A Europa face à militarização do conflito EUA-Irão, em 18 pontos-chave

Nazanín Armanian    07.Jun.19    Outros autores

Falando de “Europa” a autora está no fundamental a referir-se à UE, cujas pretensões de autonomia face aos EUA são inexistentes, por muito que isso prejudique os interesses dos seus países. Mas o alerta é oportuno: a desencadear-se mais uma guerra no Médio Oriente, desta vez contra o Irão, a Europa sofreria duramente as suas consequências em todos os aspectos. Quanto aos EUA, seria mais uma guerra distante do seu território. Mas, ainda assim, mesmo nos EUA surgem vozes autorizadas alertando para os riscos das acções e dos projectos dos dementes da Casa Branca.

1. “Não houve aumento na ameaça proveniente das forças apoiados pelo Irão no Iraque e na Síria,” é assim que o comandante-geral do exército britânico da coligação anti ISIS, Chris Ghika, desmente o alarme lançado por John Bolton para justificar a movimentação militar dos EUA contra o Irão. “As suas declarações são contrárias às ameaças credíveis identificadas e disponíveis para os serviços de informações dos EUA e aliados sobre as forças apoiadas pelo Irão na região”, responde incomodado o Comando Central dos EUA. Não se tratará do mesmo tipo de “informações” em cujos relatórios se baseou o ainda não processado Toni Blair quando em 2002 jurava que “o Iraque poderia realizar um ataque com armas de destruição massiva em apenas 45 minutos”? Ninguém lhe perguntou: então porque é que os iraquianos não o fizeram, e ficaram sentados à espera de ser esmagados?

Os EUA passaram de ataques verbais e sanções económicas ao Irão a apertar o cerco militar com o fim de provocar uma guerra. A última venda de 8.000 milhões de dólares de armas à Arábia Saudita sob o pretexto de “emergência nacional” contra o Irão, o plano de envio de 120.000 soldados para se juntarem a outras dezenas de milhares instalados na área, e do escudo antimísseis Patriot e mais bombardeiros e mísseis, não se destina a uma guerra psicológica. A carta aberta de 76 generais reformados e embaixadores dos EUA a Trump sublinha que “a guerra contra o Irão, seja por escolha ou por erro de cálculo, produziria repercussões dramáticas sobre um Oriente Médio já desestabilizado e arrastaria os EUA para outro conflito armado com um imensa custo financeiro, humano e geopolítico ». Quem está interessado em substituir o perigo do ISIS pelo do Irão?

2. Intensifica-se o desacordo entre a Europa e os EUA sobre como conter Teerão, e os aliados passam a oponentes. O ministro dos Assunto Exteriores da Alemanha, Heiko Maas comunicou a Mike Pompeo que o seu país não quer uma guerra, alertando que o conflito no Irão é actualmente a maior ameaça para o mundo, enquanto a imprensa das elites converte em manchetes a guerra comercial entre EUA e China, como se fosse mais importante do que o perigo que corre a vida de dezenas de milhões de pessoas no Médio Oriente. Um erro, um incidente, até mesmo “os terroristas, podem provocar uma guerra entre os EUA e o Irão”, exorta Maas. A Arábia Saudita (que esta semana estabeleceu o serviço militar obrigatório) e John Bolton, sem apresentar qualquer prova, acusam Teerão de “sabotagem” em 14 de Maio contra dois petroleiros sauditas nas águas dos Emirados Árabes: é interessante semelhança com o incidente de “falsa bandeira” no Golfo do Tonquim que justificou a invasão norte-americana do Vietname do Norte, provocando a morte de dois milhões de vietnamitas e de 50.000 norte-americanos. A Espanha retirou sua fragata Méndez Núñez da zona, para o caso de…

3. França, Alemanha e Grã-Bretanha (E3) criticaram a retirada de Trump do acordo nuclear com o Irão, chamado Plano de Acção Integral Conjunto (PAIC), e a imposição de duras sanções sobre a economia desta nação, o seu petróleo e o seu sistema financeiro. Com ano e meio de atraso o E3 criou o Instrumento de Apoio às Trocas Comerciais (INSTEX) para contornar as sanções secundárias dos EUA contra as empresas que trabalham com o Irão. Bruxelas, após a assinatura do PAIC em 2015 esperava realizar “comércio legítimo com o Irão”, uma das principais reservas de hidrocarbonetos do mundo e um mercado de 80 milhões de euros de “consumidores de bom nível”. Mas falhou aos iranianos, incumprindo a sua parte do acordo. O INSTEX chega tarde: agora, a prioridade é arredar o monstro da guerra.

4. Washington e Bruxelas compartilham temores sobre o programa de mísseis do Irão e sua política na região, mas chocam quanto ao método de o conter: a receita de Bolton é “bombardear o Irão” e o da Europa é o “pau e a cenoura”. Exatamente quando, em Maio de 2017, Trump apelava ao mundo a que isolasse o Irão, Bruxelas felicitava o presidente Rohani pela sua reeleição.

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5. Pela sua dependência militar, económica e política dos EUA. A função das bases militares do Pentágono em solo europeu é a mesma das que possui no Japão, depois deste ter sido derrotado na Segunda Guerra Mundial, ou no Afeganistão e no Iraque depois do desmantelamento dos seus Estados.
6. Não se acredita que uma guerra com o Irão possa engolfar em chamas o Médio Oriente, a Ásia Central e o Golfo Pérsico, mas deve-se fazê-lo. O Parlamento Islâmico declarou terroristas as tropas dos EUA na região, em resposta à inclusão do exército da República Islâmica (RI) na lista terrorista da Casa Branca. Recordam-se de “Que morram comigo os filisteus!”? A resposta de ” máxima moderação” da Europa à “máxima pressão” de Trump em relação ao Irão soa a uma incompreensível e má poesia num campo de batalha. Deve saber que o estado de “nem guerra nem paz” significa guerra para a RI que vive a mais profunda crise económica (e de legitimidade) da sua história. A paciência não é uma das virtudes dos iranianos, que também não se conformam com ser humilhados, especialmente por indivíduos como Bolton.

7. Ao contrário da guerra contra o Iraque em 2003, na qual alguns líderes europeus se opuseram à agressão:

8. a) A Europa de hoje virou à direita: exibe as suas próprias ambições militaristas e ameaça Teerão (que cumpriu a sua parte do PAIC, de acordo com o relatório de 31 de Maio de 2019 da Agência de Energia Atómica), com duras sanções se decidir abandonar o acordo, mas não ousa dizer o mesmo a Trump, que quebrou o pacto de forma ilegal e injustificada.

9. b) Está mais fragmentada e, portanto, mais fraca do que então, dado que a RI não tomou devidamente em conta continuando durante este tempo a dar prioridade às suas relações com a Europa, negligenciando a disposição da China e outros países asiáticos em aliviar os efeitos das sanções.

10. Por não estar consciente das dimensões que pode atingir uma ruptura social no Irão (em parte devido às sanções), cujo impacto regional não seria menor do que o de uma guerra. A RI precisa de exportar os seus produtos para alimentar a população e de um investimento estrangeiro anual de 50.000 milhões de dólares para impulsionar sua economia e criar emprego. As exportações de petróleo iraniano caíram de 2,8 milhões de barris por dia em 2017 para os 700 de mil hoje. Em conformidade com o ditado persa “escolher entre comer 100 cebolas ou receber 100 chicotadas!”, a RI ao assinar o PAIC engoliu as cebolas, mas que agora tenha também que receber as chicotadas daria asas à facção ultra que desde o início, como Trump, se opunha a qualquer negociação, procurando guerra porque realmente pensa que a vai ganhar, tendo em conta que os custos humanos e materiais não entram nos seus cálculos de “martírio por Alá.”

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6. A escalada militar acontece nas proximidades da Europa, não dos EUA. Uma nova “crise de refugiados” seria o menor dos seus problemas: a Turquia também pode ser desestabilizada.

7. Os primeiros confrontos entre os EUA e o Irão acontecerão no Iraque e no Golfo Pérsico, afectando o fornecimento de gás e petróleo destinado à Europa. O preço do barril poderá chegar aos 100 euros.

8. É mais do que provável que não receba nada como “despojos de guerra”. “Podemos dizer que um encorajado e expansionista Irão é o único vencedor” da guerra contra o Iraque, afirma o estudo dirigido pelo ex-Chefe de Estado-Maior General Ray Odierno para o Exército dos EUA. E se nenhum dos 45 países invasores ganhou aquela maldita guerra, apenas a RI (talvez pelo erro de Bush instalando em Bagdad uma teocracia xiita, ampliando a periferia de segurança do Irão), não há razão para supor que a Europa seria um dos beneficiários do “fim oficial do Irão”, nas palavras do “madman” da Casa Branca.

9. Perderá outra das suas fontes de energia potenciais, será forçada pelos EUA a comprar o seu gás e petróleo, e ficará mais dependente do Tio Sam, que por isso mesmo expulsou a Rússia, o Irão, a Venezuela do mercado impondo sanções ao compradores

10. Também não lhe interessa que os Estados Unidos consigam “tornar Israel maior” - o principal objectivo desta guerra -, em detrimento do resto das nações da região, e dos seus próprios interesses.

11. Não é de todo claro que a Europa tenha um lugar privilegiado na reconfiguração do mapa do Médio Oriente à medida dos interesses estratégicos dos Estados Unidos, através da destruição dos grandes Estados e sua redução em “falhados” ou mini Estados controláveis, que é o objectivo do projecto do Novo Médio Oriente dos NeoCon. Se Trump realmente quisesse um acordo melhorado com o Irã, teria proposto um anexo ao PAIC.

Que pode a Europa fazer?

12. Juntamente com a China, a Rússia e a Índia, encabeçar uma iniciativa económica (comprar produtos iranianos) e outra política, - como uma Conferência de Paz -, impedindo uma crise internacional. Que um certo Trump seja o presidente dos EUA facilita essa tarefa. O próprio PAIC mostra que o multilateralismo pode desactivar a prepotência de Washington.

13. Que o Banco Europeu de Investimento disponibilize financiamento para as empresas europeias que decidam investir no Irão.

14. Utilizar mecanismos legais para bloquear as sanções secundárias dos EUA. Na década de 1990, quando Washington impôs sanções contra Cuba, Líbia e Irão, a Europa introduziu um regulamento de bloqueio para as desativar e recorreu à Organização Mundial do Comércio (também o fez em 2018 pela a imposição de tarifas norte-americanas a alguns produtos europeus). E funcionou: o governo Clinton recuou.

15. Elaborar um projecto alternativo ao da extrema-direita tanto do Ocidente como do Médio Oriente, para aquela região, baseado no diálogo e na legalidade internacional.

16. Propor aos países da região a adesão ao Código de Conduta de Haia contra a Proliferação de Mísseis Balísticos (HAC).
17. Criar uma plataforma diplomática para garantir a paz nas águas do Golfo Pérsico.

18. Pôr fim às guerras no Iémen e Síria, sendo essas outras “peças” de um mesmo tabuleiro do conflito.

A Europa não está condenada a seguir a política de Trump-Bolton.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/5813/europa-frente-a-la-militarizacion-del-conflicto-eeuu-iran-en-18-claves/

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