A Corrupção governa e a cólera aumenta enquanto a insurreição generaliza o aumento das tropas

Crys Floyd    23.Ene.08    Outros autores

Devorando o Iraque

Num extraordinariamente breve espaço de tempo, as “convencionais reservas” da classe média política dos EUA adoptaram a ideia de que o aumento de tropas de George W. Bush para a guerra do Iraque durante 2007 foi um “êxito”. Esta muito duvidosa ideia – baseada apenas no facto de que a atroz taxa de assassinatos que o acto de agressão de Bush engendra nesse país diminuiu, de momento, até níveis carnificina que já anteriormente eram considerados catastróficos – utiliza-se agora como uma assunção básica no “debate” sobre a guerra do Iraque, especialmente entre os especialistas e fora do âmbito da campanha eleitoral.

Mas, no terreno, no Iraque, de onde algumas boas reportagens ainda conseguem abrir caminho rompendo a mordaça dos media corporativos, o quadro é muito diferente. O Iraque está sendo devorado vivo pela corrupção dos colaboracionistas da ocupação estado-unidense, pela implacável propagação das doenças e de extremas privações e pela incessante violência, incluindo os cada vez mais numerosos ataques aéreos que estão provocando grande número de baixas civis e que estão a ser efectuados por essas forças estado-unidenses “aumentadas”, e por causa, também, da “limpeza étnica” e outras brutais operações de terroristas e milícias sectárias que estão agora na lista da Administração Bush.

Essa continuada violência pode claramente apreciar-se no último relatório de IraqBodyCount.org, que estima que pelo menos 1100 civis iraquianos morreram assassinados em Novembro, em consequência de actos violentos relacionados com a guerra, incluindo pelo menos 75 civis directamente assassinados pelas forças estado-unidenses. Isto é o que “a nata” dos Estados Unidos denomina agora “êxito”. (E lembre-se, as estimativas de IraqBodyCount são sempre feitas por defeito; devem, mais correctamente, ser consideradas como cifras mínimas, não como totais).

Além disso, como informa o Guardian, a relativa diminuição da taxa de mortes parece ser em grande medida consequência de uma decisão dos principais opositores à ocupação estado-unidense – as milícias sunitas e o exército chiita do clérigo muçulmano Muqtada al-Sadr – de esperar pacientemente que termine a escalada, escalada que inclusive os seus mais entusiastas defensores admitem que não vai poder manter-se militarmente por muito mais tempo. Outro factor é desde logo a deriva da administração Bush de procurar subornar alguns grupos sunitas que já mataram grande número de soldados estado-unidenses, dando aos supostos anteriores insurgentes dinheiro, armas, uniformes e território para governar com mão de ferro.

A corrupção ferve por todo o governo iraquiano, uma imagem em espelho da putrefacção em casa dos amos do Iraque em Washington, que aparece bem reflectida numa história publicada no New York Times:
Homens desempregados chegam a pagar subornos de 500 dólares para poder entrar para a polícia. As famílias constroem ilegalmente casas em terrenos do governo, as garagens de lavagem de automóveis roubam água da rede pública e quase todo o governo compra ou vende tudo o que se pode encontrar no mercado negro.

Os medicamentos para tratamentos oncológicos (do Ministério da Saúde), umas quantas cápsulas, custam 80 dólares; o metro de cabo eléctrico (do Ministério da Electricidade) atinge os 200 dólares e inclusive os livros de texto do terceiro ciclo do Ensino (roubados do Ministério da Educação) têm de se comprar nas livrarias pelo triplo do valor que custavam nas escolas noutros tempos.
“Todo o mundo rouba o Estado”, diz Adel Adel al-Subihawi, um importante dirigente tribal chiita na cidade de Sadr, agarrando, com desgosto, a cabeça entre as mãos. “É como um grande banquete onde todos querem comer…”.

E a extensão do latrocínio é assombrosa. Alguns funcionários estado-unidenses calculam que uma terça parte do que destinam a contratos e subvenções iraquianos ou não aparece ou se rouba, e ainda que uma parte vai parar às milícias sunitas ou chiitas. Um alto funcionário iraquiano anti-corrupção calculava no Outono passado -antes de se demitir e fugir do país depois de 31 empregados da sua agência terem sido assassinados num período de três anos - que, desde 2004, 18 mil milhões de dólares do total entregue ao governo iraquiano havia sido perdido através de diversos sistemas de roubo.

