A crise entre Davos e o Egipto

Julio C. Gambina*    21.Feb.11    Colaboradores

Julio Gambina“Dívida, capitalismo e crise são três categorias para explicar a política do poder mundial, do percurso contemporâneo do capitalismo actual. A consigna do não pagamento da dívida toma novo significado para os povos do mundo, contra o regime do capital e a sua chantagem do endividamento, ontem contra o sul do mundo e hoje no norte.”

Mais de trinta chefes de Estado e de Governo, funcionários de 90 países e um conjunto de grandes empresários, assessores e influentes jornalistas e intelectuais do poder económico mundial, participaram no conclave do Fórum Económico Mundial, mais conhecido como Fórum de Davos, que desde 1971, regularmente, passa em revista a situação mundial e pretende fixar directrizes sobre as políticas a seguir.

Em simultâneo com o conclave do poder, milhares de manifestantes encheram de resistência as ruas de vários países do norte de África e do Médio Oriente, tornando evidente o sofrimento dos povos em consequência do funcionamento da ordem capitalista. A repressão e morte de dezenas de manifestantes é a resposta dos governos e o saldo até agora. Ainda que fora da ordem de trabalhos, a rebelião popular colou-se nas discussões do poder económico mundial.

Uns 2.500 participantes concentraram-se em Davos para discutir “As perspectivas comuns para a nova realidade”. Essa “nova realidade” era pensada como superação da crise, perante os dados do crescimento da economia estado-unidense (2,9% para 2010, depois dos -2,6 de 2009), mas no exacto momento da reunião estalou a rebelião popular em Tunes, Iémen e especialmente no Egipto, país paradigmático para o mundo capitalista, sobretudo para os Estados Unidos que o assistem com fundos de 1.500 milhões de dólares anuais. Por isso, adquiriu outra relevância, no conclave dos poderosos, a análise do aumento dos preços dos produtos básicos, e o tema da dívida soberana em alusão à continuidade da crise mundial.

O tema do aumento dos alimentos é a chave para pensar a revolta no Egipto, grande importador de alimentos, especialmente trigo. O Egipto é um importante comprador de trigo à Argentina. A escassez é o reverso da alta dos preços e se estes estimulam novas bolhas de especulação, em paralelo não devem surpreender os impactos regressivos sobre boa parte da população mundial. Não é surpresa a mobilização popular quando a fome se instala de forma generalizada. Fome e repressão por um lado, e por outro subida do ouro, das comodities, dos alimentos e dos bónus para refúgio de investidores interessados no lucro e não nos 1.020 milhões de esfomeados segundo a FAO.

A questão da dívida externa preocupa, especialmente quando os EUA acabam de superar os 14 biliões de dólares da sua dívida pública e privada, sendo a pública de 3,5 biliões de dólares, superando amplamente o problema historicamente concebido para os países do sul do mundo (em desenvolvimento), que em conjunto acumulam uma dívida pública de 1,4 biliões de dólares.

Um montante que representa 10% da dívida total dos EUA. O endividamento público estadounidense supera duas vezes e meia o dos países em desenvolvimento. Metade da dívida total dos EUA foi contraída nos últimos seis anos, três dos quais decorreram em situação de crise evidente.

Hoje, a dívida constitui um problema devido aos elevados níveis que se registam nos países capitalistas desenvolvidos. Só a França apresenta uma dívida pública de 1,2 biliões de dólares, quase similar à da totalidade do mundo em desenvolvimento. Enquanto na América Latina, a dívida total, pública e privada representa 22% do PIB, a da Grã-Bretanha representa 400%, a de Portugal 263%, a de Espanha 169%, a da Grécia 168%, a da Alemanha 148%, a dos Estados Unidos 100% e a da Irlanda 979%. Convenhamos que os principais credores desses países são os bancos transnacionais, que aceleradamente, como nos anos de 1980, ao tempo da crise da dívida latino-americana, estão gerando condições para transferir o custo da quebra para os trabalhadores e os povos desses países e do mundo. São estes os temas que preocuparam o poder económico em DAVOS.

Dívida, capitalismo e crise são três categorias para explicar a política do poder mundial, do percurso contemporâneo do capitalismo actual. A consigna do não pagamento da dívida toma novo significado para os povos do mundo, contra o regime do capital e a sua chantagem do endividamento, ontem contra o sul do mundo e hoje no norte. É parte de um programa a defender perante o movimento de capitais internacionais em paralelo com a rejeição de estratégias de liberalização (tratados de livre comércio, tratados bilaterais de investimentos, paraísos fiscais e outras formas de defesa dos investimentos estrangeiros), tal como a desmontagem da estrutura financeira comandada pelos organismos internacionais, especialmente o FMI e o Banco Mundial.

