A agenda afegã dos EUA pós-2014 tropeça

M K Bhadrakumar *    11.Ene.12    Outros autores

A conferência regional sobre o Afeganistão realizada em Istambul nada adiantou.
A agenda da conferência de foi logo de início enviesada. Em vez de se centrar na questão fundamental duma reconciliação nacional afegã viável, em como estabelecer o processo, em como garantir que fossem os afegãos a conduzi-lo e que ele fosse genuinamente afegão, os cérebros da conferência (em particular, os EUA) carregaram-na de geopolítica.

Não podia ter havido local mais apropriado para acolher uma conferência regional sobre o Afeganistão na presente situação do que a velha capital bizantina no Bósforo. A conferência de quinta-feira em Istambul levava um título impressionante: “Segurança e Cooperação no coração da Ásia”. O “coração” tinha 14 alvéolos: Afeganistão, Paquistão, Irão, China, Tajiquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Casaquistão, Rússia, Índia, Turquia, Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos.

A conferência foi recheada de dramatismo, o que não deixa de surpreender uma vez que o seu “cérebro” (os EUA) actuou quase insensível às batidas do coração.

A conferência foi perseguida desde o início pela intriga e pela contra-intriga, a tal ponto que o seu eventual falhanço seria compreensível.

Os EUA e aliados ocidentais começaram com grandes esperanças no parceiro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) Turquia poder conseguir obter da conferência uma declaração, preferivelmente assinada pelos 14 estados principais, que preparasse o terreno para estabelecer um mecanismo de segurança e integração regionais de acordo com o padrão da Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE). Esta declaração, por sua vez, levantaria voo na próxima conferência Bonn II em dezembro, para a qual a Alemanha convidou 90 países e 15 organizações internacionais.

Durante o evento a quinta-feira terminou em Istambul com uma nota algo miserável, com a qual o coração da Ásia sofreu uma ruptura menor. O Uzbequistão desistiu e foi-se embora no último minuto e os restantes 13 países finalmente acordaram numa anódina declaração final que será a última de uma série de banalidades e boas intenções desde que os EUA invadiram o Afeganistão

Aterragem forçada

A agenda da conferência foi logo de início enviesada. Em vez de se centrar na questão fundamental duma reconciliação nacional afegã viável, em como estabelecer o processo, em como garantir que fossem os afegãos a conduzi-lo e que ele fosse genuinamente afegão, os cérebros da conferência (em particular, os EUA) carregaram-na de geopolítica.

A conferência foi sobrecarregada com uma ambiciosa agenda de imposição na região de um mecanismo de mediação sob liderança ocidental sobre uma quantidade de disputas e divergências inter-regionais as quais, se é certo que são questões regionais com alguma relação com a estabilização do Afeganistão, não constituem a principal preocupação do momento presente.

Tratou-se de pôr o carro à frente dos bois, para não dizer pior. Os cérebros ocidentais introduziram desnecessariamente um molde controverso de uma nova arquitectura de segurança na Ásia central e meridional, completada com um mecanismo institucional e com um “grupo de contacto” para monitorização da aplicação de uma matriz de “medidas criadoras de confiança”.

Foi uma ideia condenada a aterragem forçada, dadas as profundas suspeitas sobre as intenções americanas na “guerra ao terror” no Afeganistão e a falta de vontade dos países regionais em aceitarem a residência permanente do Ocidente como árbitro-moderador-mediador na sua região.

Durante as fases preparatórias dos encontros internacionais em Oslo (Noruega) e Cabul em setembro e outubro, tornou-se evidente que não havia ninguém na região interessada numa nova organização regional de segurança presidida pelo Ocidente. A Rússia, a China, o Irão, o Paquistão e a maior parte dos países centro-asiáticos objectaram à proposta americana de uma nova arquitectura de segurança regional. A Índia, que não aprecia mediação externa nas suas disputas, manteve-se em silêncio para não ofender os EUA, confiando possivelmente que o Paquistão desempenhe o seu papel em qualquer circunstância.

Moscovo apresentou a sua própria contraproposta sob a forma de uma declaração de princípios de cooperação regional, listando medidas políticas, económicas e outras destinadas a criar confiança e a encorajar a cooperação entre os países vizinhos do Afeganistão. A perspectiva russa encontrou apoio na China, no Paquistão e no Irão, e não foi de estranhar que tivesse ganho terreno e que finalmente preparasse caminho para uma declaração conjunta na quinta-feira em Istambul.

