A ascensão da “Nova política” da Grã-Bretanha

John Pilger    23.Oct.17    Outros autores

O Partido Trabalhista britânico tem hoje à frente um homem «cuja carreira tem sido muito diferente da de Blair e é rara nas políticas do establishment britânico». Mas são conhecidas as dificuldades internas e as contradições com que Corbyn se tem deparado. Sobretudo no que diz respeito à política externa são muitos, e negativos, os sinais de continuidade.

Delegados à recente conferência do Partido Trabalhista em Brighton, cidade do litoral inglês, pareceram não se dar conta de um vídeo apresentado no átrio principal. Nele o terceiro maior fabricante de armas do mundo, a BAE Systems, fornecedor da Arábia Saudita, promovia as suas armas, bombas, mísseis, navios de guerra e aviões de combate.

Pareceu um pérfido símbolo para um partido no qual milhões de britânicos investem agora as suas esperanças políticas. Outrora reserva de caça de Tony Blair, o Partido Trabalhista é agora liderado por Jeremy Corbyn, cuja carreira tem sido muito diferente da de Blair e é rara nas políticas do establishment britânico.

Discursando na conferência, a activista Naomi Klein descreveu a ascensão de Corbyn como “parte de um fenómeno global. Vimo-lo na histórica campanha de Bernie Sanders nas primárias dos EUA, impulsionada pela nova geração sabedora de que a política centrista não lhes oferece qualquer espécie de futuro seguro”.

Na realidade, no final das eleições primárias dos EUA no ano passado Sanders conduziu os seus seguidores para os braços de Hillary Clinton, uma belicista liberal oriunda de uma longa tradição no Partido Democrata.

Como Secretária de Estado do presidente Obama, Clinton presidiu à invasão da Líbia em 2011, que levou a uma fuga em massa de refugiados para a Europa. Regozijou-se com o abjecto assassínio do presidente da Líbia. Dois anos antes, Clinton avalizou um golpe que derrubou o presidente democraticamente eleito das Honduras. Que ela tenha sido convidada para ir a Gales em 14 de Outubro a fim de lhe ser outorgado um doutoramento honoris causa pela Universidade de Swansea por ser “sinónimo de direitos humanos” é inconcebível.

Tal como a Clinton, Sanders é um homem da guerra-fria e um obsessivo “anticomunista” com uma visão de proprietário do mundo exterior aos Estados Unidos. Apoiou o ilegal ataque à Jugoslávia por Bill Clinton e Tony Blair em 1998, apoiou as invasões do Afeganistão, Síria e Líbia, assim como a campanha terrorista por meio de drones de Barack Obama. Apoia a provocação à Rússia e concorda em que o denunciante Edward Snowden deveria ser submetido a julgamento. Chamou ao falecido Hugo Chavez – um social-democrata que venceu múltiplas eleições – de “um ditador comunista morto”.

Enquanto Sanders é um dos habituais políticos liberais americanos, Corbyn poderá ser um fenómeno, com o seu apoio infatigável a vítimas das aventuras imperiais americanas e britânicas e a movimentos de resistência popular.

Por exemplo nas décadas de 1960 e 1970 os habitantes das ilhas Chagos foram expulsos da sua terra, uma colónia britânica no Oceano Índico, por um governo trabalhista. Uma população inteira foi sequestrada. O objectivo era dar lugar a uma base militar dos EUA na ilha principal de Diego Garcia: um acordo secreto pelo qual os britânicos foram “compensados” com um desconto de US$14 milhões no preço de um submarino nuclear Polaris.

Tive muito a ver com os ilhéus das Chagos e filmei-os no seu exílio na ilha Maurícia e nas Seychelles, onde sofreram e alguns deles “morreram de tristeza”, como me foi dito. Encontraram um defensor político num membro trabalhista do Parlamento, Jeremy Corbyn. O mesmo aconteceu com os palestinos. E também com iraquianos aterrorizados pela invasão do seu país em 2003 por um primeiro-ministro trabalhista. Assim também outros lutando por se libertar dos objectivos do poder ocidental. Corbyn apoiou homens como Hugo Chavez, que trouxeram mais do que esperança a sociedades subvertidas pelo grande monstro estado-unidense.

