A advertência nuclear de Putin

Manlio Dinucci    16.Mar.18    Outros autores

As revelações recentes de Putin sobre as novas armas nucleares de que a Rússia dispõe já suscitaram sobretudo silêncio e algumas ironias canhestras. Os elementos revelados são muito sérios, e não foram a quebra de qualquer segredo: Putin sabe que os EUA têm armas semelhantes em desenvolvimento. O que isto significa é duma clareza fulminante: uma guerra nuclear dificilmente terá sobreviventes.

O discurso do presidente russo Vladimir Putin sobre o estado da nação, dedicado a questões internas e internacionais, suscitou escasso interesse político-mediático e alguns comentários irónicos. Todavia, deveria ser ouvido com extrema atenção.

Evitando rodeios diplomáticos no modo como se exprimiu, Putin colocou as cartas na mesa. Denuncia o facto de nos últimos 15 anos os EUA terem alimentado uma corrida aos armamentos nucleares, procurando conseguir uma clara vantagem em relação à Rússia. Isto é confirmado pela própria Federação dos cientistas americanos: graças à revolução tecnológica, os EUA triplicaram a capacidade destrutiva dos seus mísseis balísticos de ataque nuclear.

Ao mesmo tempo – sublinha Putin – os EUA, ao saírem do Tratado Abm, instalaram um sistema global de «defesa antimíssil» para neutralizar a capacidade russa de responder a um primeiro ataque nuclear.

Na esteira da expansão da NATO para Leste, instalaram bases de mísseis na Roménia e Polónia, enquanto outros sistemas de lançamento (misseis que não são interceptores mas sim de ataque nuclear) existem em 18 navios de guerra deslocados para zonas próximas do território russo.

A Rússia advertiu muitas vezes os EUA e os estados europeus membros da NATO de que, em resposta a um tal conjunto de ameaças, adoptaria contramedidas. «Ninguém nos ouvia, ouçam-nos agora», adverte Putin.

Passa então à linguagem da força, a única que compreendem em Washington. Depois de recordar que depois da queda da URSS a Rússia perdera 44,6% do seu potencial militar e que os EUA e seus aliados estavam convencidos de que este não mais poderia ser reconstruído, Putin mostra sobre dois grandes écrans de projecção os novos tipos de armas estratégicas desenvolvidas pela Rússia.

Um míssil de cruzeiro lançado do ar armado com uma ogiva nuclear, com raio de acção praticamente ilimitado por ser alimentado a energia nuclear, uma trajectória imprevisível e a capacidade de penetrar qualquer defesa antimíssil. Os mísseis Kinzhai e Avangard com velocidade hipersónica (mais de 10 vezes a velocidade do som).

O míssil balístico intercontinental Sarmat de 2.000 toneladas sobre plataforma móvel, com um raio de 18.000 km, armado de outras 10 ogivas nucleares que manobram a velocidade hipersónica para evitar os mísseis interceptores

Um drone submarino mais veloz que um torpedo que, alimentado a energia nuclear, percorre distâncias intercontinentais a grande profundidade, golpeando portos e outras fortificações costeiras com uma ogiva nuclear de grande potência.

Putin revela características de tais armas porque sabe que os EUA estão a desenvolver armas análogas e quer adverti-los de que a Rússia se encontra ao mesmo nível ou a um nível superior.

O que confirma que a corrida aos armamentos nucleares se desenvolve não sobre a quantidade mas, de forma crescente, sobre a qualidade das armas, ou seja sobre o tipo de vectores e sobre a capacidade ofensiva das ogivas nucleares.

Confirma ao mesmo tempo o crescente perigo que corremos tendo sobre o nosso solo armas nucleares e instalações estratégicas dos EUA, como o Muos e o Jtags na Sicília.

O ministro russo dos Estrangeiros, Lavrov, denuncia que «Estados europeus não-nucleares membros da NATO, violando o Tratado de não-proliferação, vêm sendo treinados pelos EUA na utilização de armas nucleares tácticas contra a Rússia».

A advertência é clara, incluindo para a Itália. Mas nenhum dos principais partidos manifestou registá-la, omitindo da campanha eleitoral com uma espécie de acordo tácito qualquer referência à NATP e às armas nucleares. Como se isso nada tivesse a ver com o nosso futuro e com a nossa vida.

(il manifesto, 6 Março)

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