A condenação de Simón Trinidad afasta-nos da Paz*

Numa sentença só possível num arremedo de tribunal, como é tão frequente nos Estados Unidos da América ficar evidenciado em julgamentos políticos, Simón Trinidad das FARC-EP, foi condenado a 60 anos de prisão. Com esta sentença, para além de Simón Trinidad, também o Acordo Humanitário de intercâmbio de prisioneiros entre as FARC e a Colômbia que é uma vez mais condenado.

Um juiz estadunidense condenou o guerrilheiro colombiano Simón Trinidad a 60 anos de prisão.

Esta condenação é mais uma demonstração do nível de entrega da soberania colombiana aos desígnios de estadunidenses.

Simón Trinidad foi capturado em Quito, pela CIA e agentes corruptos da inteligência equatoriana e colombiana, a 2 de Janeiro de 2004 e, segundo Raul Baça, então ministro equatoriano, o único delito de Trinidad nesse país teria sido a falta de documentos de identificação.

Simón Trinidad fazia parte da equipa das FARC que se sentou a explorar acordos de paz com o governo de Andrés Pastraña. De acordo com fontes das FARC, a sua prisão deu-se quando Trinidad iniciava contactos com as Nações Unidas, para propor um intercâmbio de prisioneiros com o Estado colombiano.

Numa operação de cariz cinematográfico, Trinidad foi trazido para a Colômbia, mostrado à imprensa e depois extraditado para os Estados Unidos em 31 de Dezembro de 2004.

A sentença favorável proferida pelo Supremo Tribunal de Justiça da Colômbia, ordenou também a extradição dos paramilitares e narcotraficantes Salvatore Mancuso e Carlos Castaño.

O aparecimento dos nomes destes últimos no documento não pode ser vista como outra coisa que não seja uma manobra do Supremo Tribunal para parecer equilibrada, pois Mancuso continua a sua vida de beneficiado pela Lei de Justiça e Paz na Colômbia e Carlos Castaño sabe-se lá se foi realmente assassinado pelo seu irmão Vicente, ou se está a apanhar banhos de sol numa praia do Mar Morto…

Mancuso foi várias vezes condenado por massacre, assassinato e narcotráfico. No entanto, a Lei de Justiça e Paz, aborto jurídico nascido do uribismo, obriga-o a cumprir um máximo de oito anos de prisão, dos quais quatro já estão cumpridos; Isto é, para as próximas eleições estará livre e desfrutará da sua fortuna ilegal numa das suas fazendas abandonadas com milhares da camponeses mortos.

A justiça estadunidense acusou Simón Trinidad de narcotráfico, terrorismo e sequestro. Num primeiro julgamento o júri não o condenou devido à inconsistência das provas carreadas pela acusação.

Depois iniciou-se um segundo julgamento, em que foi processado pelo sequestro de três mercenários, agentes da CIA capturados pelas FARC, quando sobrevoavam território colombiano numa avioneta derrubada com tiros de espingarda.

No momento da captura dos mercenários, Trinidad não se encontrava na zona, nem fazia parte do comando guerrilheiro que fez a operação, mas apesar disso, o juiz norte-americano condenou-o a 60 anos de prisão pelo que considerou uma «conspiração» para sequestrar os três mercenários que eles, subtilmente, chamam de contratados pelo Pentágono.

A condenação de Trinidad a 60 anos de cadeia, um homem de 57 anos, pressupõe que seja uma pena de prisão perpétua, pois previsivelmente morrerá na cadeia, circunstância que rompe um dos compromissos do tratado de extradição entre os Estados Unidos e a Colômbia, que proíbe penas perpétuas.

Além do mais, o mesmo tratado diz que os delitos pelos quais um cidadão estrangeiro pode ser acusado, devem ter sido cometidos em solo estadunidense, e a suposta «conspiração» pela qual Trinidad é condenado ocorreu na Colômbia. Depois, «conspirar» pressupõe uma planificação do delito, uma acção anterior entre os que o cometem, e as circunstâncias da prisão dos três mercenários parecem fortuitas.

É mais que provável que ao derrubar a avioneta em voo, os guerrilheiros das FARC não soubessem que no seu interior se encontravam os mercenários, facto que desvirtua a teoria conspirativa com a qual Trinidad foi condenado.

Seja como for, a verdade é que o Estado colombiano renunciou vergonhosamente à sua soberania de processar e julgar um cidadão nacional, só para satisfazer a vaidade de gringa de se julgarem os polícias do mundo.

Em 3 de Fevereiro de 2005 foi indeferido o pedido feito pelos seus advogados de repatriamento para a Colômbia, onde se mantêm abertos 96 processos. Outra das condições do tratado violadas é a de que os delitos do delinquente na sua terra de origem têm prevalência sobre os que supostamente tenha cometido em solo estrangeiro.

Na Colômbia, Trinidad já estava condenado a 81 meses de prisão por rebelião. A sua condenação a 60 anos é o fecho da porta à possibilidade de um Acordo Humanitário, atitude gringa que reproduz fielmente o que quer o governo de Álvaro Uribe. No final do ano passado, pais, mães, esposas, filhos e filhas dos três mercenários visitaram o Palácio Miraflores em Caracas. As suas caras reflectiam a ilusão de rapidamente verem os seus familiares, porque a mediação do presidente Hugo Chávez tinha dado um novo impulso Acordo Humanitário.

Como estarão hoje essas mesmas pessoas, ao saber que um dos «trocáveis» das FARC nos Estados Unidos, garantia da libertação dos seus familiares,podia morrer de velho na prisão

* O presente artigo foi publicado dia 29 de Janeiro pela Agência Boliviana de Notícias

Tradução de José Paulo Gascão

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