Faz falta uma nova arquitectura financeira e económica sustentada a partir do Sul, o que pressupõe discutir o padrão de câmbio mundial e acabar com a hegemonia do dólar e com as pretensas substituições do euro ou doutra qualquer moeda em função do capital e do regime de exploração.

A China na mira de Davos

Outro dos temas em que se concentrou a atenção na Suíça foi o conhecer de perto a realidade de países chamados emergentes, especialmente a China e a Índia, que apesar da crise, mantêm elevados níveis de crescimento e constituem destino principal dos investimentos capitalistas à escala global.

A situação chinesa foi explicada pela mais numerosa delegação do conclave, e centrou-se na política de modernização e oportunidades para os investimentos e para o mercado imobiliário chinês. A China é já o segundo PIB do mundo, que com os seus 5,5 biliões de dólares representa um terço do dos Estados Unidos e supera o Japão e a Alemanha no podium das quatro maiores economias do mundo.

Muitos ouviram as argumentações chinesas, ao mesmo tempo que pressionaram os participantes chineses para que a China flexibilize as suas políticas, especialmente as que têm a ver com as pressões do G7 para uma revalorização do Yuan, com vista a melhorar as balanças comerciais com a China das principais potências capitalistas em crise.

O papel do gigante asiático não se liga apenas com a economia mundial, pois ele também pesa crescentemente na cena política mundial. É um tema transcendente para o poder mundial, mas também para quem pense em termos alternativos, inclusive mais além do debate sobre o «modelo chinês», se socialista ou se em transição para o capitalismo, ou directamente capitalismo de Estado.

Não é menos importante a persistência da apropriação da renda fundiária, a propriedade estatal sobre os meios de produção e a planificação estatal, não apenas da economia. Trata-se de um tema estratégico na disputa do poder mundial.

A China é crescentemente importante para a Argentina, sendo já o seu segundo parceiro comercial depois do Brasil, e com um peso ascendente nos investimentos externos directos registados nos últimos anos.

Foi há pouco tornada pública a compra de 50% da carteira de acções da BRIDAS por parte de uma transnacional chinesa. Tratou-se de um investimento de 3100 milhões de dólares. São conhecidos diversos investimentos no nosso país: na exploração de gás na Terra do Fogo; em mineração nas províncias cuyanas e do Norte; na compra de terras para produção agrícola, especialmente soja, produto do qual a China é o principal comprador.

Vem a propósito a referência à China perante a recepção nestes dias no nosso país da Presidente do Brasil, a primeira visita ao exterior de Dilma Rousseff desde a sua chegada ao governo.

Nos últimos tempos, têm sido crescentes as relações entre o Brasil e a Argentina e são importantes as expectativas de acções conjuntas, inclusive entre ambos e a potência asiática, uma questão estratégica das relações internacionais num momento de crise da economia mundial e de disputa da ordem mundial.

Mas colocam-se algumas interrogações sobre estas relações.

O novo poder de países como a China e o Brasil, jogar-se-á na disputa de poder no interior do G20, com hegemonia plena dos países capitalistas desenvolvidos, especialmente dos Estados Unidos, apesar da crise? Pode pensar-se noutro tipo de integração, que privilegie a relação Sul-Sul? Que pode fazer a Argentina neste sentido com os seus dois parceiros económicos principais? Que leituras fazer 10 anos após a revolta argentina e no momento do levantamento egípcio? Saímos da crise, ou o crescimento das principais economias augura novos problemas para os países dependentes no capitalismo mundial?

A nossa hipótese lava-nos a assinalar as contradições da situação mundial, com persistência da crise e sinais concretos, especialmente de mobilizações populares (na Bolívia contra o aumento do combustível e no Egipto contra o regime de Mubarak e a assistência estadounidense) para pensar em termos de alternativas ao capitalismo. O socialismo volta a ser uma possibilidade para construir outras relações sociais.

Modestas expectativas da parte do poder económico

O Fórum de Davos tentou traçar o rumo político do capitalismo contemporâneo com alguma cautela, pois o próprio fundador e presidente do Fórum Económico Mundial (FEM), Klaus Schwab, afirmou que se abre «uma era de modéstia», quando anunciou uma pequena superação da crise, com baixos níveis de crescimento (uns 2,9%, segundo os EUA, para 2010).

