A Europa também vira… na direcção da China

M K Bhadrakumar    25.Mar.15    Outros autores

Enquanto o imperialismo norte-americano se enreda numa guerra sem fim na Mesopotâmia, e na Eurásia persegue um objectivo que não tem o menor impacto directo para os interesses vitais estado-unidenses desenvolve-se, ao mesmo tempo e debaixo do seu nariz, uma reconfiguração fundamental da dramaturgia asiática. Pequim tirou o tapete à estratégia estado-unidense de conter a China, não só em termos intelectuais, mas também em termos políticos e diplomáticos.

A decisão da Grã-Bretanha de solicitar a sua admissão, como membro fundador, no Banco asiático para investimento em infra-estrutura (AIIB) apanhou Washington de surpresa.
O porta-voz do departamento de Estado admitiu que não houvera “praticamente nenhuma consulta com os EUA” e que se tratava “de uma decisão soberana do Reino Unido”. Nas semanas próximas será ainda mais difícil para os EUA reconciliar-se com a Austrália, que segue os passos da Grã-Bretanha, uma vez que o presidente Barak Obama interveio pessoalmente junto do primeiro-ministro Tony Abbott em Outubro último para o dissuadir de o fazer. Coreia do Sul e França estão também dispostas a aderir ao AIIB (The Guardian).
A Grã-Bretanha sustenta que esta decisão é tomada no interesse nacional e que as considerações subjacentes são puramente económicas. Mas também é certo que a Grã-Bretanha não pode deixar de ter a consciência de que o AIIB é uma bofetada no coração do sistema de Bretton Woods. Ou, o que é pior, que a China se encaminha praticamente para entrar no sistema de Bretton Woods na condição da divindade que irá presidir-lhe. Como o assinalou a agência Xinhua:
“A caminho de se converter na segunda economia do mundo, a China defende e trabalha na revisão do actual sistema mundial…a China não a tem intenção de deitar o tabuleiro pelos ares, mas de procurar ajudar a construir um tabuleiro mundial mais diversificado. A China deseja ver incluída a sua moeda no cabaz do FMI de forma proporcional ao actual peso do yuan no comércio internacional de bens e serviços. A China acolhe com felicitações a cooperação de cada parcela do mundo com o objectivo de alcançar uma prosperidade compartilhada baseada no interesse comum, mas prosseguirá em frente em qualquer caso enquanto acreditar que está no caminho correcto”.
Os países europeus crêem que o AIIB constitui um elemento fundamental na estratégia chinesa da Rota da Seda (conhecida como “iniciativas cintura e rota”). O ex-primeiro ministro francês Dominique de Villepin escreveu recentemente no diário Les Echos que a Rota da Seda chinesa oferecia à França e a outros países europeus oportunidades de conseguir acordos lucrativos no sector dos transportes e dos serviços urbanos: “É uma tarefa que deve mobilizar a União europeia e os seus Estados Membros, mas também as autoridades locais, as câmaras de comércio e as empresas, sem esquecer as universidades e os think tanks” sugeriu Villepin.
¿Falham os europeus na compreensão da geopolítica? Entendem-na na perfeição, seguramente. Para citar Villepin, em termos diplomáticos, a Rota da Seda é “uma visão política que abre um caminho aos países europeus para reatar o diálogo com os seus parceiros do continente asiático. Algo que pode também permitir-lhes definir quadros de discussão e projectos mais flexíveis entre Europa e Rússia, e especialmente para encontrar os fundos necessários para a sua estabilização na Ucrânia. Para captar este fio entre o leste e o oeste”.
A Rússia também se apercebeu da importância estratégica da Rota da Seda chinesa. Moscovo teria elaborado uma estratégia a um horizonte de dez anos com vista a que a Organização de Cooperação com Xangai a considere na cimeira de Ufa em Julho próximo. Cimeira da organização em que, segundo o actual secretário-geral da OCS (por outro lado um diplomata russo) “se proclamará uma mais ampla e mais profunda participação da OCS nos negócios mundiais”, combinando as estratégias económicas nacionais dos países membros da OCS com as da Rota da Seda da China.
Também é certo que os aliados europeus dos EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha estão encontrando as suas próprias rotas na direcção da China (e da Rússia). O volume de comércio da Grã-Bretanha com a China atingiu os 70.000 milhões de dólares e os investimentos chineses durante os últimos três anos superaram o montante total do investido até então.
Como eloquentemente disse Villepin no seu artigo, fartos da volatilidade dos mercados financeiros e das dificuldades económicas e colocados na defensiva pelas ameaças à sua segurança, a França e os seus parceiros europeus devem associar-se aos esforços chineses para reconstruir a Rota da Seda. Villepin reconheceu que a estratégia chinesa da Rota da Seda foi concebida como resposta aos interesses chineses porque oferece “um quadro flexível para responder aos maiores desafios do país”, incluindo a internacionalização da sua economia na Asia e o fortalecimento do papel da sua moeda no comércio mundial. E, à escala nacional, a procura de reequilíbrio no seu desenvolvimento para beneficiar as suas províncias e o consumo familiar.
A Europa, contudo, não a vê como um jogo de soma zero, porque a nova abordagem do desenvolvimento económico e o aumento dos contactos diplomáticos preencheria o vazio entre Asia e Europa criando um vínculo entre as suas nações sobre a base de planos de infra-estrutura, finanças e indústria das comunicações. “Trata-se de uma visão económica que supera a planificação ao estilo chinês e a planificação económica internacional. Num mundo financeiro volátil e instável é urgente encarar projectos de longo prazo através de múltiplos instrumentos multilaterais”, descreveu Villepin.
A Alemanha tem o mesmo ponto de vista que a Grã Bretanha e a França. A chanceler Angela Merkel disse ontem (15 de Março de 2015) quando da inauguração da Feira de Hannover, que a economia alemã vê a China não apenas como parceira comercial, a más importante fora da Europa, mas também como parceira no desenvolvimento de tecnologias complexas. A China é o país parceiro oficial do CeBIT 2015. Merkel felicitou a entrada das empresas chinesas no CeBIT 2015, afirmando que encarnam a inovação e que o papel da China como país parceiro na referida Feira é um elemento essencial da cooperação para a inovação entre China e Alemanha.
A administração Obama perde o comboio. ¿Como é possível que isto suceda a um presidente inteligente que se enreda numa guerra sem fim na Mesopotâmia e que na Eurásia persegue um objectivo que não tem o menor impacto directo para os interesses vitais estado-unidenses ao mesmo tempo que, debaixo do seu nariz, se desenvolve uma reconfiguração fundamental da dramaturgia asiática?
Pequim tirou o tapete à estratégia estado-unidense de conter a China, não só em termos intelectuais, mas também em termos políticos e diplomáticos. Pequim projecta divulgar dentro em pouco o seu plano de arranque das iniciativas da Cintura e da Rota da Seda, por ocasião do Fórum Boao, que se realizará o mais tardar este mês. Fontes de Pequim confirmaram à agência Xinhua que serão dados a conhecer “centenas de projectos de infra-estruturas”.

M.K. Bjadrakumar fez a carreira diplomática no Ministério de Relações Exteriores indiano. Entre os postos ocupados figuram URSS, Coreia do Norte, Sri Lanka, Alemanha, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

Fonte: http://www.elcorreo.eu.org/L-Europe-pivote-aussi-vers-la?lang=fr

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