No entanto, Washington (com Ancara) continuou a esforçar-se até ao último minuto para de certa maneira institucionalizar um processo regional através de “grupos de trabalho” e de uma forma “estruturada” de consultas. Mas, o Paquistão havia de aparecer para firmemente rejeitar estas ideias, indicando que uma segurança tipo OSCE relacionada com a conferência ou um aparelho de segurança em grande escala seria completamente inaceitável, já que havia um mundo de diferenças entre as tensões da guerra-fria que iniciaram o processo de Helsínquia e a actual situação afegã.

O ponto de vista do Paquistão é que os países vizinhos do Afeganistão teriam na melhor das hipóteses um papel de apoio no asegurar da paz, da segurança e da integridade territorial nesse país e que, em vez de se proporem novos mecanismos, o que havia a fazer devia ser a aplicação dos mecanismos de paz, segurança e desenvolvimento existentes.

O plano de jogo americano contemplava quatro objectvos. Primeiro, Washington esperava “amarrar” o Paquistão dentro das paredes do mecanismo de segurança regional dominado pelo Ocidente, de forma a tornar-se um protagonista como os outros e a diluir-se a sua exigência de estatuto especial em qualquer processo de paz afegão.

Segundo, o mecanismo regional daria aos EUA e aliados a possibilidade de reterem o papel principal na procura de um acordo afegão e também no período pós-2014. Terceiro, Washington estimava que o sistema de segurança regional viria a eclipsar a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) como processo principal de segurança regional na Ásia central e meridional, o que por sua vez reduziria a influência dominante da Rússia e da China na Ásia central.

Finalmente, os EUA encararam o mecanismo regional como proporcionando a base de segurança para o seu projecto da “Nova Rota da Seda” a correr em paralelo – moderna versão da sua “Grande estratégia para a Ásia Central” datando da presidência de George W. Bush. A Nova Rota da Seda propõe o Afeganistão como eixo regional para trazer a Ásia central e meridional mais próximas sob o pretexto do desenvolvimento e integração regionais.

O seu verdadeiro intento, contudo, é diminuir a posição proeminente da Rússia e da China na Ásia central e conseguir o acesso directo aos imensos recursos da região através de ligações de comunicações que contornem a Rússia e o Irão. A agenda dos EUA incluía conseguir para a NATO algum tipo de papel formal e institucional na segurança regional da Ásia central (um novo “desafio” que a NATO se propõe assumir no séc. XXI é a protecção das linhas energéticas).

É de supor que Moscovo e Pequim perceberam as manobras de diversão desde o início. O mais importante resultado da conferência de Istambul pode ter sido portanto que a SCO tenha apressado o processo de tomada de decisão e facilitado rapidamente a pretensão do Paquistão e da Índia em fazerem parte dessa organização.

Uma declaração russa, feita na segunda-feira a seguir a consultas políticas ao nível do ministério dos Estangeiros com a China, afirmava que os dois países discutiram as modalidades de conclusão da admissão dos dois países sul-asiáticos na SCO e “falaram de agilizar o processo” de adesão da Índia e do Paquistão (e do Afeganistão como “observador”). Provável é que possa mesmo ser formalizada uma decisão a este respeito na reunião dos chefes de governo da SCO fixada para segunda-feira em S. Petersburgo.

Nota de triunfalismo

Subjacente a todo este drama, foi a compreensão em Washington e nas capitais da região que a situação político-militar no Afeganistão está a mudar decisivamente a favor do Paquistão, desencadeando uma tentativa ocidental desesperada para garantir a presença militar permanente dos EUA e NATO no estratégico Hindu Kush.

Sem dúvida que se abre um perigoso período para os EUA e seus aliados da NATO com a forte possibilidade de as forças do Mullah Omar e da rede Haqqani colaborarem abertamente com vista à intensificação das actividades insurreccionais.

O devastador ataque suicida em Cabul com carro-bomba matando 13 soldados americanos e 3 australianos pode bem ser o anúncio de uma nova ofensiva. O momento escolhido (véspera da conferência de Cabul) deu um sinal camuflado ao governo americano de que chegou a hora da verdade e de que a estratégia dos EUA para enfraquecer os talibãs e obrigá-los a negociar não apenas falhou, como parece tê-los convencido mais do que nunca de que estão a caminho da vitória final.