E ainda assim, agora que Corbyn está mais próximo do poder do que alguma vez poderia ter imaginado, a sua política externa permanece um segredo.

Por segredo quero dizer que tem havido retórica e pouco mais. “Devemos colocar os nossos valores no cerne da nossa política externa”, disse Corbyn na conferência trabalhista. Mas o que são estes “valores”?

Desde 1945, tal como os conservadores, os trabalhistas britânicos têm sido um partido imperial, obsequioso para com Washington: um registo exemplificado pelo crime nas ilhas Chagos.

O que mudou? Estará Corbyn a dizer que o Partido Trabalhista se desligará da máquina de guerra dos EUA, do aparelho de espionagem estado-unidense e dos bloqueios económicos dos EUA que afligem a humanidade?

O seu secretário-sombra para a política externa, Emily Thornberry, diz que um governo Corbyn “colocará os direitos humanos outra vez no cerne da política externa britânica”. Mas os direitos humanos nunca estiveram no cerne da política externa britânica – só os “interesses”, tal como Lord Palmerston declarou no século XIX: os interesses daqueles no cume da sociedade britânica.

Thornberry citou o falecido Robin Cook que em 1997, como primeiro secretário da política externa de Tony Blair, prometeu uma “política externa ética” que “faria outra vez da Grã-Bretanha uma força para o bem no mundo”.

A história não se compadece com a nostalgia imperial. A divisão da Índia pelo governo trabalhista, em 1947, recentemente comemorada, – com uma fronteira desenhada às pressas por um advogado em Londres, Gordon Radcliffe, que nunca estivera na Índia e à qual nunca regressou – levou a um banho de sangue numa escala genocida.
Trancado numa mansão solitária, com polícia noite e dia
A patrulhar os jardins para manter à distância os assassinos,
Ele pôs-se a trabalhar na tarefa de estabelecer o destino
De milhões. Os mapas à sua disposição estavam ultrapassados
E os Resultados do Censo quase certamente incorrectos,
Mas não havia tempo para verificá-los, nem tempo para inspeccionar
Áreas contestadas. O clima era horrivelmente quente,
E um acesso de disenteria mantinha-o constantemente ocupado,
Mas em sete semanas estava tudo feito, as fronteiras decididas,
Um continente, para o melhor ou o pior, dividido.
— W.H. Auden, “Partition”.
Foi o mesmo governo trabalhista (1945-51), liderado pelo primeiro-ministro Clement Attlee – um “radical” pelos padrões de hoje – que despachou para Saigão o exército imperial britânico do general Douglas Gracey, com ordens de rearmar os japoneses derrotados fim de impedir os nacionalistas vietnamitas de libertarem o seu próprio país. Assim foi ateada a mais longa guerra do século.

Foi um secretário trabalhista de assuntos externos, Ernest Bevin, cuja política de “mutualidade” e “parceria” com alguns dos mais odiosos déspotas do mundo, especialmente no Médio Oriente, que forjou relacionamentos que perduram até hoje, muitas vezes contornando e esmagando os direitos humanos de comunidades e sociedades inteiras. Por causa de “interesses” britânicos – petróleo, poder e riqueza.

Na “radical” década de 1960, o secretário trabalhista da Defesa, Denis Healey, estabeleceu a Defence Sales Organisation (DSO) especificamente para promover o comércio de armas e fazer dinheiro com a venda ao mundo de armas letais. Healey disse no Parlamento: “Apesar de concedermos a mais alta importância a alcançar progressos no campo do controle de armas e do desarmamento, devemos também adoptar medidas práticas para que possamos garantir que este país não deixe de assegurar a sua fatia legítima deste mercado valioso”.

