A agenda árabe na Síria é muito clara

Pepe Escobar*    07.Feb.12    Outros autores - Serpa 2004

Pepe EscobarAs reaccionárias monarquias que comandam a Liga Árabe enviaram à Síria 160 observadores. Mas o relatório que estes elaboraram desmente a versão com que a NATO, tal como fez na Líbia, vem preparando a intervenção directa. O relatório afirma categoricamente que não houve repressão letal e organizada por parte do governo sírio contra os manifestantes pacíficos. Em vez disso, fala de bandos suspeitos como responsáveis das mortes dos civis sírios e de cerca de mil efectivos do exército sírio, através da utilização de tácticas letais tais como a colocação de bombas em autocarros civis, em comboios que transportavam diesel, em autocarros da polícia e em pontes e canalizações.

Podemos ver uma acelerada deriva nas «democráticas» maquinações da Liga Árabe, ou melhor, do CCG, porque o poder real nesta organização pan-árabe é exercido por duas das seis monarquias do Golfo Pérsico que formam o Conselho de Cooperação do Golfo, também conhecido como o Clube da Contra-revolução do Golfo: Qatar e a Casa dos Saud.

Na essência, o CCG criou um grupo na Liga Árabe com o objectivo de controlar o que está a suceder na Síria. O Conselho Nacional Sírio que tem a sua sede em dois países membros da Organização do Trata do Atlântico do Norte: Turquia e França – que lhe deram o seu apoio entusiástico. É esclarecedor que o vizinho da Síria, o Líbano, não o tivesse feito.

Quando os mais de 160 observadores, depois de um mês de investigações, emitiram o seu relatório – surpresa! – o relatório não encaixava com a linha oficial do CCG, que afirma que o «malvado» governo de Bashar al-Assad está unilateral e indiscriminadamente a matar o seu próprio povo, pelo que é necessário mudar de regime.

Naturalmente, o relatório foi ignorado (pelos media corporativos ocidentais) ou destruído sem piedade (pelos media árabes), praticamente quase todos eles bem financiados pela Casa dos Saud, ou pelo Qatar. Nem sequer foi discutido porque o CCG impediu que ele fosse traduzido para árabe ou inglês e se publicasse na página web da Liga Árabe.

Até que finalmente passou para fora. Aqui está ele completo: www.innercitypress.com/LASomSyria.pdf.

O relatório é categórico. Não houve repressão letal e organizada por parte do governo sírio contra os manifestantes pacíficos. Em vez disso, o relatório fala de bandos suspeitos como responsáveis das mortes dos civis sírios e de cerca de mil efectivos do exército sírio, através da utilização de tácticas letais tais como a colocação de bombas em autocarros civis, em comboios que transportavam diesel, em autocarros da polícia e em pontes e canalizações.

Uma vez mais, a versão oficial da NATO/CCG sobre a Síria é a de um levantamento popular esmagado com tiros e tanques. Ao contrário dos restantes países dos BRICS, a Rússia e a China e amplas franjas do mundo em desenvolvimento consideram que o governo sírio está a combater mercenários estrangeiros fortemente armados. O relatório confirma em boa medida estas como suspeitas.

O Conselho Nacional Sírio é, essencialmente, uma organização dos Irmãos Muçulmanos afilhada quer da Casa Saud quer do Qatar, com um tranquilo Israel apoiando silenciosamente na sombra. Mas a legitimidade não é servida como uma chávena de chá verde. Apesar do Exército Sírio Livre ter nele desertores do exército e bem-intencionados opositores do regime de Assad, a maior parte dele está pejada de mercenários estrangeiros armados pelo CCG, especialmente de bandos salafitas.

Mas nada dará alento à NATO/CCG, que neste momento não podem aplicar o seu modelo universal de promoção da «democracia» bombardeando um país e livrando-se do proverbial maléfico ditador. Os dirigentes do CCG, a Casa dos Saud e o Qatar, rejeitaram abertamente o seu próprio relatório e foram direitos ao miolo do assunto: impor uma mudança de regime impulsionado pela NATO/CCG, através do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Portanto, a actual «deriva dirigida pelos árabes nas Nações Unidas para assegurarem um fim pacífico à campanha de dez meses» na Síria não é mais do que uma grosseira tentativa de mudança de regime. Os habituais suspeitos, Washington, Londres e Paris, viram-se obrigados a sair do centro da cena para garantir à verdadeira comunidade internacional que este não é mais outro mandato de bombardeamento dado à NATO, como na Líbia. A secretária de Estado Hillary Clinton descreveu-o como «uma via para uma transição política que preserve a unidade e as instituições da Síria».

Mas os membros dos BRICS, Rússia e China, vêem-no como aquilo que ele é. Outro membro dos BRICS, a Índia, tal como o Paquistão e a África do Sul colocaram sérias objecções ao projecto de resolução das Nações Unidas engendrado pela NATO/CCG.

Não havia outra zona de exclusão estilo Líbia; depois de tudo, o regime de Assad não está a lançar MIGs contra os civis. A Rússia e a China bloqueariam de novo uma resolução da ONU a pedir uma mudança de regime. Inclusive, na NATO/CCG estão confusos, porque cada um dos blocos de actores – Washington, Ancara e o dueto Casa dos Saud e Doha – têm a longo prazo uma agenda geopolítica diferente. Para não falar do Iraque, crucial vizinho e parceiro comercial da Síria. Bagdad está oficialmente contra qualquer esquema de mudança de regime.

Por tudo isto aqui vai uma sugestão para a Casa dos Saud e o Qatar: já que tanto os seduz a perspectiva de uma «democracia» na Síria, por que razão não utilizais todo o armamento estadunidense e invadis a meio da noite – como fizeram no Bahrein - e impondes vós mesmos a mudança de regime?


* Pepe Escobar é correspondente itinerante do Asia Times online.

Tradução de José Paulo Gascão

Ese texto foi originalmente publicado em:
www.atimes.com/atimes/Middle_East/NB04Ak01.html

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