A Era da Pós-Abundância

Michael T. Klare*    08.Ene.07    Colaboradores

Michael T. Klare
“A predição é sempre arriscada, e é inteiramente possível que um não antecipado evento como o 11 de Setembro ou a Segunda Guerra Mundial surja e redefina a época corrente. Mas tirando tal calamidade, o fim da abundância global e a resultante escalada pelo controlo dos recursos é certamente a mais marcante característica da emergente paisagem internacional”

Desde o colapso da União Soviética, analistas de política internacional têm lutado para encontrar um termo para caracterizar a época em que nós estamos. Apesar de “Era Pós-Guerra Fria” ser a expressão reinante, este rótulo soa agora datado e já não faz justiça às características particulares do período corrente. Outros falaram da “Era Pós-11 de Setembro”, como se os ataques às Torres Gémeas fossem momentos definidores para o mundo todo. Mas esta imagem já não tem o poder que já possuiu – mesmo nos Estados Unidos. Eu proponho outro termo que captura melhor as características definidoras do período corrente: a Era da Pós Abundância.

Se há uma coisa que a maior parte das pessoas do fim do Século XX partilhavam, era a percepção do aumento global da abundância em virtualmente todos os campos: energia, alimentação, habitação, produtos de consumo, moda, cultura de massas, etc. Sim, havia bolsas de pobreza em muitas áreas, mas a maioria das pessoas na maioria dos sítios pelo mundo fora estavam a ver uma subida do seu rendimento e um aumento de bens possuídos, juntamente com a energia para se moverem e alimentar os seus aparelhos.

Pelo menos algum estrato da população global vai continuar a ver um aumento da sua riqueza pessoal no século XXI, mas o sentido de abundância que caracterizou o século XX parece estar a desaparecer para a grande maioria de nós. Os dantes acessíveis luxos tal como férias no estrangeiro e o jantar fora tornar-se-ão incomportáveis, e mesmo necessidades básicas como energia, electricidade, água, e alimentos, vão presumivelmente tornar-se menos abundantes e mais caros. Esta austeridade global vai produzir grande dureza para os pobres e forçar até as famílias de classe média-baixa a escolher entre longas viagens de carro, restaurantes, ar-condicionado no verão e aquecimento no máximo no Inverno.

Menos fornecimento, Maior procura

Por detrás deste valor histórico nas fortunas globais está uma reviravolta fundamental entre o fornecimento dos recursos e a procura. Durante a maior parte do século XX, os stocks globais de matérias vitais como petróleo, gás natural, carvão, e minerais básicos expandiram-se à medida que gigantescas corporações multinacionais gastavam biliões de dólares na exploração de cada canto da Terra no intuito de localizar e explorar depósitos valiosos de materiais extraíveis. Isto permitiu aos consumidores de todo o mundo aumentarem o seu consumo de virtualmente tudo, contando com que mais ainda destas facilidades estariam disponíveis no próximo ano, e no ano a seguir ao próximo, e assim indefinidamente para o futuro.

Mas esta condição já não prevalece. Muitas das mais promissoras fontes de abastecimento mundiais foram localizadas e exploradas, e todos os biliões adicionais gastos pelas Multinacionais na exploração e descoberta estão a produzir cada vez piores resultados. Desde a década de 60, a mais frutífera década na descoberta mundial de poços de petróleo, tem havido um claro declínio na identificação de novos depósitos, de acordo com um estudo recente da U.S. Army Corps of Engineers. Ainda mais preocupante, o valor de petróleo descoberto caiu abaixo do valor de petróleo consumido na década de 80, e desde aí, caiu para aproximadamente metade do valor do consumo. Isto significa que estamos a confiar em depósitos descobertos nas décadas anteriores para matar a nossa sede insaciável de petróleo – um padrão que não pode continuar muito mais tempo antes de nós experimentarmos um irreversível e traumático declínio no fornecimento global de petróleo.

O mesmo é verdadeiro para outros recursos vitais, incluindo gás, urânio, cobre, e muitos minerais. Pode haver stocks adequados destes produtos nos mercados globais nos dias de hoje, mas as Multinacionais não estão a encontrar suficientes novos depósitos destes bens para que possam repor o que consumiram. Portanto, faltas futuras são inevitáveis.

Com a água é diferente, pois recebemos um fornecimento novo todos os anos através da evaporação dos oceanos e consequente precipitação na terra – mas mesmo este precioso recurso tornar-se há escasso nos anos vindouros devido ao aumento populacional, urbanização, industrialização, a sobre-exploração de jazidas subterrâneas, e aquecimento global (através da seca persistente e a acelerada evaporação de rios e lagos).

