A Cruzada Militar Global dos Estados Unidos (desde 1945 )

Prof. Eric Waddell*    28.Feb.07    Outros autores

Terminada que foi a Guerra Fria com a derrota da URSS, os EUA não precisam de aliados que, agora passam a objecto de cobiça pelo imperialismo norte-americano: “Temos 50 por cento da riqueza mundial mas apenas 6,3 por cento da sua população. (…) A nossa verdadeira tarefa no período que se aproxima, é estabelecer um padrão de relações que nos permita manter esta posição de disparidade. Devíamos deixar de falar em elevar os padrões de vida, direitos humanos e democratização. Não está longe o dia em que teremos de lidar com conceitos directos de poder”.

Os Estados Unidos atacaram, directa ou indirectamente cerca de 44 países em todo o mundo desde Agosto de 1945 e alguns de entre eles, muitas vezes. O objectivo confesso destas intervenções militares, foi obter “mudanças de regime”. Pretextos como os “direitos humanos” e a “democracia”, foram invariavelmente invocadas para justificar o que não passou de actos unilaterais e ilegais.

O objectivo dos Estados Unidos é mais o de proteger e reforçar os interesses nacionais do que criar um mundo melhor para toda a humanidade. É uma grande estratégia imperial” de dimensões globais concebida para garantir um acesso ilimitado e incondicional às fontes de energia e aos mercados. Mais do que estabelecer uma presença colonial directa, a estratégia preferida é criar estados satélites, o que requer constantes e frequentemente reiteradas intervenções em países por todo o planeta, a despeito do regime político de qualquer deles.

Os governos democraticamente eleitos encontram-se tão expostos como as ditaduras. Em anos recentes a tendência tem sido para o aumento de interferências deste tipo, dado ser cada vez menor o número de países capazes de aceitar o papel de aliados passivos. Para sermos mais precisos, os acontecimentos de 2003 sugerem que o número de aliados poderosos e incondicionais dos EUA se reduzem agora a três: a Grã Bretanha, a Austrália e Israel. A estratégia dos EUA caracteriza-se, sempre que possível, pela invasão e imposição de governos (títeres) amigos. A atenção fixa-se de preferência em países relativamente pequenos e fracos, já que a finalidade é alcançar uma vitória rápida.

Historicamente este processo de domínio do mundo pelos EUA, tem sido caracterizado por:

1. intervenção militar directa com bombas e mísseis nucleares ou convencionais,

2. intervenção militar directa com forças navais e terrestres,

3. intervenção militar indirecta através de operações de comandos, e

4. a ameaça do recurso às armas nucleares.

Grosso modo, três fases históricas podem ser assim identificadas:

- 1945 – 1949: A luta entre os EUA e a União Soviética pelo domínio da Europa que termina com a estabilização das fronteiras entre os dois blocos e a criação da NATO;

- 1950 – 1989: A Guerra Fria propriamente dita e, no seu contexto, a emergência do grupo dos países não alinhados;

- 1990 em diante: O após Guerra Fria

O primeiro período caracterizou-se por um grau significativo de intervenção militar dos EUA na Europa, o segundo pela consigna de encurralar o bloco Comunista dentro das suas fronteiras e evitar a emergência de regimes pró-comunistas em qualquer parte do mundo, e o terceiro incide na obtenção do controle sobre as antigas repúblicas soviéticas. O Médio Oriente, a Ásia do Sudoeste e a América Central/Caribe surgem com zonas regionais preocupantes ao longo de todo o período posterior à II Guerra Mundial.

A defesa e promoção do inegociável “American way of life” através de intervenções militares globais, tomou forma nos meses finais da II Guerra Mundial e saiu muito cara a boa parte do resto da população mundial. Se bem que a Alemanha tenha capitulado em Maio de 1945 e as Nações Unidas tenham sido criadas no mês seguinte, os EUA optaram contudo pelo uso de armas nucleares para porem o Japão de joelhos. O lançamento de duas bombas atómicas respectivamente em Hiroshima e Nagasaki em Agosto desse ano, teve como resultado cerca de 150.000 mortos imediatos e dezenas de milhares de feridos. Semelhante terrorismo nuclear foi imediatamente denunciado pela comunidade científica internacional e mais nenhum outro país recorreu ao uso de semelhantes armas de destruição massiva. Contudo os EUA brandiram regularmente o recurso a elas enquanto que sob o consulado de Bush elas têm sido reafirmadas como parte integrante do discurso nacional. Mas a história não termina com armas nucleares, já que os EUA têm também, durante o último meio século, usado armas químicas e biológicas na sua busca de domínio global com recurso ao Agente Laranja no Vietname e fungo azul, peste suína africana, etc… em Cuba. Todas estas armas de destruição massiva fazem parte integrante do arsenal do país.