Uma primeira interrogação é se é correcto falar de «nova era», quando ainda persiste a situação de crise da economia mundial, da qual o desemprego crescente continua a ser o efeito imediato e evidente que sofrem os sectores mais desprotegidos no capitalismo mundial. Nos Estados Unidos o desemprego não baixa para menos de 10% e em Espanha superou já os 20%. Sem considerar a agressão e ofensiva que se mantém sobre os recursos naturais, situação que agrava os perigos ambientais e afecta recursos estratégicos como a água e a terra.

A crise do «modelo produtivo e de desenvolvimento» subsiste e é grave para pensar em termos de «nova era». A revolta nos países árabes e no Médio Oriente dá conta de situações que nem sempre os analistas do poder económico consideram. Refiro-me à saturação dos povos pelas suas condições de vida, ainda que não sejam claras as alternativas económicas e políticas, gerando por isso um desafio para o pensamento e a prática pela emancipação.

O principal executivo do Fórum de Davos, Klaus Schwab, acrescenta que «Nesta nova realidade, somos nós, as vítimas colectivas, quem deve tornar o futuro mais seguro. E como nem os governos nem as empresas por si sós poderão superar a complexidade dos desafios globais, a fronteira entre economia e politica vai tornar-se ainda mais estreita».

É muito curioso como se incluem os responsáveis da crise entre as vítimas. Quem são os responsáveis das políticas que levaram à crise, senão o próprio sistema financeiro e económico internacional presente em Davos desde 1971? Quem pressionou e pressiona a liberalização da economia, senão os participantes habituais de Davos a partir das suas posições de poder?

Mais interessante ainda é a reflexão que alude ao vínculo entre economia e a política, especialmente para pensar na resposta a Davos que virá quando se reunir o contra FEM, o Fórum Social Mundial (FSM), cuja consigna por outro mundo possível se mantém como realidade e desafio. É o sinal proveniente de África e do Médio Oriente, ainda que não se conheça exactamente o rumo futuro de superação.

Aquele «que se vayan todos» reaparece no cenário político e económico global. O desafio está na construção de alternativas, que supõe novos caminhos para o pensamento e a acção emancipadora.

Novos modos e formas de produção e apropriação da natureza, donde o bom viver das comunidades andinas nos oferecem possibilidades para pensar em novos tempos, mas sobretudo, novas formas de pensar o agrupamento social com perfil e objectivo político para a emancipação e transformação social. As renovadas intenções de democratizar a economia e a sociedade venezuelana com mecanismos de poder popular, especialmente dos trabalhadores na gestão empresarial, são estímulos para pensar o novo tempo. O exemplo persistente do projecto revolucionário em Cuba é também referência, especialmente em tempos de renovação sustentada num grande debate e mobilização da população cubana.
A referência andina, com a Bolívia ou o Equador, como a referência à Venezuela e a Cuba são atinentes para discutir os limites de processos complexos, especialmente no sul da América, mas também noutros países da região, que formulam um discurso anti-neoliberal sem consubstanciar mudanças profundas na estrutura económico-social capitalista. O problema é o limite que se estabelece para a constituição de sujeitos para a emancipação. É um debate quotidiano na política dos nossos países e também parte essencial da discussão no movimento de movimentos, o FSM.

É possível ir mais além do real existente? Pode superar-se o possibilismo de que a realidade «é o que há», como único imaginário possível. A América Latina é um grande laboratório para pensar a este respeito, se se tiver como objectivo a procura dos povos em renovar e revolucionar as relações sociais, na economia e na política.

Notas:
[1] São dados do Departamento de Comércio dos EUA, consultados no sitio internet www.bea.gov/index.htm em 30-01-10
[2] Os dados sobre dívida externa foram recolhidos de Eric Toussaint. “Crise Global. Do Norte ao Sul do planeta: a dívida em todos os seus estados”. Apresentação para Conferência em Quito em 27 de Janeiro de 2011, na sede do Banco Central do Equador.
[3] Ampla informação sobre discursos e debates em: www.weforum.org/
[4] O Fórum Económico Mundial de Davos debate o novo cenário após a maior crise desde 1930. En www.ambito.com de 26 de Janeiro de 2011 e consultado em 30 de Janeiro de 2011 em: www.ambito.com/noticia.asp?id=565509
[5] Ib.

Buenos Aires, 30 de Janeiro de 2011

Este texto foi-nos enviado pelo autor

* Júlio Gambina, Professor de Economia Política na Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Rosario, é amigo e colaborador de odiario.info.

Tradução de Carlos Coutinho

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