A pilhagem colectiva mina a capacidade do Iraque para proporcionar serviços essenciais, peça chave para manter os recentes avanços em matéria de segurança, segundo os comandantes militares estado-unidenses. Também semeia uma desconfiança corrosiva na democracia e impede a reconciliação, com os grupos entrincheirados no governo dirigido por chiitas a resistir a levar a cabo reformas capazes de pôr limite a esse desbaratar do dinheiro.

Na verdade, isto não é novo para ninguém que tenha seguido atentamente os factos nos últimos anos. Nem tão pouco a corrupção resulta unicamente do latrocínio nativo; pelo menos 8 mil milhões de dólares ou mais de dinheiro iraquiano “desapareceu” quando estava sob controlo directo do vice-rei de Bush, Jerry Bremer. Essa avalanche de imoralidade vai parar a uma grande quantidade de cofres situados entre o Tigre e o Potomac.

Muitos apontaram também os primeiros planos da Administração Bush para converter o Iraque num parque temático da “doutrina de shock”, segundo a qual, a um povo conquistado se aplicam todos os princípios extremos do “fundamentalismo de livre mercado”. Grande parte desse plano ficou pelo caminho (ainda que uma boa parte dele tenha sido imposta sub-repticiamente ao Iraque mediante a incorporação forçada de muitos dos arbitrários decretos do conquistador imperial na nova Constituição iraquiana elaborada em Washington). Mas se o Iraque não cheou a converter-se completamente na atracção de feira de Milton Friedman a que os invasores tencionavam reduzi-lo, tornou-se de facto na imensa encarnação – o DNI - da verdadeira essência do regime de Bush: uma cleptocracia violenta e sem lei.

Permitam-me ainda que esclareça outro aspecto, de forma muito mais nítida que o fez o Times: a massiva corrupção que se regista no Iraque está sendo perpetrada quase inteiramente por agentes e aliados do governo apoiado pelos Estados Unidos. Esta corrupção literalmente assassina é apoiada e protegida por todo o poder do exército estado-unidense, como também o são as torturas infligidas rotineiramente a dezenas de milhar de iraquianos que o governo mantém prisioneiros. (Diga-se ainda que as próprias forças estado-unidenses mantêm cerca de 25 mil iraquianos presos em vários campos de concentração por todo o país).

E como sempre neste tipo de situações, as atrocidades dos poderosos abatem-se sobre os corpos dos mais vulneráveis. Como informa o Observer (10), a cólera estende-se já por Bagdad, em consequência da devastação pela guerra do sistema de águas residuais, que os ocupantes e os seus sátrapas não se preocuparam em reconstruir em mais de quatro anos – devido parcialmente à violência engendrada pela invasão e pela ocupação e já mencionada corrupção galopante de ocupantes e sátrapas.

Bagdad confronta-se com uma ‘catástrofe’ devido ao aumento da cólera para mais de 100 casos nas últimas três semanas, confirmando os temores de que apareça uma epidemia, perante os escassos serviços sanitários e a próxima estação das chuvas.
Ao aproximar-se a estação chuvosa no Iraque, as suas velhas canalizações e sistemas de tratamento de água, muitos deles danificados ou destruídos por mais de quatro anos de guerra, pressupõem uma nova ameaça para uma população farta de crise. Claire Hajaj, porta-voz da UNICEF, disse: “As canalizações de água e esgotos estão em situação crítica. A contaminação das canalizações pelas águas residuais é talvez o maior perigo para a saúde pública e ambiental com que se confrontam os iraquianos, especialmente as crianças. As enfermidades diarreicas propagadas pela água consumida matam e adoentam mais crianças iraquianas que qualquer outra causa, à excepção da pneumonia. Estimamos que só uma em cada três crianças iraquianas dispõe de água que pode ser consumida com segurança, sendo Bagdad e outras cidades do sul as mais afectadas.

As Nações Unidas dão notícia de 22 mortes por cólera este ano (2007), e 4569 casos confirmados pelos laboratórios… A cólera expandiu-se já por metade das 18 províncias do país, mas a maior preocupação está em Bagdad…

A cólera pode prevenir-se tratando a água potável com cloro e melhorando a higiene, mas há estimativas de que cerca de 70% dos iraquianos não pode aceder a água limpa. Muitos, ou são demasiado pobres ou estão demasiado aterrorizados para sair à rua a comprar água engarrafada, confiando em vez disso, na água da torneira, que procede com frequência de fontes contaminadas. As companhias responsáveis pela recolha do lixo e tratamento das águas residuais recusam entrar nas zonas mais violentas de Bagdad.

