A Derrocada do “campo socialista”
Implosão ou terceira guerra mundial?

Doménico Losurdo*    02.Feb.09    Outros autores

Domenico Losurdo
Publicamos hoje mais um capítulo do livro Fuga da História? do filósofo e historiador italiano Doménico Losurdo, traduzido no Brasil pela Editora Revan.
Doménico Losurdo virá a Portugal a convite de odiario.info. fazer duas conferências, uma em Lisboa e outra em Coimbra, respectivamente a 26 e 27 de Fevereiro.

1. “Implosão’ um mito apologético do imperialismo

Reflitamos sobre o modo como o imperialismo norte-americano conseguiu engolir a Nicarágua. Submeteu-a ao bloqueio econômico e militar, ao controle e manipulação de seus serviços secretos, à colocação de minas nos portos, a uma guerra não declarada, mas sanguinolenta, sórdida e contrária ao direito internacional. Diante de tudo isto, o governo sandinista se viu obrigado a tomar medidas limitadas de defesa contra a agressão externa e a reação interna. E eis que a administração dos EUA apresenta-se como defensora dos direitos democráticos pisoteados pelo «totalitarismo» e desencadeia o poder de fogo de sua multimídia contra o governo sandinista, no âmbito de uma campanha que, se teve em primeiro plano a hierarquia católica, não deixou de arrastar algumas belas almas da «esquerda». A liberdade de manobra de Ortega diante da agressão foi progressivamente reduzida e anulada. Enquanto o estrangulamento econômico e a cruzada ideológica erodiam a base social de consenso do governo sandinista, as pressões militares e o terrorismo (alimentado por Washington) dos contras enfraqueciam a vontade e a capacidade de resistência. Resultado: eleições nas quais o imperialismo fez valer até o fundo seu super-poder financeiro e multimediático; sangrado e alquebrado, com o cutelo mais do que apontado para sua garganta, o povo nicaragüense decidiu «livremente» ceder a seus agressores. Não diversa é a tática ativada contra Cuba. Bem, convém agora colocar uma pergunta: a queda do regime sandinista é o resultado de uma «implosão»? Pode ser comparado a «implosão» ou «colapso» o desmoronamento, que há décadas o imperialismo norte-americano persegue, de Fidel Castro e do socialismo cubano?

Neste caso, imediatamente evidente é o caráter mistificador de categorias que pretendem apresentar como um processo meramente espontâneo e totalmente interno, uma derrota ou uma crise que não podem ser separadas da formidável pressão exercida em todos os níveis pelo imperialismo. Assim, a classificação de «implosão» não resulta mais persuasiva se, em vez de à Nicarágua e a Cuba, for aplicada à parábola do «campo socialista» como um todo. Já em 1947, no momento em que formulou a política de «contenção», seu teórico, George Kennan, enfatizou a necessidade de influenciar «os acontecimentos no interior da Rússia e do movimento comunista internacional», e não apenas através da «atividade de informação» dos serviços secretos, a qual, porém, como acentua o autorizado conselheiro da embaixada norte-americana em Moscou e do Governo dos EUA, não deveria ser negligenciada. Em termos mais gerais e mais ambiciosos, trata-se de «aumentar enormemente as tensões (strains) sob a qual a política soviética deve operar», de modo a «estimular tendências que devem ao final desembocar ou na ruptura ou no enfraquecimento do poder soviético». Aquela que comummente, com singular eufemismo, é chamada de «implosão», é aqui definida com precisão: uma «ruptura» (break-up), que, por ser tão pouco espontânea, pode ser prevista, programada e ativamente promovida com mais de quarenta anos de antecipação. No plano internacional, as relações de força econômicas, políticas e militares são tais que — prossegue ainda Kennan — permitirão ao Ocidente exercer algo semelhante a um «poder de vida e morte sobre o movimento comunista» e sobre a União Soviética [1].

2. Nas origens da guerra-fria

O desabamento do «campo socialista» se insere assim no interior de uma cruel prova de força. É a chamada guerra-fria, que abarca todo o planeta e se prolonga por décadas. No início dos anos 50, suas características foram assim explicadas pelo general norte-americano James Doolittle: «Não existem regras em tal jogo. Não têm mais validade as normas de comportamento humano até agora aceitáveis […] Devemos […] aprender a subverter, sabotar e destruir nossos inimigos com métodos mais inteligentes, mais sofisticados e mais eficazes do que aqueles que eles usam contra nós» [2].

