A fogueira possível

Correia da Fonseca*    31.Oct.09    Colaboradores

Correia da Fonseca
José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998, “lembrou um facto cuja confirmação está ao alcance de qualquer um que saiba ler”…
Tanto bastou para que a Santa Madre Igreja desse o sinal e a reacção de todos os matizes, crente, agnóstica e ateia reagisse ao estímulo e o tentasse estornicar na fogueira ainda hoje possível e à mão: uma campanha de ódio político disfarçada de uma não menos retrógrada definição dos limites da liberdade de criação.

José Saramago escreveu um novo livro sobre tema bíblico. Foi um primeiro pecado: está em vigor uma lei não escrita que estabelece não serem os temas bíblicos abordáveis por qualquer um, sem o conveniente «nihil obstat» episcopal e as indispensáveis genuflexões.

Por cima dessa indesculpável transgressão, lançou o livro em sessão pública, porventura convencido de que poderia fazê-lo em paz, como qualquer outro autor, e atreveu-se então a falar. Falando, lembrou um facto cuja confirmação está ao alcance de qualquer um que saiba ler e dessa sabença faça uso diante do Antigo Testamento, o conjunto de textos que constituem a parte esmagadoramente maioritária da chamada Bíblia Sagrada. Foi como que um sinal: o constante ranger de dentes que como uma sinistra música de fundo desde há muito acompanha a presença de Saramago na literatura e na vida explodiu em insultos, em reeditadas calúnias, em imbecilidades várias.

Com sólidas razões, é claro. Saramago é comunista e reafirma-o de vez em quando, assim desapontando as muitas pressões que desde tempos quase imemoriais sobre ele se exercem para que deixe de o ser. Saramago recebeu o Prémio Nobel da Literatura que estava supostamente reservado para um outro sujeito que, depois de Outubro de 98, ficou limitado a candidatar-se ao Prémio Nobel da Inveja, faltando só que seja instituído o galardão que tanto merece.

Saramago continua vivo e activo, para desespero dos que aplicadamente lhe desejam o passamento, nisto se parecendo Saramago com o que durante vários anos se passou com Álvaro Cunhal. Saramago fita os interlocutores como de cima para baixo (o que já em tempos explicou por um antigo problema de visão, explicação essa pronta e convenientemente esquecida), o que confirmará a acusação de ser vaidoso e arrogante. Saramago não é obediente ovelha da Santa Madre Igreja de Roma, nem aliás de qualquer outra, não sendo também grande admirador da acção das diversas igrejas e religiões ao longo dos tempos.

Saramago nem sequer frequentou o Ensino Superior, o que adequadamente foi lembrado por um grandessíssimo senhor doutor em crónica recente onde o autor exibiu os melhores dos seus atributos. Saramago é, enfim, uma alma crivadinha de pecados, e por isso não será de mais que desde já lhe sejam infligidas punições. Como era inevitável, tudo isto teve, entre outros efeitos, o de ocupar tempos mais ou menos largos em diversos canais da televisão portuguesa.

Não tanto por implícito reconhecimento da grandeza de José Saramago, entenda-se, mas antes para que pudesse ser dada antena aos ódios e consequentes calúnias que o autor suscita, o que é perfeitamente entendível, já se vê, porque essa gente precisa de desabafar.

Um ou dois breves debates entre Saramago e representantes qualificados do pensamento católico tiveram outro recorte e pareciam promissores, mas nem o frente-a-frente com o padre Carreira das Neves, sábio em Teologia, mereceu plenamente o tempo dos telespectadores: o franciscano repetiu o argumento de que a Bíblia, e designadamente o Antigo Testamento, deve ter uma leitura interpretativa como ele recomenda, Saramago acha que deve ser lido o que lá está, e o confronto entre estas duas atitudes desencontradas não permitiu que do desencontro se saísse. De resto, parece que a grande linha argumentativa dos eminentes teóricos acerca desta questão se resume um pouco infantilmente a jogar ao esconde-esconde com a evidência.

Esperemos que por isso ganhem a Eternidade e nela sejam infinitamente felizes.

A televisão permitiu-nos ver e ouvir, por diversas vezes, José Saramago a congratular-se pelo facto de «já não haver fogueiras em S. Domingos», isto é, de já não estar na moda e nos poderes a Santa Inquisição que nos seus melhores tempos mandava estorricar em praça pública os que se atreviam a divergir das sagradas verdades ensinadas pela Santa Madre. É verdade. Mas Saramago não ignora decerto que há outras fogueiras que são, hoje, as fogueiras possíveis.

Nos últimos dias temos assistido a que uma delas arda intensamente na Comunicação Social com o evidente objectivo de queimar José Saramago. Não direi que, de caminho, também apressar que finalmente morra. Mas não sei se não poderia dizê-lo, pois bem sei que é muito o ódio que em torno dele crepita.

* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info

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