É evidente que a visita da secretária de estado Hillary Clinton a Islamabad há 10 dias não ajudou a reduzir o grande défice de confiança nas relações EUA-Paquistão. Os militares paquistaneses parecem ter-se divertido por Clinton ter feito das fraquezas força, “oferecendo” graciosamente a Islamabad a “primazia” no “pressão” sobre os Haqqanis para os trazer à mesa das negociações.

A verdade é que no centro da questão está o falhanço total das tentativas secretas dos EUA nos últimos meses para ganharem acesso directo às chefias dos talibãs, para com elas iniciarem suo moto um processo de paz a partir de uma posição de força.

Por outro lado, o ponto de vista do Paquistão é que o presidente americano Barack Obama se vai pôr cada vez mais na defensiva à medida que se aproxima a eleição do próximo ano, enfraquecendo ainda mais a capacidade dos EUA pressionarem Islamabad. Surge nos discursos paquistaneses um tom de triunfalismo.

De facto, o governo de Obama deveria também sentir que os factores de vantagem estão progressivamente a pender para o lado do Paquistão e que os EUA carecem de real influência sobre o exército paquistanês. Os EUA esgotaram na Turquia os seus recursos ao tratarem de impor a ordem de trabalhos da conferência de Istambul dadas as suas relações tradicionalmente quentes e amigáveis com o Paquistão. Esperava-se também que a presença dos sauditas e dos Emiratos Árabes Unidos em Istambul tivesse influência no Paquistão. Pode ter acontecido que a conferência de Istambul tenha causado prejuízos nas relações Turquia-Paquistão. Escreveu um observador turco:
“Começaram a soprar ventos frios entre os dois [Turquia e Paquistão] devido ao problema do Afeganistão… Islamabad está bastante incomodada com a Turquia pelo seu papel na conferência (…) Basicamente, o Paquistão está desagradado com a Turquia e com os EUA por pretenderem uma conferência com resultados orientados. Para que a conferência desse frutos, seria fundamental uma institucionalização do processo. Noutras palavras, na falta de qualquer tipo de mecanismo de monitorização do processo que inclua a aplicação de medidas geradoras de confiança, tudo o que se disse em Istambul não passa do papel.
A diplomacia turca tentou acalmar os paquistaneses, dizendo-lhes que a presença da Turquia no quadro regional deveria aliviar as suas preocupações relativamente a outros participantes. Ao fim e ao cabo, os turcos não têm uma agenda secreta de fortalecimento da Índia à custa do Paquistão, mas tenho dúvidas de que consigam inspirar-lhe confiança.”

Em termos gerais, do ponto de vista russo e chinês, torna-se desejável, ou mesmo imperativo que daqui em diante e olhando para o futuro o Paquistão possa ter autonomia estratégica para aguentar a pressão americana. Quase de certeza, ambos apreciariam um papel importante do Paquistão para frustrar os planos americanos de instalação de um mecanismo de segurança regional para continuada interferência na região centro-asiática.

Em balanço, o esvaziamento da conferência de Istambul constitui um grave revés para a próxima conferência Bonn II em dezembro. Com o falhanço da conferência de Istambul na construção de um quadro institucionalizado de cooperação regional, falta à conferência Bonn II uma agenda viável, excepto quanto grande oportunidade oferecida por 2011 para a comemoração do 10º aniversário da primeira conferência em dezembro de 2011.

A intenção original era assegurar que os representantes dos talibãs iriam à conferência de Bonn, mas a não ser por milagre tal não vai acontecer. Isso deixa os EUA e os seus aliados da NATO isolados na preparação da planeada transição no Afeganistão em 2014, quando se encontrarem na cimeira da aliança em maio em Chicago.

Em resumo, as potências regionais não estão interessadas em colaborar com os EUA e aliados na coreografia do cenário de segurança regional pós-2014. A Rússia e a China insistem que o papel central da comunidade internacional no Afeganistão devia ser das Nações Unidas logo que a transição dos EUA e da NATO estejam completas em 2014.

Evidentemente que esperariam que o SCO tivesse um papel de liderança na estabilização do Afeganistão. A admissão expedita do Afeganistão como observador na SCO, junto com a aceitação do Paquistão como membro efectivo, transmite uma clara mensagem de que a segurança regional é mais bem conduzida pelos países da região, enquanto as potências extra-regionais podem intervir como facilitadores. É esta também a mensagem final da conferência de Istambul.

O embaixador M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira no Serviço de Estrangeiros Indiano. Prestou serviço na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

(Copyright 2011 Asia Times Online (Holdings) Ltd.)
Fonte: http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/MK04Df=3.html

Tradução: Jorge Vasconcelos

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos