A Comunicação na era da Internet

Luis Britto Garcia    27.Abr.21    Outros autores

Um muito interessante ponto da situação sobre a forma como a internet evoluiu de um canal que prometia multiplicar e comunicar informação de forma praticamente gratuita e universal a um sistema de gigantescas redes sociais e anti-sociais dirigidas por anónimos, sobre cujas decisões e operações não temos notícias nem direito a reclamar, e que pretendem exercer plenos direitos sobre os nossos dados e as nossas criações. Um sistema de espionagem, controlo e manipulação ao pé do qual a televisão “bidireccional” imaginada por Orwell seria uma «brincadeira de crianças».

Cada avanço tecnológico suscita um sonho utópico e um pesadelo distópico. A invenção da Internet por volta de 1990 gerou expectativas entusiásticas. O seu próprio início foi utópico. O seu criador, Tim Berners-Lee, recusou-se a registar as patentes que o teriam tornado multimilionário, para as colocar à disposição da humanidade.
Dispositivo de início apropriado pelo complexo militar-industrial como rede subterrânea invulnerável a ataques atómicos, tornou-se aparentemente um instrumento à disposição de todos para a livre troca de mensagens e conhecimentos. Se na época em que vivemos o bem mais apreciado é a informação, um canal que prometia multiplicá-la e comunicá-la de forma praticamente gratuita e universal parecia porta aberta para a utopia.

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Essa perspectiva optimista foi prontamente encerrada. Tal como todos os bens à disposição da humanidade - terra, água, minerais, organismos biológicos – não tardaram a ser apropriados, a internet não demorou muito a cair sob o poder e os planos das operadoras. A rede concebida para transmitir mensagens não demorou muito a encontrar quem quisesse tornar-se dono das mesmas e, através delas, dos seus emissores.

Actualmente, cerca de 70% do PIB global é produzido pelo sector terciário (finanças, investigação, educação, publicidade, informática, entretenimento) que, por sua vez, é gerido através da Internet. Desde o século passado, os Estados Unidos desenvolveram o sistema Echelon de espionagem para descodificar propostas em concursos e fazer com que as empresas norte-americanas os ganhassem. A informação, como a mais-valia, é expropriada da sociedade que a cria e tende a concentrar-se em cada vez menos mãos. Dominar a Web é dominar a economia.

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Todo o controlo sobre a economia se torna controlo social. A Internet e as redes acumulam integrantes que excedem em muito a população de muitos dos Estados soberanos. No início de 2021, 4,66 milhares de milhões de pessoas usavam a internet: 59,5% da população mundial. 5,2 milhares de milhões usam telefone celular, 66,6% da população do planeta.

4,2 milhares de milhões de pessoas estão envolvidas nas redes sociais: 53,6% dos terráqueos. Nessas redes, só o Facebook reúne 2.740 milhões de pessoas; YouTube, 2.291; WhatsApp, 2.000 Os utilizadores de Internet passam em média seis horas e 54 minutos por dia nela: a duração normal de um dia de trabalho. Estas desmesuradas clientelas são mercados incomensuráveis ​​que fornecem incessantemente dados inestimáveis aos seus operadores ​​e recebem em troca publicidade e propaganda.

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Imaginemos que um serviço postal, pelo simples facto de transmitir correspondência, reivindicasse o direito de abrir todas as cartas que transmite e de utilizar livremente o seu conteúdo. Um tal serviço não tardaria a ser denunciado como um inadmissível instrumento de tirania e a perder todos os seus usuários. Tal é o caso da Internet.

Desde os primeiros tempos, primeiro os governos e depois os operadores de rede atribuíram-se abusivamente ambos os privilégios. Hoje, o usuário pode quase ter a certeza de que todas as suas mensagens são abertas, escrutinadas e utilizadas para os seus próprios fins pelas organizações que as transmitem e seus cúmplices.

Programas de análise de conteúdo detectam a presença de certas palavras ou construções chave e alertam os mecanismos de vigilância que aplicam estreitos controlos sobre os emissores da mensagem. Anteriormente ao cerco, os canais instalam cookies nos computadores dos usuários, programas espia que fornecem informações detalhadas sobre o conteúdo dos computadores e as mensagens que emitem.

Estes mecanismos aproximam todos os internautas de um mundo de controlo total, perante o qual parece uma brincadeira de crianças a televisão bidirecional imaginada por George Orwell, que não apenas transmitia imagens ao telespectador como também vigiava todos os seus actos.

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A espionagem emprega todos o tipo de dispositivos capazes de registar informação. Edward Snowden decidiu desertar dos serviços de informações norte-americanos quando se deu conta de que estes espiavam os telefones, e que o número de dispositivos de espionagem dedicados a vigiar cidadãos norte-americanos era maior do que os aplicados contra o resto do mundo.

