A Eminência Parda

Ney Nunes*    08.Oct.17    Outros autores

O governo golpista de Temer empenha-se num violento retrocesso político, económico e social, em ruptura com o passado recente. Mas esse facto não deve fazer esquecer elementos de continuidade que também existem em relação aos tempos de Lula e Dilma. O próprio Temer é um exemplo. Outro é Henrique Meirelles, actual ministro da Fazenda, homem de mão do capital financeiro.

O Brasil é governado por uma eminência parda chamada Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo Lula e actual ministro da Fazenda do governo Temer. Antes de assumir cargos públicos, ele fez carreira no mercado financeiro, ocupando cargos executivos e chegando à presidência do BankBoston. No governo ele é justamente o representante do sector financeiro, o mais forte, aquele que dá as cartas no capitalismo contemporâneo.

Sua presença no governo é determinante. Sem ele, Temer provavelmente já teria sido defenestrado. Os oligopólios económicos e o imperialismo contam com Meirelles para verem aplicada a política económica que retira os direitos trabalhistas e previdenciários dos trabalhadores brasileiros, privatize o que interessar ao mercado e reduza drasticamente os investimentos sociais. Todas essas medidas fazem parte do receituário neoliberal para aumentar os lucros das megaempresas diante da crise crónica do capitalismo.

Em meio à crise política que se arrasta com o envolvimento do presidente Temer e dos seus ministros em diversos escândalos de corrupção, o fiel da balança é Meirelles. Mesmo tendo sido presidente do conselho consultivo da J&F de Joesley Batista, entre 2012 e 2016, Meirelles não sofreu qualquer abalo quando seu ex-sócio detonou o presidente com as gravações das conversas mantidas na residência presidencial. Enquanto Temer, cada dia mais patético e desgastado, é refém da sua base política fisiológica no Congresso, nada parece afectar o poder e a influência do seu homem forte da economia.

Recordemos um episódio nebuloso ocorrido no governo Lula, o único que, de forma muito estranha, não foi objecto de qualquer investigação: a compra pelo Banco do Brasil de metade das acções do banco Votorantim, um banco praticamente falido e que durante anos deu enormes prejuízos ao BB. Esse negócio, altamente lucrativo para uma das famílias mais tradicionais da burguesia paulistana, foi chancelado por Lula e Meirelles, tendo como executor o ex-presidente do BB, Aldemir Bendine.

Apesar de a economia brasileira viver um período de estagnação, com o desemprego e o subemprego alcançando mais de vinte milhões de trabalhadores, serviços públicos essenciais em colapso, pequenas e médias empresas sucumbindo todos os dias, ainda assim o oligopólio mediático não se cansa de propagar que, sob a liderança do ministro da Fazenda, a economia está em franca recuperação. Os números são torcidos e distorcidos na tentativa de convencer os brasileiros de que o receituário neoliberal vai retirar o país da crise e nos levar a uma era de prosperidade.

Em repúblicas como a nossa, figuras como Henrique Meirelles são mais comuns do que parecem. Afinal, a democracia burguesa serve justamente para isso: dar a impressão de que a sociedade como um todo decide seus rumos políticos e económicos, quando, na verdade, são os donos do capital que, nas sombras, decidem e governam de acordo com seus próprios interesses.

*Membro do Comité Central do PCB

https://pcb.org.br/portal2/16455

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