O pensamento duplo era essencialmente trabalhista.
Quando posteriormente interroguei Healey acerca do “mercado valioso” ele afirmou que a sua decisão não fazia diferença para o volume das exportações militares. De facto, ela levou a uma quase duplicação da fatia britânica no mercado de armas. Hoje, a Grã-Bretanha é o segundo maior vendedor de armas do planeta, vendendo armas e aviões de combate, metralhadoras e veículos de “controlo de tumultos” para 22 dos 30 países que na lista do próprio governo britânico de violadores dos direitos humanos.

Será que isto vai cessar com um governo Corbyn? O modelo favorecido – a “política externa ética” de Robin Cook – é revelador. Tal como Jeremy Corbyn, Cook granjeou reputação como deputado de segunda linha e crítico do comércio de armas. “Sempre que são vendidas armas”, escreveu Cook, “há uma conspiração tácita para ocultar a realidade da guerra” e “é um truísmo que toda a guerra nas últimas duas década foi combatida por países pobres com armas fornecidas por países ricos”.

Cook destacou a venda de aviões de combate Hawk britânicos à Indonésia como “particularmente perturbadora”. A Indonésia “é não só repressiva como realmente está em guerra em duas frentes: no Timor Leste, onde talvez um sexto da população tenha sido massacrado… e na Papua Ocidental, onde confronta um movimento indígena de libertação”.

Como secretário de assuntos externos, Cook prometeu “uma revisão completa das vendas de armas”. O então Prémio Nobel da Paz, o bispo Carlos Belo de Timor-Leste, apelou directamente a Cook: “Por favor, imploro-lhe, não apoie nem mais um minuto um conflito que sem estas vendas de armas nunca poderia ter tido lugar nem durado tanto tempo”. Referia-se ao bombardeamento indonésio de Timor-Leste com Hawks britânicos e ao massacre do seu povo com metralhadoras britânicas. Não recebeu resposta.

Na semana seguinte Cook convocou jornalistas ao Foreign Office para anunciar sua “declaração de missão” em favor de “dos direitos humanos num novo século”. Este evento de relações públicas incluiu os habituais briefings privados para jornalistas seleccionados, incluindo a BBC, em que responsáveis do Foreign Office mentiram ao dizer que “não havia evidência” de que caças Hawk britânicos tivessem sido utilizados em Timor Leste.

Poucos dias depois, o Foreign Office divulgou os resultados da “revisão completa” da política de vendas de armas de Cook. “Não era realista ou prático”, escreveu Cook, “revogar licenças que eram válidas e estavam em vigor no momento da vitória eleitoral do Partido Trabalhista”. O ministro da Defesa de Suharto, Edi Sudradjat, disse que já estavam encaminhadas conversações com a Grã-Bretanha para a compra de mais 18 caças Hawk. “A mudança política na Grã-Bretanha não afectará as nossas negociações”, disse ele. Estava certo.

Hoje, substitua Indonésia por Arábia Saudita e Timor-Leste por Iémen. Aviões militares britânicos – vendidos com a aprovação tanto do governo Conservador como do Trabalhista e construídos pela firma cujo vídeo promocional teve lugar de destaque na conferência de 2017 do Partido Trabalhista – estão a extirpar a vida do Iémen, um dos mais empobrecidos países do mundo, onde metade das crianças está desnutrida e há a maior epidemia de cólera dos tempos modernos.

Hospitais e escolas, casamentos e funerais foram atacados. Em Riad, noticia-se, pessoal militar britânico treina os sauditas na selecção de alvos.

No manifesto actual do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn e seus colegas prometem que “o Labour exigirá uma investigação abrangente, independente, conduzida pela ONU, às alegadas violações… no Iémen, incluindo ataques aéreos a civis pela coligação liderada pelos sauditas. Suspenderemos imediatamente quaisquer novas vendas de armas para utilização no conflito até que a investigação esteja concluída”.

Mas a evidência dos crimes da Arábia Saudita no Iémen já está documentada pela Amnistia e outros, nomeadamente pela corajosa reportagem da jornalista britânica Iona Craig . O dossier é volumoso.

