A Conferência de Munique revela divisão Este-oeste

Pepe Escobar    27.Feb.20    Outros autores

A Conferência de Segurança de Munique ilustrou como a agressividade EUA-NATO se sustenta ideologicamente no ressurgir da ambição colonialista ocidental, na defesa de um direito irrestrito de agir pela força onde quer que seja. Tal como faz com as relações laborais, o capitalismo tenta fazer o planeta inteiro regressar ao século XIX.

Poucas pantomimas políticas pós-modernas têm sido mais reveladoras do que as centenas de chamados “tomadores de decisão internacionais”, na maioria ocidentais, cada vez mais líricos, desgostados ou nostálgicos sobre o “Ocidentalismo” na Conferência de Segurança de Munique.
“Ocidentalismo” soa como um desses conceitos indigestos emitidos em resultado de má ressaca depois de uma festa na Rive Gauche durante a década de 1970. Em teoria (mas não na Teoria Francesa), o Ocidentalismo na era do Whatsapp deveria significar um déficit de acção multilateral para enfrentar as ameaças mais prementes à “ordem internacional” - ou (des) ordem - enquanto o nacionalismo, ridicularizado como onda populista de vistas curtas, prevalece.

No entanto, o que Munique realmente revelou foi um profundo anseio – ocidental – saudoso dos efervescentes dias do imperialismo humanitário, com o nacionalismo em todas as suas vertentes sendo apontado como o vilão que impede o avanço imparável de lucrativas e neocoloniais Guerras Permanentes.

Por mais que os organizadores do MSC - um robusto grupo atlantista - tentassem encaminhar as discussões enfatizando a necessidade de multilateralismo, um cabaz de males variando desde a migração descontrolada à “morte cerebral” a NATO foi referido como consequência directa do “crescimento de um campo iliberal e nacionalista no interior do mundo ocidental”. Como se isso fosse uma ofensiva perpetrada por uma hidra todo-poderosa ostentando as cabeças de Bannon-Bolsonaro-Orban.

Longe desses chefes do «Ocidente-é-mais» em Munique está a coragem de admitir que os variados contra-golpes nacionalistas se qualificam também como reveses para o implacável saque ocidental do Sul Global por meio de guerras - quentes, frias, financeiras, empresariais-exploradoras.

Pelo que vale, eis o relatório da MSC. Apenas duas frases seriam suficientes para denunciar o jogo da MSC: “Na era pós-Guerra Fria, as coligações lideradas pelo Ocidente eram livres de intervir em quase qualquer lugar. Na maioria das vezes, havia apoio no Conselho de Segurança da ONU e, sempre que uma intervenção militar era lançada, o Ocidente desfrutava de liberdade de movimento militar quase incontestada.”

Ora aí está. Aqueles eram os dias em que a NATO, com total impunidade, podia bombardear a Sérvia, perder miseravelmente uma guerra no Afeganistão, transformar a Líbia num inferno das milícias e planear inúmeras intervenções em todo o Sul Global. E é claro que nada disso tinha qualquer ligação com os bombardeados e os invadidos sendo forçados a tornar-se refugiados na Europa.

Ocidente é mais

Em Munique, a ministra das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Kang Kyung-wha, aproximou-se da questão central quando disse que considerava o tema “Ocidentalismo” bastante insular. Fez questão de enfatizar que o multilateralismo é muito uma característica asiática, desenvolvendo o tema da centralidade da ASEAN.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, com a sua elegância habitual, foi mais agudo, observando como “a estrutura da rivalidade da Guerra Fria está a ser recriada” na Europa. Lavrov foi um prodígio do eufemismo quando observou como “a escalada de tensões, o avanço para o leste da infraestrutura militar da NATO, exercícios de escala sem precedentes perto das fronteiras russas, o incremento de orçamentos de defesa para além de qualquer bom-senso - tudo isso gera imprevisibilidade”.

