A declaração

Correia da Fonseca    05.May.12    Colaboradores

A ministra da Justiça declarou, para o país todo ouvir, que Portugal está em bancarrota. O primeiro-ministro sempre recusou sequer tal hipótese; o ministro das Finanças, obviamente o membro do governo mais qualificado em matéria de bancarrotas, insolvências, falências, incumprimentos, desgraças similares e correlativas, sempre garantiu que Portugal prosseguia sem enormes razões para temores o seu percurso confessadamente difícil. Quem irá esclarecer a questão, que deve ter deixado os «mercados» que vampirizam Portugal com juros usurários a esfregar as mãos?

1. Telespectador que já mereça a qualificação de veterano nesta prática diária de olhar o que o televisor lhe traz sabe muito bem que, quanto ao que poderia supor-se, a TV não é mensageira de grandes surpresas. No que se refere à chamada vida internacional, é sabido que através de tragédias ou de peripécias menores a prática da televisão portuguesa, e não apenas dela, bem pode conter-se numa síntese que até lembra outros tempos: «Tudo pelos Estados Unidos, nada contra os Estados Unidos». E do resto não será excessivo dizer que é paisagem. Quanto ao que se vai passando no nosso País, e para lá do que também sendo paisagem são formas diversas de adormecimento, não será de mais dizer que a televisão é boa servidora dos interesses e entendimentos dos que têm o projecto não excessivamente discreto, antes pelo contrário, de entregar Portugal a uma espécie de salazarismo retocado com pinceladas de alegada modernidade. E sem polícia política, instrumento obsoleto de condicionamento das gentes, substituído com vantagem por uma bateria de meios de manipulação social que não proíbem ninguém de pensar, antes induzindo milhões a pensarem como convém que pensem. É a ditadura das classes dominantes com anestesia geral. Tão eficaz que só começa a doer quando as cirurgias se tornam selváticas.

2. Temos, pois, que a televisão que nos é dada a consumir não é exactamente uma caixa de surpresas. Contudo, excepcionalmente, a surpresa pode nela ocorrer, e foi isso que aconteceu na passada sexta-feira. Era uma entrevista. A entrevistada era a dra. Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça de Portugal pela graça de Deus e pela decisão do dr. Pedro Passos Coelho, se não porventura pela vontade de alguém por ele, pois nestas coisas nunca se sabe bem como são ou como foram. A entrevista decorria como se poderia esperar, com a senhora ministra a usar aquele seu estilo habitual que muitas vezes excede o tom peremptório para se tornar arrogante, o que decerto não surpreendia ninguém pois nunca a senhora doutora se notabilizou pela exemplaridade em matéria de maneiras excelentes. Eis, porém, que a dado passo a senhora ministra produz uma informação inesperada: o País está em bancarrota! Era, então, sim, a surpresa. Sempre o senhor primeiro-ministro recusara sequer a hipótese de uma tão aterrorizante situação; sempre o senhor ministro das Finanças, obviamente o membro do governo mais qualificado em matéria de bancarrotas, insolvências, falências, incumprimentos, desgraças similares e correlativas, garantira que o Portugal prosseguia sem enormes razões para temores o seu percurso confessadamente difícil. E, de súbito, vinha a doutora Paula, dramática, lançar sobre o País aquela terrível revelação.

3. Com algum optimismo, poderia pensar-se que se estava perante um excesso verbal da senhora doutora, porventura arrastada pelo seu temperamento que há muito se adivinha difícil e talvez mesmo, quem sabe? desprovido de um adequado sistema de autotravagem. Que seria, enfim, de certo modo um lapso. Porém, em dias seguintes a TV mostrou-nos a senhora ministra, quando expressamente questionada sobre o que dissera, a confirmar a palavra dita. Tratava-se, pois, de uma declaração clara de bancarrota por parte de um membro do governo. Percebe-se, ainda que talvez só confusamente, as consequências de uma tal declaração para o futuro imediato do País, designadamente o jeitão que ela dá aos «mercados» que vampirizam Portugal com juros usurários naturalmente capazes de subirem em flecha perante a revelação da bancarrota. Não se percebe, porém, por que é que uma tal declaração não foi feita pelo senhor primeiro-ministro. É admissível que tenha sido exagerada, isto é, falsa? Mas até ao momento em que escrevo a senhora ministra não foi desmentida, como seria imperioso e urgente, nem demitida, como uma falsidade de tamanha gravidade imporia. Será que o PM, sem coragem, terá encarregado a dra. Paula de fazer essa revelação tremenda? É inacreditável. Poderá acontecer que nada mais se passe enquanto o País, tremendo de susto, espera uma palavra de eventual rectificação ou de explicação? É inaceitável. De qualquer modo, serão muitos, decerto, os que aguardam com impaciência, mas também com espanto, o próximo episódio desta espécie de breve telenovela de terror.

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