Já é quase impossível abrir uma página web sem que ela nos informe que usa cookies para nos servir melhor - na verdade, para nos espiar melhor - e que o simples facto de usar a página equivale a consentir em hospedar um espião no dispositivo do qual depende a nossa comunicação com o mundo. Alguns, de forma inocente, pedem-nos de início a senha do nosso correio electrónico, o que é como pedir-nos ao mesmo tempo a chave da casa, do carro e do cofre. Mas nossos ditos servidores já as têm: somos, na verdade, seus servos.

As páginas web e as redes sociais atribuem-se de forma explícita ou implícita o direito de utilizar para os seus próprios fins todo os conteúdos que os usuários façam circular nelas. É como se um serviço postal se atribuísse a propriedade de todas as mensagens e objectos que lhe fossem confiados. É fácil compreender o que isso significa num mundo onde a informação é o bem económico fundamental. Apropriar-se da informação é apropriar-se do mundo.

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O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente, diz o mil vezes citado aforismo de Lord Acton. Dotados do incomensurável poder que as práticas mencionadas lhes conferem, os operadores de rede não tarda a tornar-se legisladores, executores e, em última instância, censores dos seus usuários. Assim, instauram códigos arbitrários e vetos contra certas organizações, pessoas ou comunicações.

Imaginemos uma vez mais que nos serviços postais tradicionais os operadores se atribuíam o direito de abrir e ler cada mensagem de forma a bloqueá-la caso não fosse compatível com os seus próprios critérios.

Tal conduta abusiva apenas era permitida em casos excepcionais de investigações autorizadas por um órgão judicial ou de medidas restritivas de informação estratégica durante uma guerra. Os operadores das redes atribuem-se o direito de o fazer por iniciativa própria, sobre qualquer conteúdo e a todo o momento.

Assim, temos visto apagadas do ciberespaço mensagens de indivíduos, organizações e até mesmo do Presidente dos Estados Unidos e do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Não estou de acordo com o que diz, mas daria a minha vida para defender o seu direito a dizê-lo, afirmou Voltaire. Não estou de acordo com o que diz, portanto você não existe, sentencia a operadora de internet. Num mundo informatizado, a exclusão da Internet é o novo ostracismo; mas um desterro que não exclui de um só país, mas do mundo.

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As redes de informáticas e seus operadores, como os capitalistas, transferem assim o controlo de um facto económico para o de um facto político. Legislam, decidem sobre a aplicação das suas leis e executam eles próprios as decisões num insólito caso de acumulação de poderes. Tudo estaria perdido, dizia Montesquieu, se um único homem ou uma só assembleia reunissem o poder de dar as leis, interpretá-las e executá-las.

As redes escolhem governos mediante a análise de Big Data, que permite o envio de mensagens com fake news personalizadas de acordo com os anseios, os medos, as fobias de cada sector da audiência. As redes procuram derrubar governos por meio de campanhas de ódio que não admitem resposta. As redes convertem em mártires todos aqueles que as utilizam para o seu verdadeiro propósito, que é divulgar informação.

O exilado perpétuo Edward Snowden, o prisioneiro perpétuo Julian Assange são evidências e avisos disso. No nascente mundo das redes, essa insólita concentração de poderes é um facto consumado, que futuras revoluções deverão corrigir.

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Todo controlo social se torna controlo político. Teríamos escrúpulos em fazer parte de um país, de um clube, de um partido, no qual não tivéssemos voto para eleger os dirigentes e orientar as suas políticas. Mas somos súbditos de redes sociais e anti-sociais dirigidas por anónimos, sobre cujas decisões e operações não temos notícias nem direito a reclamar, e que pretendem exercer plenos direitos sobre os nossos dados e as nossas criações. Pelo número dos seus vassalos, excedem o de muitos dos Estados nacionais; pelo seu alcance global, iludem a territorialidade que nos coloca sob a acção da polícia e os tribunais destes Estados.

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Foi estabelecido sobre as redes e a Internet um absolutismo infinitamente mais irresponsável e perpétuo que o das antigas monarquias de direito divino. Chegou a hora de um novo Rousseau proclamar a subversiva doutrina de que a Soberania das Redes reside sempre no usuário; que este não pode cedê-la, transferi-la nem converter-se voluntariamente em escravo dos seus operadores porque a loucura não confere direitos. De que um novo profeta verifique que a informação tende a concentrar-se em cada vez menos mãos; que chegou a hora de os desinformados expropriarem os desinformadores e declararem a propriedade social sobre a comunicação. Desinformados de todo o mundo, uni-vos: nada tendes a perder, salvo a vossa incomunicação.

Fonte: http://www.cubadebate.cu/especiales/2021/04/24/la-comunicacion-en-la-era-de-internet/

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