Foi no entanto o conselheiro de Estado chinês e ministro das Relações Exteriores Wang Yi quem realmente atingiu o cerne da questão. Enfatizando que “fortalecer a governança global e a coordenação internacional é urgente agora mesmo”, Wang disse: “Precisamos livrar-nos da divisão entre Oriente e Ocidente e ir além da diferença entre Sul e Norte, numa tentativa de construir uma comunidade com um futuro partilhado para a humanidade.”

“Comunidade com um futuro partilhado” pode ser a terminologia padrão de Pequim, mas comporta um significado profundo, pois incorpora o conceito chinês de multilateralismo como significando que nenhum Estado tem prioridade e que todas as nações compartilham os mesmos direitos.

Wang foi mais além: o Ocidente - com ou sem o Ocidentalismo – deveria livrar-se de sua subconsciente mentalidade de supremacia civilizacional; abandonar o seu preconceito contra a China; e “aceitar e acolher o desenvolvimento e revitalização de uma nação do Oriente com um sistema diferente do do Ocidente”. Wang é um diplomata suficientemente sofisticado para saber que isso não vai acontecer.

Wang também não deixou de fazer levantar as sobrancelhas do grupo do Ocidente a níveis alarmantes quando enfatizou, uma vez mais, que a parceria estratégica Rússia-China será aprofundada – juntamente com a exploração de “formas de coexistência pacífica” com os EUA e uma cooperação mais profunda com a Europa.

O que esperar em Munique da parte do chamado “líder do sistema” era bastante previsível. E foi expresso, fiel ao roteiro, pelo actual chefe do Pentágono, Mark Esper, mais um praticante do sistema de portas giratórias em Washington.

Ameaça do século XXI

Todas as posições do Pentágono foram expostas. A China não passa de uma ameaça crescente à ordem mundial - como “ordem” ditada por Washington. A China rouba o conhecimento ocidental; intimida todos os seus vizinhos menores e mais fracos; procura “vantagem por qualquer meio e a qualquer custo”.

Como se fosse necessário algum lembrete para esse público bem informado, a China foi novamente colocada no topo das “ameaças” do Pentágono, seguida pela Rússia, “estados safados” Irão e Coreia do Norte e “grupos extremistas”. Ninguém perguntou se a Al-Qaeda na Síria faz parte da lista.

O “Partido Comunista e seus órgãos associados, incluindo o Exército de Libertação Popular”, foram acusados de “operar em cada vez mais teatros fora das fronteiras da China, incluindo na Europa”. Toda a gente sabe que apenas uma “nação indispensável” é autorizada a operar “em teatros fora de suas fronteiras” para bombardear outros em direcção à democracia.

Não é de admirar que Wang tenha sido forçado a qualificar todos os itens acima como “mentiras”: “A causa raiz de todos esses problemas e questões é que os EUA não querem ver o rápido desenvolvimento e rejuvenescimento da China, e menos ainda desejam. aceitar o sucesso de um país socialista”.

Assim, no final, Munique desintegrou-se no saco de gatos que irá dominar o resto do século. Com a Europa de facto irrelevante e a UE subordinada aos desígnios da NATO, o Ocidentalismo é apenas um conceito vazio e bloqueado: toda a realidade é condicionada pela dinâmica tóxica da ascensão da China e do declínio dos EUA.

A irreprimível Maria Zakharova acertou em cheio uma vez mais: “Falavam desse país [China] como uma ameaça para toda a humanidade. Disseram que a política da China é a ameaça do século XXI. Tenho a sensação de que estamos a testemunhar, em particular através dos discursos proferidos na conferência de Munique, o renascimento de novas abordagens coloniais, como se o Ocidente tivesse deixado de considerar vergonhoso reencarnar o espírito do colonialismo por meio da divisão de pessoas, nações e países.”

Um destaque absoluto do MSC foi quando o diplomata Fu Ying, primeiro responsável pelas relações exteriores do Congresso Nacional do Povo, reduziu a poeira a presidente da Câmara de Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, com uma pergunta simples: “Acha realmente que o sistema democrático é tão frágil” que possa ser ameaçado pela Huawei?

Fonte: https://asiatimes.com/2020/02/munich-summit-illustrates-east-west-divide/

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