A estas mesmas conclusões chega Eisenhower, que não por acaso passou do cargo de supremo comandante militar na Europa ao de presidente dos EUA. Estamos em presença de uma prova de força que não apenas é conduzida, de um lado e de outro, sem a exclusão de golpes (espionagem, subversão, golpes de Estado etc.), mas que em muitas ocasiões se transforma, em várias áreas do Globo, em uma guerra propriamente dita. É o que ocorre, por exemplo, na Coréia. Em janeiro de 1952, para desbloquear o impasse nas operações militares, Truman acalenta uma ideia radical, transcrita em seu diário: poder-se-ia lançar um ultimato à URSS e à China Popular, explicando antecipadamente que a desobediência «significa que Moscou, São Petersburgo, Mukden, Vladivostok, Pequim, Xangai, Port Arthur, Dairen, Odessa, Stalingrado e todas as instalações industrial na China ou na União Soviética serão eliminadas» (eliminated) [3]. Não se trata apenas de uma reflexão privada: durante a guerra da Coréia, em várias ocasiões, a ameaça da arma atômica foi brandida contra a República Popular da China; e a ameaça resulta tanto mais digna de crédito ante a lembrança, ainda viva e terrível, de Hiroshima e Nagasaki.

Não há dúvida de que, com a dissolução, ou melhor, com o break-up da URSS em 1991, a guerra-fria terminou. Mas quando começou? Ela já está claramente em curso quando ainda estava no auge o furor do segundo conflito mundial. Hiroshima e Nagasaki foram destruídas quando já estava claro que o Japão estava pronto para render-se; visando mais do que a um país já derrotado, o recurso à bomba atômica tinha como mira a URSS: é esta a conclusão à qual chegaram autorizados historiadores norte-americanos, com base em uma documentação incontestável. A nova terrível arma não pode ser experimentada a título demonstrativo, em uma zona deserta, mas deve ser repentinamente lançada sobre duas cidades, de modo a que os soviéticos compreendam imediatamente e completamente a realidade das relações de força e a determinação norte-americana de não recuar diante de nada. E, com efeito, Churchill já se declarava pronto, em caso de necessidade, a «eliminar todos os centros industriais russos», enquanto o secretário de Estado dos EUA, Stimson, acalenta por algum tempo a idéia de «obrigar a União Soviética a abandonar ou a modificar radicalmente todo o seu sistema de governo».

Verifica-se assim um paradoxo. A se oporem, ou a se mostrarem relutantes ante o projeto de bombardeio, estavam os chefes militares, sobretudo da marinha. «Bárbara» foi chamada a nova arma: atinge indiscriminadamente «mulheres e crianças», não é melhor do que as «armas bacteriológicas» e os «gases venenosos», vetados pela Convenção de Genebra. Além do mais, o Japão já estava «desfeito e pronto a se render». Estes chefes militares ignoravam que a arma atômica tinha em mira, na realidade, a União Soviética, o único país então em condições de opor-se ao projeto, explicitamente enunciado por Truman em uma reunião do gabinete, de 7 de setembro de 1945, de fazer dos EUA o «gendarme e xerife do mundo». A notícia da horrível destruição de Hiroshima e Nagasaki provocou inquietação e mesmo indignação na opinião pública norte-americana, e eis que, em 1947, Stimson intervém com um artigo alardeado totalitariamente por todos os meios de informação para difundir a lenda e a mentira segundo a qual as duas carnificinas indiscriminadas foram necessárias para salvar milhões de vidas humanas. Na realidade — citando sempre o historiador norte-americano — era preciso eliminar de qualquer modo a onda de críticas, a fim de habituar a opinião pública à idéia da absoluta normalidade do recurso à arma atômica (e novamente a URSS era advertida) [4].

No Japão se verifica um outro fato decisivo para compreender a guerra-fria. Em sua agressão contra a China, o exército imperial ficou manchado por crimes horríveis, utilizando não poucos prisioneiros como cobaias para a vivisseção e outros atrozes experimentos e testando armas bacteriológicas na população civil. Aos responsáveis e aos membros da famigerada unidade 731, a estes criminosos de guerra, os EUA garantiram a impunidade em troca da custódia de todos os dados recolhidos. No âmbito da guerra-fria que então se delineava, junto com as armas atômicas, foram colocadas também as bacteriológicas.

