A Colômbia que desfilou, a que não desfilou, e a que desfilou contra os que desfilaram

Marulanda, comandante das FARC-EP com Andres Pastraña ex presidente da Colômbia nas negociações de paz abortadas por ordens de Washington
Se a realidade na Colômbia fosse aquela que os media de referência nos querem vender, a que ontem, dia 4 de Fevereiro, desfilou em apoio de Álvaro Uribe, o presidente narcotraficante e apoiante dos criminosos paramilitares, então não seria possível a existência há quase meio século das heróicas FARC-EP. Uma tão longa resistência armada só é possível porque existe uma profunda e alargada base de apoio à luta pela “paz com justiça social” e agora cada vez mais pelo intercâmbio humanitário dos prisioneiros das partes em confronto.

Há, pelo menos, duas Colômbias. Uma que desfilou e outra que não. Uma que votou e voltaria a votar na continuidade de um paramilitar e narcotraficante como Álvaro Uribe na presidência, e outra que continuará opondo-se, apesar de lhe assassinarem os filhos, de lhe roubarem as suas terras e de a deixarem sem trabalho.

Há uma Colômbia de sentimentos patrióticos virtuais, de meninos e meninas «de bem» que se indignam diariamente, através da Facebook, com a violência nacional, enquanto enviam para as suas listas de correio electrónicos, as razões pelas quais se sentem orgulhosos do que acreditam ser a Colômbia: Juanes, Shakira e Montoya.

Na outra Colômbia há pelo menos sessenta mil famílias que continuam à espera que os paramilitares amigos do governo mafioso de Uribe lhes digam onde enterraram os pedaços mutilados das suas vítimas. Em que vala comum, de que herdade, de que congressista uribista, se encontram os despojos de milhares de homens, mulheres, jovens e crianças que faziam parte da outra Colômbia, da que não desfilou.

Como também não desfilaram os camponeses assassinados pela Brigada Móvel número XV do exército colombiano que, segundo relatou um dos próprios assassinos à Procuradoria Geral da Nação, o sargento Alexander Rodríguez, eram fuzilados para os fazer assim passar por guerrilheiros e reclamar cinco dias de descanso por cada morto.
A Colômbia das universidades privadas, de empregos bem remunerados em lojas, companhias, centros comerciais, bancos e empresas prósperas da máfia, a Colômbia proprietária, a que diz poder agora viajar por estrada nos seus veículos blindados de visita às suas quintas de lazer em terras exclusivas do país, roubadas a camponeses ou a indígenas e hoje guardadas por paramilitares, essa Colômbia sim desfilou.

Os jovens dos bairros que têm aulas nas universidades públicas, com um bilhete de autocarro no bolso e um pequeno-almoço caseiro no estômago, os rapazes e raparigas que leram mais do que um bom livro sobre a história e a origem na nossa violência, os que insistem na democracia participativa e nas mudanças estruturais de um país tomado pelos paramilitares, os que não engolem as histórias nem de Uribe nem dos seus assessores cínicos, esses não desfilaram.

Na minha terra, na Costa Atlântica, os uribistas quiseram aproveitar a afluência maciça do povo ao Carnaval de Barranquilla, para fazer crer aos internautas que essa manifestação cultural centenária e rica era produto das suas convocatórias virtuais. Mas apenas conseguiram fazer um rápido e desluzido desfile em carros luxuosos, de eleitores de Uribe que suspenderam os festejos por quinze minutos e saíram contornando o quarteirão, apitando buzinas e posando para a fotografia com o seu telemóvel para depois a afixar no portal da Facebook e dizer que «milhões de colombianos desfilaram».

Mas houve uma Colômbia, entre estas duas de que falei, que também desfilou, para exigir a solução política negociada do conflito armado, um intercâmbio humanitário de prisioneiros, e a paz com justiça social que mantém armada a outra Colômbia. E que se essa outra Colômbia armada saiu a desfilar, fê-lo por montanhas e selvas do país, combatendo, como sempre, os mercenários gringos, os oficiais e soldados, os compatriotas cuja única alternativa de trabalho remunerado foi a guerra; e combatendo os novos paramilitares que negociaram com Uribe novos benefícios num já anunciado terceiro mandato.

Uma Colômbia que (não fazendo o jogo da Facebook, a extensão da CIA cujos 16 sócios são agentes da inteligência estatal norte-americana), desfilou em Washington entoando: “Uribe paraco, el pueblo está verraco!”.

Em Bogotá jovens da zona sul da cidade desfilaram ao estilo das tribos urbanas, pedindo paz, mas também justiça para os seus amigos assassinados pelos paramilitares em cumplicidade com a polícia, e apresentados como delinquentes abatidos em ajuste de contas entre bandos, quando na realidade eram apenas adolescentes irreverentes que resistiam ao controlo social dos paramilitares nos seus bairros.

A Colômbia que desfilou fê-lo convencida que Uribe será reeleito por mais quatro anos para um governo mafioso e paramilitar. Muitos, quem sabe, não estão conscientes disso.

A Colômbia que desfilou contra a marcha de Uribe fê-lo, em boa parte, para não ser tomada como amigos de «os violentos», mas, por outra parta, para expressar saídas distintas da unanimidade bélica.

E a Colômbia que não desfilou espera que os ossos dos seus familiares apareçam, ou que alguém diga, «Eu matei-os» como já o disse o narcotraficante, paramilitar e eleitor de Uribe, Hérman Giraldo, que assassinou 37 pessoas, entre as quais Martha Lucía Hernández Turriago, ex directora do Parque Tayrona, e o estudante Hugo Maduro, ex militante da Juventude Comunista, e hoje apenas mais um número na estatística de um extermínio que não cessa.

Este artigo foi anteriormente publicado em Rebelión

Tradução de Ana Catarina Almeida

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