Esta contracção no abastecimento global de recursos vitais afectará as nossas vidas de muitas maneiras. A um nível pessoal, forçar-nos há a consumir menos – por exemplo, comprando carros mais pequenos e mais eficientes no consumo, tendo casas mais eficientes no consumo de energia. Teremos que fazer outras adaptações também: menos viagens de longa distância para a costa ou parques de diversões distantes; menos voos de longa distância; mais moderação nos termóstatos dos aquecimentos; e por aí fora. Estes cortes serão inconvenientes menores para alguns, mas significativamente duros para outros – especialmente os pobres, os idosos, e outros com baixos rendimentos.
Os agricultores passarão particularmente um mau bocado, há medida que o custo de tudo o que está associado com a agricultura moderna – óleo diesel, pesticidas, herbicidas, fertilizantes, suplementos alimentares – tornar-se-ão bastante mais dispendiosos.

Menos Bens, Mais Conflito

Ao nível nacional, podemos esperar uma mudança significativa na política internacional. Há medida que os fornecimentos de energia e outras necessidades básicas se tornarem escassos, os políticos estarão sobre uma enorme pressão para “resolver” o problema por todos os meios, incluindo o uso da força militar.

No caso da energia, isto pode levar a futuras guerras por causa do petróleo. Mesmo que o petróleo não tenha sido o único motivo da invasão do Iraque, os Estados Unidos tudo têm feito para manter uma posição na zona do Golfo Pérsico, muito rica em petróleo, e uma permanente presença militar no Iraque facilitará o apoderamento do petróleo iraniano e dos países vizinhos se uma decisão de o fazer alguma vez for tomada. O Departamento de Defesa está também reforçando a sua capacidade de “projectar” poder militar em zonas de petróleo de África e bacia do Mar Cáspio. Ninguém nos círculos oficiais vai admitir que “a guarda de zonas petrolíferas estrangeiras” é o último objectivo dos planos de guerra do Pentágono, mas vai-se tornando cada vez mais evidente que o aparelho militar americano está a ser reconfigurado para levar a efeito exactamente essa tarefa.

Nem são só os Estados Unidos os únicos a pensar nestes termos. A China também procura aumentar a sua capacidade de projectar poder em áreas produtoras de petróleo estrangeiras. E a Rússia, com um défice de energia, procura explorar a sua posição vantajosa de forma a conseguir concessões de nações menos privilegiadas.

A futura escassez de água é também provável causa de fricção e conflito internacionais. O Egipto, que vai buscar ao Rio Nilo toda a sua água, ameaçou atacar o Sudão e a Etiópia se eles prosseguirem com os seus planos de fazer barragens e desviarem alguma da sua água para desesperadamente necessitados esquemas de irrigação que sirvam o aumento rápido da sua população. Israel ameaçou também entrar em guerra com estados árabes vizinhos se eles forem para a frente com os planos de fazer barragens no Rio Yarmuk (um dos afluentes do Jordão) ou de outra forma prejudicarem o já muito apertado abastecimento de água de Israel. Tais ameaças – e possíveis aparecimentos de conflitos – são cada vez mais prováveis à medida que a procura de água aumente e o fornecimento global diminua.

A Gestão da Austeridade

O fim da abundância não é a mesma coisa que a completa escassez. Alguns bens, como petróleo, podem tornar-se realmente escassos nas últimas décadas do século XXI, mas não desaparecerão todos ao mesmo tempo. Aqueles que tiverem meios continuarão a poder comprar gasolina e ar-condicionado e outros produtos que em breve serão luxos. Mas o fim da abundância criará um novo ambiente internacional – uma nova gestalt, se quiserem – na qual as expectativas são mais baixas e as lutas pelo que resta mais intensas e mais violentas.

Diferenças ideológicas, políticas, e étnicas terão lugar neste novo ambiente, mas crescentemente serão fundidas ou subordinadas a pressões ditadas pelos recursos. A crescente tensão evidente nas relações Sino-Americanas, por exemplo, pode ser vista como a percepção de que os Estados Unidos e a China se estão a tornar mais amargos competidores na caça global a novas fontes de petróleo. De igual modo, o crescente esfriamento nas relações E.U.-Rússia, pode ser atribuído em parte à mão pesada que Moscovo faz do seu uso do monopólio do gás natural para pressionar países vizinhos como a Ucrânia e a Geórgia. Isto é exactamente como nós esperávamos que as relações internacionais evoluíssem numa Era Pós-Abundância

A predição é sempre arriscada, e é inteiramente possível que um não antecipado evento como o 11 de Setembro ou a Segunda Guerra Mundial surja e redefina a época corrente. Mas tirando tal calamidade, o fim da abundância global e a resultante escalada pelo controlo dos recursos é certamente a mais marcante característica da emergente paisagem internacional.

* Michael T. Klare é professor de estudos de paz e segurança mundial no Hampshire College, um colunista de política internacional, e autor de Blood and Oil: The dangers and Consequences of America’s Growing Dependence on Imported Petroleum (Metropolitan Books, 2004).

Tradução de Miguel Sá Marques

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