A Economia Americana vai mirrar bastante (e deve)

David S. Mason    22.Mar.09    Outros autores

Crise FinanceiraMesmo os epígonos do sistema capitalista, como é o caso de David Mason, reconhecem a gravidade desta crise global e a incapacidade do sistema de a resolver, mas apostam na contracção da economia, o que terá como consequência inevitável o aumento exponencial do desemprego.

O plano para estimular a economia americana aprovado no Congresso procura regenerar o crescimento económico, a despesa e o consumo. Porém, quase de certeza está destinado a falhar e não pelas razões apontadas pelos partidários de ambos os lados da trincheira no Congresso. Apesar do estímulo, a economia vai continuar a contrair-se. É inevitável, é necessário e é até desejável. A principal tarefa do governo devia ser proteger os que são desalojados e empobrecem durante esta contracção e retracção.

A economia americana deve contrair-se porque aumentou demais em numerosos aspectos. Aumentou demais, dados os níveis americanos de produção e de exportações. Cresceu em grande medida com base no consumo e na dívida, não na produção. E cresceu demais para o resto do mundo, mesmo tendo em conta o tamanho e riqueza do país.

A economia americana é grande – cerca de 28% do PIB global. Porém, os EUA representam apenas 8% das exportações mundiais, 16% do valor acrescentado produzido e 5% da população mundial.

O principal contribuidor para o exagerado PIB americano é o consumo, onde os EUA são de facto os líderes. O consumo representa cerca de 72% do PIB norte-americano, o que ultrapassa os limites para qualquer grande economia da história moderna. Conforme estamos agora a aprender, este consumo cresceu à custa de uma montanha de dívida do consumidor e da habitação, que presentemente totaliza cerca de 13 biliões de dólares, aproximadamente o volume de toda a economia dos EUA. Esta situação é insustentável.

Além disso, muita da dívida americana é a outros países. Cerca de metade da dívida federal e a quarta parte da dívida de acções das empresas são detidas por estrangeiros. Conforme a ex-senadora Hillary Clinton notou em 2007, “16% da nossa economia está-nos alugada pelos bancos centrais de outros países.”

Estes enormes níveis de consumo constituem um dreno do planeta, dos seus recursos e da sua população. Os EUA têm apenas 1 em cada 20 pessoas do globo, mas consomem a quarta parte dos combustíveis fósseis mundiais, 29% dos “materiais” (incluindo minerais, metais e produtos sintéticos), 19% dos produtos florestais e 14% da água. Os EUA são também o maior contribuinte mundial para a poluição ambiental, as emissões de gases estufa (um quarto do total) e para o aquecimento global. Sendo nós 5% do total, deixamos uma pegada de carbono enorme.

Nos anos 70, o historiador de Yale Paul Kennedy escreveu em “Ascensão e Queda das Grandes Potências” que, futuramente, os EUA teriam que diminuir até atingirem a sua parte “natural” da riqueza e poder mundiais, estimada por ele na gama dos 16-18%, em vez dos 30-40% na altura averbados pelos EUA. Isto significaria um corte de metade na economia americana, assim como em muitos dos indicadores económicos mencionados acima. Consumo, dívida e empréstimos precisam todos de ser reduzidos mais ou menos nessa proporção, do mesmo modo que o consumo de petróleo e de energia.

Dada a enorme dimensão da economia e do consumo dos EUA e da dívida do consumidor e do governo, é difícil ver como o pacote de estímulo económico irá mudar as coisas. A economia tende a abrandar e é disso que precisa.

Esta contracção já começou. O PIB do país encolheu no último ano a uma taxa anual de 3,8%. Se continuar, será o maior decréscimo anual da economia americana desde 1946. Porém, será necessário uma redução muito maior para trazer a economia americana para um nível mais natural, equilibrado e sustentável. A contracção do PIB é natural que continue durante pelo menos vários anos. Isso não teria precedentes durante o período do pós-guerra, quando apenas uma vez (1974-75) a economia se contraiu dois anos seguidos.

Tal declínio poderia dar-se numa escala semelhante à dos anos 30. O principal problema então, como agora, é a redução do emprego e o consequente aumento da pobreza. É inútil deitar dinheiro na tentativa de fazer renascer o crescimento, o consumo e a dívida. Em vez disso, os governos, federal e estatais, deviam concentrar-se no alívio do sofrimento que essa contracção acarreta, aumentando os fundos de compensação do desemprego, da segurança social, da formação e da educação.

Muitas pessoas vão sofrer durante esta transição e têm que ser ajudadas. Para a maior parte das pessoas, no entanto, esta retracção económica significará apenas um apertar de cinto. O nosso nível de vida vai descer de uma maneira que a maioria de nós não experimentou anteriormente. Contudo, somos ainda um país rico altamente desenvolvido e vamos continuar a sê-lo. Uma vez que a economia dos EUA estabilize a uma dimensão mais natural, voltará a crescer. E desta vez, pode fazê-lo de forma não tão destrutiva para o planeta, para outros povos e para o nosso espírito.

Tradução: Jorge Vasconcelos

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