A diferença entre a resposta dos EUA e da China ao COVID-19 é impressionante

Quando nos EUA o número de mortos por COVID-19 está prestes a ultrapassar os 200 mil, Trump voltou a repetir na ONU as mesmas irracionais acusações contra a China e as mesmas mentiras sobre a forma como vem gerindo a pandemia no seu país. Talvez engane ainda muita gente. Mas nada do que diga poderá alterar o desastre sanitário e económico em curso nos EUA.

No novo livro do repórter do Washington Post Bob Woodward, Rage, ele relata entrevistas sobre o coronavírus que fez em Fevereiro e Março com o presidente dos EUA, Donald Trump. Trump admitiu que o vírus era virulento, mas decidiu minimizar o seu perigo. “Queria sempre minimizá-lo”, disse Trump, “porque não quero criar pânico”. Apesar de meses de advertências das autoridades chinesas, Trump e o seu secretário de saúde Alex Azar falharam completamente em preparar-se para a pandemia global.

Os Estados Unidos continuam a ter o maior número total de casos de COVID-19. O governo continua a tropeçar à medida que aumenta o número de casos. Nenhum estado do país parece imune à propagação da doença.

Entretanto na China, desde que o vírus foi esmagado em Wuhan, o governo apenas teve que conter surtos localizados de pequena escala; no último mês, a China teve zero casos de COVID-19 transmitidos internamente. Martin Wolf escreveu no Financial Times em 31 de Março que a China foi bem-sucedida em “controlar a doença em Hubei e interromper a sua propagação através da China”. Nunca houve um surto pan-chinês. É mais correcto chamar-lhe surto de Hubei.

Tomar em conta a vida das pessoas

Enquanto Trump mentia aos seus próprios cidadãos sobre a doença, o presidente da China, Xi Jinping, disse que seu governo “colocaria as pessoas em primeiro lugar”. A China subordinou rapidamente as suas prioridades económicas à tarefa de salvar vidas.

Como consequência de uma abordagem baseada na ciência, o governo da China quebrou a cadeia de infecção muito rapidamente. No início de Setembro, este país de 1,4 milhares de milhões tinha 85.194 casos de COVID-19 e 4.634 mortes (a Índia, com uma população comparável, teve 4,8 milhões de casos e 80.026 mortes; a Índia está a perder mais vidas em cada semana do que o total de mortes na China).

Os Estados Unidos, por sua vez, sofreram 198.680 mortes e 6,7 milhões de casos. Em números absolutos, as mortes nos EUA são cerca de 43 vezes as da China e o número de casos é cerca de 79 vezes maior.

O governo dos EUA, ao contrário do governo da China, hesitou em criar um confinamento adequado e testar a população. É por isso que, em termos per capita, as mortes nos EUA são cerca de 186 vezes mais do que na China e os casos são cerca de 343 vezes mais.

A tentativa racista de Trump de atribuir a culpa à China é pura diversão. A China conteve o vírus. Os EUA falharam totalmente em fazê-lo. O enorme número de mortes nos EUA foi “Made in Washington”, não “Made in China”.

Tomar em conta a Economia

No primeiro trimestre de 2020, o produto interno bruto (PIB) chinês caiu 6,8% em comparação com o ano anterior. Devido à rápida eliminação da transmissão doméstica do vírus, a recuperação económica na China tem sido rápida. No segundo trimestre, o PIB da China aumentou 3,2 por cento em comparação com o mesmo período de 2019. O Fundo Monetário Internacional projecta que a China será a única grande economia a experimentar crescimento positivo.
Como recuperou tão rápidamente a economia da China? A resposta é clara: o carácter socialista da economia. Em Julho, o investimento estatal da China estava 3,8% acima do nível de um ano atrás, enquanto o investimento privado ainda estava 5,7% abaixo de 2019. A China usou o seu poderoso sector estatal para sair da recessão. Isso ilustra a macro-eficiência do sector estatal.

