, se Paulson tivesse subido o preço de compra dos activos tóxicos o suficiente para proteger os bancos do prejuízo, 700 mil milhões de dólares “teriam comprado apenas uma pequena fracção dos activos tóxicos”. É disso que se trata, no caso desta nacionalização do Citigroup.

Ainda a procissão vai no adro. No ano de 2009 haverá confrontos e mudanças colossais para a ordem global numa escala talvez nunca vivida nos últimos cinco séculos. É por isso que se pode falar no fim do século americano e do seu sistema do dólar.

Quão destrutivo será este processo para os cidadãos norte-americanos, que são as primeiras vítimas dos capitalistas comparsas de Paulson, bem como para o resto do mundo, depende da urgência e determinação com que os chefes dos governos da Alemanha, União Europeia, China, Rússia e o resto do mundo reagirem. Não é hora para sentimentalismos ideológicos e nostalgias da velha ordem do pós-guerra. Essa entrou em colapso em Setembro último, juntamente com os Lehman Brothers e a presidência republicana. Esperar por um “milagre” do mandato de Obama não é opção para o resto do mundo.

Notas do Tradutor:
[1] No original: “De facto nationalization”, com um sentido claramente pejorativo; trata-se de «nacionalizar» os prejuízos através da injecção de largos milhares de milhões de dólares de dinheiro dos contribuintes.
[2] No original: “OTC [over-the-counter] derivatives market”, mercado de derivados fora de bolsa.
[3] “Credit default swap”: instrumento financeiro derivado transaccionado em mercado fora de bolsa (“over-the-counter”), o qual atribui ao seu comprador protecção em caso de incumprimento de crédito de um determinado emitente; funciona como um seguro de crédito.
[4] O “Protection writer” age como segurador em caso de crédito.
[5] Os capítulos 11 e 7 referidos pelo autor referem-se ao Código de Falências norte-americano.
[6] “Asset-backed securities”: títulos garantidos por activos.

O presente artigo é adaptado do novo livro que está a escrever, The Rise and Fall of the American Century: Money and Empire in Our Era. [A Ascensão e Queda do século Americano: Dinheiro e Império na Nossa Era].

* F. William Engdahl, é analista económico e político.

Original em www.financialsense.com

Tradução de André Rodrigues P. Silva


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