O Labour não promete travar as exportações de armas para a Arábia Saudita. Não diz que a Grã-Bretanha retirará seu apoio a governos responsáveis pela exportação do jihadismo islamita. Não há compromisso para desmantelar o comércio de armas.

O manifesto descreve um “relacionamento especial [com os EUA] baseado em valores partilhados… Quando a actual administração Trump preferir ignorá-los… não teremos medo de discordar”.

Como Jeremy Corbyn sabe, não se trata meramente de “discordar” ao lidar com os EUA. Os EUA são uma potência predadora, perigosa, que não deve ser encarada como um aliado natural de qualquer estado que defenda direitos humanos, seja Trump o presidente ou seja-o outro qualquer.

Quando Emily Thornberry, no discurso da conferência, ligou a Venezuela às Filipinas como “regimes cada vez mais autocráticos” – slogans destituídos de factos e que ignoram o papel subversivo dos EUA na Venezuela – estava conscientemente a jogar a favor do inimigo: uma táctica com a qual Jeremy Corbyn estará familiarizado.

Um governo Corbyn dará o direito de retorno aos ilhéus das Chagos. Mas o Labour nada diz acerca de renegociar a renovação do acordo por 50 anos que a Grã-Bretanha acaba de assinar com os EUA e que lhe permite utilizar a base de Diego Garcia a partir da qual bombardearam o Afeganistão e o Iraque.

Um governo Corbyn reconhecerá “imediatamente o estado da Palestina”. Mas há silêncio sobre se a Grã-Bretanha continuará a armar Israel, continuará a anuir com o comércio ilegal nos “colonatos” ilegais de Israel e tratará Israel simplesmente como uma parte combatente, ao invés de um opressor histórico com imunidade atribuída por Washington e Londres.

Sobre o apoio britânico aos actuais preparativos de guerra da NATO, o Partido Trabalhista gaba-se de que “o último governo trabalhista gastou mais do que a referência de 2 por cento do PIB” com a NATO. Diz: “Os cortes na despesa dos conservadores colocaram a segurança da Grã-Bretanha em risco” e promete ampliar as “obrigações” militares britânicas.

De facto, a maior parte dos £40 mil milhões que a Grã-Bretanha gasta actualmente com os militares não é para a defesa territorial do Reino Unido mas sim para propósitos ofensivos a fim de reforçar “interesses” britânicos tal como são definidos por aqueles que tentaram enlamear Jeremy Corbyn como não-patriótico.

Se as sondagens de opinião forem confiáveis, a maior parte dos britânicos está bem à frente dos seus políticos, conservadores e trabalhistas. Aceitariam impostos mais altos para pagar por serviços públicos; querem o Serviço Nacional de Saúde plenamente restaurado. Querem empregos e salários e habitação e escolas decentes; não odeiam estrangeiros mas detestam o trabalho explorador. Não têm qualquer memória afectuosa de um império no qual o Sol nunca se punha.
Opõem-se à invasão de outros países e encaram Blair como um mentiroso. A ascensão de Donald Trump recordou-os da ameaça que os Estados Unidos podem ser, especialmente com o seu próprio país a reboque.

O Partido Trabalhista é o beneficiário deste estado de espírito, mas muitas das suas promessas – certamente em política externa – estão condicionadas e comprometidas sugerindo, para muitos britânicos, mais do mesmo.

Jeremy Corbyn é ampla e adequadamente reconhecido pela sua integridade; opõe-se à renovação das armas nucleares Trident; o Partido Trabalhista apoia isto. Mas ele concedeu posições no gabinete sombra a deputados pró-guerra que apoiam o blairismo, que tentaram ver-se livres dele e que o destrataram como “inelegível”.

“Somos agora a corrente política dominante” disse Corbyn. Sim, mas a que preço?
06/Outubro/2017

O original encontra-se em www.counterpunch.org/2017/10/06/the-rising-of-britains-new-politics/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . Tradução revista por odiario.info

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