A centelha de Minneapolis

Atilio A. Boron    09.Jun.20    Outros autores

O assassínio de George Floyd foi a chispa que desencadeou a grande revolta social e cívica que está em curso nos EUA. A discriminação racial tem muito antigas raízes históricas e culturais, e perpetua-se por coexistir com uma sociedade ela própria baseada na injustiça e na desigualdade. E não terá solução no quadro dessa sociedade.

Em 1944 Gunnar Myrdal, um sueco que havia recebido o Prémio Nobel da economia, escreveu um livro intitulado “O dilema americano”, para desvendar as raízes do chamado “problema negro” nos Estados Unidos. A sua investigação mostrou que os afro-americanos eram percebidos e tratados pelos brancos - excepto por um sector que não compartilhava dessa crença - como uma “raça inferior” a quem era negado o gozo dos direitos supostamente garantidos pela Constituição. Por isso os afro-americanos ficavam estruturalmente desfavorecidos em relação aos brancos: baixos rendimentos, menor educação e maior desemprego construíram a trama profunda de um círculo vicioso herdado da longa história da escravidão e cujas sombras se projectam até o presente. Myrdal concluiu o seu estudo dizendo que os Estados Unidos tinham um problema, mas de uma cor diferente: branco. Uma população denegrida, atacada e discriminada que, mesmo depois de um século de abolição da escravidão tinha que lutar contra a cultura do esclavagismo que sobreviveu largamente ao término dessa instituição.

O Relatório do Census Bureau dos EUA de 2019 confirma a validade desse longínquo diagnóstico de Myrdal ao mostrar que se o rendimento médio das famílias norte-americanas era de US $ 63.179 e o das famílias “brancas” de US $ 70.642, o das afro-americanas caía para os US $ 41.361 e a das “hispânicas” caía, mas estacionando nos US $ 51.450. Os brancos são 64% do país, mas 30% da população carcerária; os negros representam 33% dos condenados, sendo 12% da população. 72% dos jovens brancos que terminam o ensino médio entram no mesmo ano numa instituição de ensino superior, coisa que apenas 44% dos afrodescendentes fazem. As recorrentes revoltas dessa etnia oprimida testemunham o fracasso das tímidas medidas adoptadas para a integrar, como a tão discutida “acção afirmativa”. A pandemia de Covid-19 agravou a situação, expondo a escandalosa discriminação existente: a taxa de mortalidade geral por esse vírus é de 322 por milhão de habitantes e baixa para 227 para os brancos, mas sobe bruscamente entre os negros para 546 por milhão. E a depressão económica que a pandemia potenciou exponencialmente tem entre suas primeiras vítimas os afrodescendentes. São eles que figuram maioritariamente entre os inscritos para obter o módico e temporário seguro de desemprego que o governo federal oferece. E são além disso o grupo étnico maioritário que está na linha de frente de combate à pandemia.

Esta explosiva combinação de circunstâncias apenas precisava de uma faísca para que a pradaria se incendiasse. O assassínio de George Floyd às mãos da polícia de Minneapolis, filmado minuto a minuto e viralizado instantaneamente proporcionou esse ingrediente, com os resultados já conhecidos. A criminosa estupidez de um Trump desorientado por mais de cem mil mortos por causa do seu negacionismo, e o abismo económico que se abriu a seus pés a cinco meses da eleição presidencial fez o resto. Num tweet ameaçou os manifestantes de “começar a disparar” se os distúrbios continuassem, como faziam os escravocratas sulistas do século XIX. Sinais inequívocos de um fim de ciclo, com violência desencadeada, saques e toques de recolher não respeitados nas principais cidades. Qualquer pretensão de “voltar à normalidade” que produziu tanta barbárie é uma melancólica ilusão.

Fonte: https://rebelion.org/la-chispa-de-minneapolis/

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