Voltemos a essa frase da porta-voz da UNICEF: “As enfermidades diarreicas propagadas pela água consumida matam e debilitam mais crianças iraquianas que qualquer outra causa, à excepção da pneumonia. Estimamos que só uma em cada três crianças iraquianas dispõe de água que pode ser consumida com segurança.” Aí estão as mortes de civis relacionadas com a guerra que não são incluídas na maioria das estimativas, que apenas têm em conta as vítimas directas da violência. Mas, da mesma forma que vimos com as sanções genocidas que converteram em vítimas durante anos os cidadãos mais pobres do Iraque, sanções apoiadas por esses iluminados homens de Estado democratas Clinton e Gore, e seus homólogos progressistas do Reino Unido Blair e Brow, os custos indirectos da “planeada dominação” podem ser tão mortíferas como as bombas de 500 libras de peso lançadas sobre bairros muito povoados.

E não tenham dúvidas: esta exibição de horror continua e continuará, não importa quem seja eleito como presidente (dos EU) no próximo ano. Todos os “importantes” e “sérios” candidatos de ambos os partidos se comprometeram a manter no futuro imediato no Iraque algum tipo de presença militar estado-unidense. Bush e o Primeiro Ministro iraquiano Nuri al-Maliki – com os seus cordelinhos de títere pintados recentemente de neón, aí estão resplandecendo para que todos os vejam - assinaram recentemente um infame tratado não-tratado que garante uma presença permanente –perdão, “duradoura”- da força militar estado-unidense no Iraque. O formidável Tom Engelhardt proporcionou valentemente os detalhes das bases mais importantes e permanentes – perdão, “duradouras”- que a Administração Bush está construindo por todo o país para fazer dessa ocupação algo de eterno.

É inconcebível que outros personagens parecidos como Hillary Clinton ou Barack Obama desmantelem simplesmente essas bases – incluindo a imensa força armada que servirá de embaixada estado-unidense em Bagdad - se um deles vier a ser presidente. Sería para ambos muito penoso mostrar como são “duros”, da mesma maneira que o jovem Bill Clinton pressionou para que se enviassem mísseis a Bagdad e mataram civis depois que uns quantos contrabandistas iraquianos torturados pelos kuwaitianos declararam que faziam parte de um inverossímil complot para matar George Bush I. Nem Hillary Clinton nem Obama se arriscariam nunca a assumir as responsabilidades pela muito autêntica – e merecida- humilhação que suporia desmantelar as bases. Em qualquer caso, em que outro local vão acantonar as forças militares que ambos propõem que continuem “proporcionando treino às forças iraquianas” e para ajudar a os iraquianos nas “operações de contra-terrorismo”, etc.? Sim, hoje podem insinuar ou mesmo prometer mudar as bases, do mesmo modo que Bush prometeu demolir a prisão de Abu Ghraib de Sadam. Mas, do mesmo modo que Bush, pensarão sem dúvida que as instalações servem muito bem os seus propósitos.

Assim, as crianças continuarão a morrer de cólera e diarreia, com falta dos medicamentos vitais que se vendem no mercado negro, ao estilo Harry Lime, e por causa do colapso geral das infra-estruturas necessárias para manter o mínimo mais básico de vida civilizada. Não é uma situação estranha? Uma guerra que o povo estado-unidense não quer, que o povo iraquiano não quer, que a imensa maioria das pessoas de todo o mundo condena e despreza e que, apesar disso, continua e continuará ano após ano. E porquê? Porque serve os interesses daqueles que têm o desejo – e o poder - de fazer com que continue: a “bi-partidista política externa do establishment estado-unidense”, juntamente com o seu compromisso de impor o domínio económico e político dos EUA no mundo. E não só a supremacia, se querem que lhes diga a verdade, um respeito conseguido livremente pelas realizações nacionais, mas sim o domínio indiscutível, uma hegemonia que não pode permitir rival algum e tenta castigar qualquer desobediência à vontade de Washington. Para mais informação, leiam-se os artigos de Arthur Silber “Dominion over the World”.

Então que farão afinal os nossos dirigentes, actuais e futuros, republicanos e democratas, para manter tudo isso? Qual é a imagem mais adequada para o máximo valor que encarnam e a que com maior assiduidade servem?
Uma criança que agoniza no meio dos próprios excrementos e sangue numa terra despedaçada por uma guerra criminosa.

Tradução de Carlos Coutinho

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