A Conferência de Serpa: O declínio imperialista pede uma resposta revolucionária

John Catalinotto*    25.Nov.07    Colaboradores

De regresso aos seus países, alguns participantes no Encontro Civilização ou Barbárie publicaram artigos com as suas impressões sobre o acontecimento e a cidade de Serpa.

Alguns 36 activistas marxistas, escritores e pensadores de quinze países reuniram-se a 5, 6 e 7 de Outubro na cidade de Serpa no Alentejo em Portugal para organizar uma espécie de conferência. Dedicaram as suas contribuições a examinar os desafios que a classe trabalhadora enfrenta no período pós-soviético enquanto o sistema mundial do capitalismo e do imperialismo experimenta uma crise profunda, vasta e talvez terminal.

O grupo que mantêm o sítio em língua portuguesa, odiario.info, organizou a conferência com o auxílio da municipalidade de Serpa e a revista Vértice.

Ao contrário de outros agrupamentos de marxistas académicos, mesmo os poucos que aplicam os ensinamentos de Marx em vez dos muitos que tentam rever a sua obra mais importante — este é constituído na sua maioria por activistas políticos, alguns dirigentes de partidos comunistas. Suportaram a luta das nações oprimidas contra o imperialismo, e a maioria considera a classe trabalhadora como assunto revolucionário da História e o líder revolucionário Lénine como uma aproximação para organizar uma luta para tomar o poder.

O Alentejo foi o centro de uma luta anti-fascista durante décadas antes da revolução em Portugal em 1974. Em 1962 milhares de trabalhadores rurais desafiaram o regime fascista de Salazar com greves pelo dia de oito horas. Embora a economia da região tivesse mudado totalmente em poucas décadas, as tradições da luta de classe e a luta anti-imperialista permanecem e esta região é ainda um bastião do Partido Comunista Português (PCP).

Muitas das centenas de pessoas que estiveram presentes nas sessões da conferência eram do Alentejo ou já haviam feito aí trabalho político. Parece que quase todos acima dos 50 ou tinham trabalhado na clandestinidade, ou haviam estado presos nos cárceres fascistas, fugido de lá ou tinham feito as três coisas. Uma audiência destas exige da parte dos oradores rigor e disciplina.

O que há a fazer?

O título da conferência era «Civilização ou Barbárie». Muitos dos oradores, alguns deles economistas, dissecaram a séria crise enfrentada pela economia do mundo capitalista e o seu impacto na classe trabalhadora. Outros atacaram as guerras agressivas do imperialismo norte-americano e as classes dirigentes europeias que se lhe juntaram nessa aventura no Iraque e no Afeganistão, ou que apoiaram o regime de Israel na Palestina.

Mas o tema central da conferência, era como promover uma revolução socialista que vença a miséria, que esmaga a maioria da humanidade, por um sistema imperialista globalizado em crise. Também, como vencer o recuo da ideologia socialista que se seguiu à perda material do movimento dos trabalhadores da União Soviética e dos países socialistas da Europa Oriental.

Vieram oradores da Índia, Egipto e Líbano. A maioria veio de Portugal, de França e de outros países de língua latina da Europa, da América Latina, incluindo o México, Cuba, Venezuela, Bolívia, Argentina e Brasil e um dos Estados Unidos. Os oradores da América Latina reflectiram tanto as oportunidades que surgem com a eleição de presidentes progressistas, especialmente na Venezuela, Bolívia e Equador, como os desafios enfrentados pelos movimentos revolucionários nesses países.

Marcos Domich, editor e secretário internacional do Partido Comunista da Bolívia avisou sobre a ameaça da contra-revolução no seu país: «as classes dominantes e os donos de propriedade nunca abandonam o seu poder e privilégios sem luta».

Isabel Monal, editora do jornal cubano Marx Ahora sublinhou a importância vital do surgir da liderança indígena de muitas lutas na América Latina, indicando Evo Morales na Bolívia.

Cuba tem um lugar especial nos corações e espíritos dos participantes, como foi demonstrado na declaração final da conferência: Pedir um fim para os bloqueios impostos a Cuba pelos Estados Unidos e saudar o povo cubano pelo seu exemplo de resistência heróica e vitoriosa ao imperialismo…

A editora ambiental libanêsa Leila Ghanem discutiu o papel dos movimentos islamitas Hezbola e Hamas no combate ao imperialismo e ao sionismo no Líbano e na Palestina. Esta explicação era necessária para promover a solidariedade para com estas lutas entre os movimentos progressistas na Europa e na América do Norte.

Angeles Maestro de Espanha expôs o horror que a globalização imperialista inflige em países como a Nigéria, forçando a uma migração tão mortal como a «passagem média» do mercado de escravos. Um em cada três imigrantes afoga-se na viagem perigosa para um futuro incerto na Europa.

Outros oradores expuseram a ameaça aos trabalhadores nos centros imperialistas. Estes trabalhadores enfrentam agora um ataque total aos seus salários, benefícios e modo de vida. Os partidos sociais-democratas que primeiro incentivaram benefícios impõem agora políticas pro-capitalistas e neoliberais.

Mesmo os trabalhadores portugueses, que são já os mais pobres da Europa, enfrentam um ataque semelhante aos seus salários e benefícios, governados pelo primeiro-ministro «socialista» José Sócrates. Os sindicatos, com o apoio do PCP, organizaram uma greve geral a 30 de Maio e convocaram uma manifestação nacional a 18 de Outubro num movimento de defesa heróica para tentar parar a ofensiva do «patrão».

A organização de conteúdo firme do grupo de o diario.info e a logística excelente organizada pelos militantes das cidades de Serpa, Beja e Vale de Vargo, no Alentejo fizeram com a que a conferência decorresse o melhor possível. O jornalista português Miguel Urbano Rodrigues, comunista, alma da organização da conferência, terminou a sua contribuição com este apelo à luta: passar agora da defensiva à ofensiva é uma exigência do nosso tempo, imposta pelas forças e partidos para quem a alternativa à barbárie imperialista é o socialismo»

Este texto foi publicado em Workers World.

* John Catalinoto é amigo e colaborador de odiario.info

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