Em meados de Agosto, o jornal teórico do Partido Comunista da China Qiushi (Procurando a Verdade) publicou um discurso de Xi Jinping, em que disse: “A base da economia política da China só pode ser uma economia política marxista, e não ser baseada em outras teorias económicas.” Os princípios básicos disso são “pensamento de desenvolvimento centrado nas pessoas”. Foi esta a base da resposta do governo à pandemia e à economia no seu contexto.

Trump, entretanto, deixou muito claro que seu governo não conduziria nada que se aproximasse de um confinamento nacional; aparentemente a sua prioridade era antes proteger a economia do que as vidas norte-americanas. Já em Março, quando não havia sinal de que a pandemia pudesse ser controlada nos Estados Unidos, Trump anunciou: “A América estará novamente e em breve aberta para o negócio - muito em breve.”

Desastre nos Estados Unidos

Políticas ineficientes nos Estados Unidos resultaram em taxas de infecção por COVID-19 fora de controlo. Os protocolos básicos - máscaras, desinfectante para as mãos - não eram levados a sério. E o impacto na economia dos EUA foi catastrófico.

Os EUA deixaram claro que não enveredariam por nada que se aproximasse de uma abordagem centrada nas pessoas. Toda a ênfase de Trump foi em manter a economia aberta, em grande parte porque continua de opinião que sua vitória eleitoral virá através da carteira; o custo humano desta política é ignorado. Os EUA apenas tiveram meio confinamento, com pouca testagem e rastreamento de contactos.

O PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre caiu 9,5% em comparação com o ano anterior. Não há indicação de melhora significativa. O FMI estima que a contracção económica dos EUA será de cerca de 6,6 por cento no ano. O “risco à frente”, escreve o FMI, “é que uma grande parte da população dos EUA terá que enfrentar durante vários anos uma importante deterioração dos padrões de vida e dificuldades económicas significativas”. A disrupção terá implicações de longo prazo. Estes problemas são definidos com clareza pelo FMI: “impedindo a acumulação de capital humano, erodindo a participação da força de trabalho, ou contribuindo para a agitação social”. Isso é exactamente o oposto do cenário que se desenrola na China.

É como se vivêssemos em dois planetas. Num planeta, há indignação acreca da hipocrisia do que Trump disse a Woodward, e indignação acerca do colapso tanto do sistema de saúde como da economia - com um árduo caminho adiante para a reconstrução de ambos. No outro planeta, a cadeia de infecção foi quebrada, embora o governo chinês permaneça vigilante e esteja disposto a sacrificar o crescimento económico de curto prazo para salvar a vida dos seus cidadãos.
O ataque de Trump à China, as suas ameaças de separar os Estados Unidos da China, os seus ruídos racistas sobre o “vírus chinês” - tudo isso é uma fanfarronice planeada como parte de uma guerra de informação para deslegitimar a China. Entretanto, Xi Jinping concentrou-se na “dupla circulação”, que significa medidas domésticas para elevar os padrões de vida e eliminar a pobreza, e na Belt and Road Initiative; ambas diminuirão a dependência chinesa em relação aos Estados Unidos.

Dois planetas podem começar a separar-se, um movendo-se na direcção do futuro, o outro fora de controlo.

Este artigo foi produzido por Globetrotter, um projecto do Independent Media Institute.

Vijay Prashad é um historiador, editor e jornalista indiano. É redactor e correspondente chefe da Globetrotter, um projecto do Independent Media Institute. É editor-chefe da LeftWord Books e director do Tricontinental: Institute for Social Research. É membro sénior não residente do Instituto de Estudos Financeiros de Chongyang, Universidade Renmin da China. Escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations e The Poorer Nations. O seu livro mais recente é Washington Bullets, com uma introdução de Evo Morales Ayma.
John Ross é investigador sénior do Instituto de Estudos Financeiros de Chongyang, Universidade Renmin da China. Foi anteriormente director de política económica do prefeito de Londres.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2020/09/15/the-difference-between-the-u-s-and-chinas-response-to-covid-19-s-staggering/

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