Em semelhante contexto, o mapa das Intervenções militares dos EUA desde 1945, revela apenas uma parte da história. Enquanto a extensão global no país é pública, a escala da violência militar nunca é completamente revelada. Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas na operação de comando da CIA em 1967 na Indonésia e naquilo que foi, segundo o New York Times “um dos mais selvagens assassínios em massa da moderna história política”. Outras 100.000 pessoas foram assassinadas na Guatemala durante o golpe organizado pela CIA. E o mapa não menciona as intervenções em que os EUA fizeram o papel de apoiantes (casos de Ruanda e do Congo na década de 90), aparentemente distanciados do papel principal, ou aqueles em que armas dos EUA foram usadas por forças militares nacionais como em Timor Leste, onde, nas mãos dos militares indonésios, estes foram responsáveis pela morte de 200.000 pessoas desde 1967.

É interessante que, no que respeita ao negócio internacional de armas, foi o presidente Reagan quem anunciou em 1981 que “os EUA encaram a transferência de armas convencionais… como um elemento essencial da sua postura de defesa global e um componente indispensável da sua política externa.

O império dos EUA não conhece limites. O seu objectivo é o domínio político e militar do mundo. Sob o sistema de capitalismo global dos EUA, a procura de energia e de outros recursos vitais é ilimitada.

O “Mapa de Rota para o Império” não foi estabelecido pela administração Bush, como sugerem alguns críticos. Na verdade, pouco há de “novo” a respeito do “Projecto para um Novo Século Americano”. O que apenas acontece é que a retórica do após-guerra a respeito de direitos humanos e de desenvolvimento social e económico, é substituída pela preocupação primária com a supremacia global sustentada pela força militar. O projecto imperial foi esboçado logo a seguir à II Guerra Mundial. Fazia parte da “Doutrina Truman” formulada em 1948 por George Kennan, Director da Política e Planeamento no Departamento de Estado dos EUA:

“Temos 50 por cento da riqueza mundial mas apenas 6,3 por cento da sua população… Em semelhante situação não podemos deixar de ser objecto de inveja e ressentimento. A nossa verdadeira tarefa no período que se aproxima, é estabelecer um padrão de relações que nos permita manter esta posição de disparidade. Devíamos deixar de falar em elevar os padrões de vida, direitos humanos e democratização. Não está longe o dia em que teremos de lidar com conceitos directos de poder. Quanto menos espartilhados estivermos por slogans idealistas, melhor.”

Post-Scriptum em 2007

Em certo sentido, pouco mudou desde 2003. O próximo alvo de uma intervenção militar foi já claramente definido. É o Irão porque, de acordo com as mais recentes estatísticas oficiais sobre energia dos EUA, está em terceiro lugar mundial entre os países ricos em petróleo e é o que apresenta o maior progresso em reservas provadas e estimadas para o período de 2005-2006.

Contudo, num outro sentido, começa agora a emergir um novo retrato em que uns EUA, gastos pela guerra e cada vez mais vulneráveis, se estão a empenhar na criação de uma Fortaleza Norte Americana que engloba o vizinho do Norte. Uma vez mais a lógica é clara. O Canadá encontra-se agora em segundo lugar à frente do Irão e do Iraque, mas atrás da Arábia Saudita em termos de reservas petrolíferas, graças sobretudo às areias betuminosas de Alberta. Um governo minoritário em Otawa dominado por interesses regionais de Alberta está a conduzir conscientemente o Canadá para debaixo do manto dos interesses tanto energéticos como militares e estratégicos dos EUA. A agir assim, o país está a juntar-se às fileiras juntamente com o Reino Unido e a Austrália como aliado incondicional dos EUA. Se a ambição global se vier a tornar um esforço demasiado dispendioso e incerto, então a fortaleza Norte Americana irá tornar-se uma opção crescentemente atractiva, sobretudo quando o sócio menor é passivo e dócil.

*Eric Waddell é Professor de Geografia na Laval University e Director associado do Centro para a Pesquisa sobre Globalização.

Tradução de Luís Nogueira

Original em Global Research a 11 de Fevereiro de 2007

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