Vemos assim o início da guerra-fria entrelaçar-se com a fase final da Segunda Guerra Mundial. Na realidade, para perceber este entrelaçamento não é necessário esperar 1945. Esclarecedora é a declaração feita por Truman logo depois da agressão nazista contra a URSS. Naquele momento, os Estados Unidos não tinham ainda entrado formalmente na guerra, mas já estavam de fato alinhados ao lado da Grã-Bretanha. Compreende-se assim que o futuro presidente dos EUA se preocupasse em precisar não querer «em caso algum ver Hitier vitorioso». Porém, por outro lado não hesitou em declarar: «Se verificarmos que a Alemanha vence, devemos ajudar a Rússia, e se verificarmos que vence a Rússia, devemos ajudar a Alemanha. Deixemos portanto que eles se matem o mais possível». Não obstante a aliança de fato de seu país com a Grã-Bretanha, e, portanto, indiretamente, com a URSS, Truman exprime todo o seu interesse ou entusiasmo pela hemorragia do país que emergira da Revolução de Outubro. Naquele mesmo período, o Ministro britânico Lorde Brabazon exprime conceitos semelhantes aos de Truman: é verdade que é obrigado a pedir demissão, mas resta o fato que importantes círculos da Grã-Bretanha continuavam a considerar a União Soviética, com a qual estavam, entretanto, formalmente aliados, um inimigo mortal [5].

Tendo-se tornado vice-presidente em 1944 e presidente no ano seguinte, Truman se empenhou em realizar o programa enunciado no verão de 1941. É preciso acrescentar que o objetivo de enfraquecer (ou dessangrar) a URSS não parece ter sido estranho nem mesmo a Franklin Delano Roosevelt (o qual, não por acaso, durante um ano teve Trumán como vice). Quando se torna claro que a União Soviética, e não a Grã-Bretanha, emergiria, ao final da guerra, como a principal opositora de uma «Pax Americana» global, Roosevelt — observa um historiador alemão — mudou de modo radical sua estratégia militar: «A consequência de deixar que a União Soviética fizesse o esforço maior para a vitória sobre a Alemanha tornou-se evidente com a decisão de disponibilizar ao todo apenas 89 divisões em vez das 215 previstas pelo Victory Programm, deslocando o centro de gravidade do armamento norte-americano para a marinha e a aeronáutica, afim de construir uma potência naval e aérea superior» [6].

Talvez seja preciso retroceder ainda mais no tempo, e é significativo que André Fontaine, em sua história da guerra-fria, parta da Revolução de Outubro, que na realidade foi combatida com uma guerra-fria e quente. Se examinarmos o período que vai de outubro de 1917 a 1953 (ano da morte de Stalin), veremos que a Alemanha e as potências anglo-saxónicas alternaram-se ou empenharam-se em uma espécie de revezamento. À agressão da Alemanha de Guilherme II (até à paz de Brest-Litovsk) se seguiram as desencadeadas, primeiro pela Entente [7] e depois pela Alemanha hitleriana, e finalmente a «guerra-fria» propriamente dita, que já começara a se manifestar décadas antes, entrelaçando-se com os dois conflitos mundiais.

3. Uma mistura monal: a nova cara da guerra

Em relação à URSS e ao «campo socialista» foi acionada a mesma mistura de pressões econômicas, ideológicas e militares com as quais a Administração dos EUA conseguiu provocar a queda do governo sandinista e espera provocar a «ruptura» do sistema político-social cubano, a mesma mistura com qual eles operam contra países como o Iraque, o Irão, a Líbia, e, em perspectiva, a China.

Este modo novo e mais articulado e sofisticado de fazer a guerra foi sendo pouco a pouco elaborado no curso da longa prova de força disputada contra a sociedade nascida da Revolução de Outubro. Enviar soldados contra a Rússia soviética — sublinha Herbert Hoover, alto expoente da Administração norte-americana e futuro presidente dos EUA — significa expô-los à «infestação de ideias bolchevistas». Melhor utilizar o bloqueio econômico no enfrentamento do inimigo, e com a ameaça do bloqueio econômico para enfrentar os povos inclinados a deixarem-se seduzir por Moscou: o perigo da morte por inanição os fará tomar juízo. O primeiro-ministro francês, Georges Clemenceau, logo ficou fascinado com a proposta de Hoover: reconheceu que se tratava de «uma arma realmente eficaz» e que apresentava «maiores chances de sucesso do que a intervenção militar». Indignou-se, ao contrário, Gramsci, com a chantagem dos imperialistas: «Ou a bolsa ou a vida! Ou a ordem burguesa ou a fome» [8].

Uma outra arma foi usada a partir principalmente da guerra-fria propriamente dita. Já em novembro de 1945, o embaixador norte-americano em Moscou, Harriman, recomendou a abertura de uma frente ideológica e propagandística contra a URSS: é claro que se pode recorrer à difusão de jornais e revistas, mas «a palavra escrita» é «fundamentalmente insuficiente»; melhor recorrer a poderosas estações de rádio, capazes de transmitir em todas as diversas línguas faladas na União Soviética. E era repetidamente recomendado e celebrado o poder destas estações de rádio [9]. Uma nova arma está assim à disposição no gigantesco embate que se vai travando. O rádio, que servira ao regime nazista para consolidar sua base social de consenso, agora é chamado para desagregar a base social de consenso do regime soviético.

Junto com estas novas armas continuaram a agir de modo mediato ou imediato as armas propriamente ditas, O período de 1945-46 foi justamente definido como «uma terceira guerra mundial, apesar de ter características bastante particulares» [10]. Com efeito, é impróprio definir como «Fria» uma guerra iniciada, ou que vê sua última fase começar, com Hiroshima e Nagasaki. Trata-se de uma guerra que não apenas se transforma periodicamente em quente nas mais diversas regiões do mundo, mas que em determinados momentos corre o risco de se tornar tão quente a ponto de destruir, ou quase, o planeta. Mesmo no que diz respeito ao confronto direto entre os dois principais antagonistas, a frente mais evidente de imediato é a da batalha político-diplomática, econômica e de propaganda, mas nem por isso se deve perder de vista o terrível braço de ferro militar que, mesmo sem ter chegado ao combate direto e total, não ficou livre de consequências. Trata-se de uma prova de força agindo em profundidade sobre a economia e a política do país inimigo, sobre sua configuração como um todo; é uma prova de força que tem como objetivo, e consegue, como veremos, triturar as alianças, o «campo» do inimigo.

Neste ponto, a categoria «implosão» se revela um mito apologético do capitalismo e do imperialismo: celebra sua indiscutível superioridade com relação a um sistema social que, em Moscovo, como no Caribe ou na América Latina, rui ou entra em crise exclusivamente devido à sua insustentabilidade interna, à sua inferioridade intrínseca. A categoria de implosão ou colapso só cobre de louros os vencedores. É verdade que ela encontrou amplo acolhimento até na esquerda, entre os comunistas, até e principalmente entre aqueles que se posicionavam como ultra-comunistas e ultra-revolucionários; mas esta é apenas a contraprova de sua subalternidade ideológica e política.

Denunciar a categoria «implosão» não significa renunciar a um balanço impiedoso da história do «socialismo real» e do movimento comunista internacional. Ao contrário, um balanço se torna possível apenas a partir da tomada de consciência da realidade da «terceira guerra mundial». Por outro lado, para que este balanço impiedoso não seja de nenhum modo confundido com capitulação, é necessário ir até ao fundo na crítica à posição de subalternidade e de primitivismo religioso que fincou pé no movimento comunista a partir da derrota.

Notas:
[1] R. Hofstadter & B. K. Hofstadter. Great Issues in American History (1958). Vintage Books, New York, 1982, vol. III, pp. 418-419.
[2] S. E. Ambrose. Eisenbower. Soldierarici Presiden: (1983-84). Simon & Schuster, New York, 1991, p. 377.
[3] M. S. Sheny. In the Shaa’ow of War. 77w United States Since the 1930s. YaIe University Press, New Haven and London, 1995, p. 182.
[4] G.Alperovitz. Tbe Decision to Use the Atomic Bomb and the Architecture of an American Myth. Knopf, New York, 1995, pp. 316-330, 260-261, 252 e 460; per II programma di Truman, cf. H. Thomas, Armed Truce. The Beginnings of the Cold War 1945-46 (1986), Sceptre, London, 1988, p. 187.
[5] H. Thomas, ob. cit., p. 187.
[6] A. Hillgruber. La Distruzione deIl’Europa (1988), Bologna: II Mulino, 1991, pp. 350 e 352 nota.
[7] Termo francês pelo qual é conhecida a aliança estratégica entre a França e a Inglaterra a partir da 1 Guerra Mundial. (As notas assinaladas por letras foram elaboradas por João Quartirn de Moraes para a tradução brasileira.)
[8] Cf. D. Losurdo. Antonio Gramsci dal Liberalismo al ‘Comunismo critico”. Gambereiti, Roma, 1997, pp. 75-80.
[9]Thomas, 1988, p. 223.
[10] Hobsbawm, 1995, p. 268.

* Domenico Losurdo, filósofo e historiador, é Professor da Universidade de Urbino, Itália

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