A França projecta um Líbano que faça contrapeso a Israel

Nazanín Armanian    31.Ago.20    Outros autores

A algo insólita pressa com que Macron se deslocou a Beirute após a catástrofe de 4 de Agosto é mais um indício da complexa situação no Médio Oriente. As velhas potências coloniais e as novas potências regionais todas em competição por influência, por um lugar no xadrez geoestratégico e na rapina das riquezas locais. A tragédia dos povos da região não irá acabar tão cedo.

Deve haver um lucro colossal sob as cinzas do Porto de Beirute para que o presidente francês se apressasse a correr ao Líbano apenas dois dias após a devastadora explosão em 4 de Agosto, e antes de qualquer outro líder estrangeiro, incluindo os “islâmicos” - turcos, sauditas e iranianos - que também têm muitos interesses neste pequeno grande país. Fugindo de Paris e dos seus indignados “coletes amarelos”, Emmanuel Macron, com as mangas arregaçadas dos operários, passeou pelo bairro cristão (não ia a outros!) para tomar um banho de multidão, e entre aplausos e agradecimentos dos presentes, espalhar esperança e prometer “melhorias” como se fosse o líder espiritual do Líbano. Depois, menosprezou publicamente os políticos locais, tratou-os como se fossem crianças do jardim de infância, colocando-os de frente para a parede, enquanto os ameaçava que se não se comportassem bem na execução das suas ordens regressaria a 1 de Setembro - centenário do protectorado francês sobre o Líbano - e os castigaria a valer.

As suas palavras foram tão eficazes que, de repente, milhares de libaneses dentro e na diáspora publicaram uma carta pedindo à França que fizesse do Líbano uma das suas províncias; o governo da nação demitiu-se; o Fundo Monetário Internacional concordou em conceder ao Líbano um empréstimo que havia solicitado anos atrás, e até mesmo o Hezbollah o recebeu de braços abertos aceitando participar num “governo nacional de salvação” dirigido por Paris.
Esta explosão “deveria ser o início de uma nova era”, disse o líder francês. Ok, mas novo em quê?

O colonialismo francês tem muita experiência em combinar terror e ameaças com dissuasão e tratamento requintado para obter o controlo de uma nação, de um território, e Macron provou ser o filho legítimo daquele império morto.

Depois de comandar a brutal destruição da Líbia, pela qual deveria ser julgado em Nuremberga, França, este membro da NATO desembarca no Líbano, com objectivos semelhantes.
O Líbano foi palco de massacres cometidos por Israel em Sabra e Chatila, conspirações como o chamado “Irão-Contra” do presidente Ronald Reagan ou atentados que expulsaram as tropas dos EUA do país, como os de 1983. Localizado ao longo do Mediterrâneo, O País dos Cedros faz fronteira com a Síria e Israel e é governado por uma estrutura de poder projectada precisamente pela França na qual uma teocracia de taifas, composta por 18 seitas religiosas, rege a vida dos habitantes, que são tratados como “fiéis” e não como “cidadãos”. Por que não reconhece Macron a responsabilidade do seu país na engenharia fracassada do seu antigo protectorado?

França e Médio Oriente

O Líbano é a única plataforma de onde a França pode ganhar influência no Médio Oriente, a principal reserva de hidrocarbonetos do planeta. No quadro de sua estratégia de impedir o domínio absoluto dos EUA (e de Israel) sobre a região e de impedir a entrada em grande escala da China e da Rússia na região, o que Paris fez foi:
• Opor-se à conspiração israelo-americana para acusar Saddam Hussein de ter ligações com a Al Qaeda em 2001, ou à guerra pelas “armas de destruição em massa” do Iraque em 2003, a fim de salvar seu enorme investimento naquele país. Ainda não conseguiu recuperar os contratos que assinou antes da invasão dos Estados Unidos.
• Defender o acordo nuclear com o Irão após a saída dos Estados Unidos do pacto, que obrigou ao cancelamento dos contratos que empresas francesas como Total, Citroen e Peugeot tinham assinado com o Irão em 2016.
• Lançar juntamente com a Alemanha - sem sucesso - a iniciativa Instex para que as empresas francesas pudessem fazer negócios com o Irão sem serem sancionadas pelos EUA.
• Criticar a transferência da capital de Israel para Jerusalém.
• Mesmo quando o ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing, em colaboração com os EUA, Alemanha e Reino Unido (o G4) abortou a revolução democrática do Irão em 1978, entregando o poder a um homem absolutamente reaccionário e obscurantista chamado Ayatollah Khomeini, não foi só para instalar um regime anticomunista nas fronteiras da União Soviética, mas também porque o seu hóspede na aldeia Neauphle-le-Chateau era profundamente antijudaico. Paris, tal como Berlim, sempre teve boas relações com a teocracia islâmica.
• Regressar ao mercado iraniano, aceder às suas imensas reservas de gás e petróleo, além de o considerar um elemento-chave na resolução de conflitos na região, apesar das pressões de Washington.

O plano de Macron para o Líbano

• Fortalecer a presença do Hezbollah, ou seja, do Irão, no cenário político libanês, como contrapeso tanto a Israel-EUA como a Arábia Saudita-Emirados e Turquia-Catar, países contra os quais luta também na Líbia. Não foi o Hezbollah quem expulsou Israel do Líbano em 2000? Este país alberga o maior número de xiitas árabes a seguir ao Iraque, dado que não pode ser ignorado por nenhuma potência colonial, se quiser um mínimo de estabilidade no seu domínio. No entanto, como a maioria dos 1,5 milhão de refugiados sírios no Líbano são sunitas, e muitos também são anti-Assad, o equilíbrio político no país mudou, aumentando a oposição aberta ao Hezbollah. Portanto, não será fácil para Macron estabelecer um equilíbrio entre as “taifas”.

• Tornar o exército libanês dependente das armas francesas, apesar do facto de que hoje o Líbano é, depois de Israel, o maior destinatário de assistência militar norte-americana per capita. Por isso, tem feito todo o possível para ressuscitar a ajuda prometida em 2013 pelo rei Abdullah da Arábia Saudita, falecido em 2015, no valor de 3 milhares de milhões de dólares destinados à compra de armamento francês para o exército libanês. Acontece que a elite sunita libanesa é leal a esse rei e seus partidários na Casa Real Saudita, e detesta o seu sucessor Salmán ben Abdelaziz, e sobretudo o seu filho Mohammad Bin Salman “O Estripador”, que sequestrou e torturou o primeiro-ministro Libanês numa noite de vidros quebrados em Riade. Em retaliação, Salman cancelou-a, privando de caminho a indústria francesa de armamentos de uma quantia nada desprezível. A França foi em 2019 o terceiro maior vendedor de armas do mundo, depois dos EUA e da Rússia, subindo duas posições desde 2015. Embora Paris e Riade tenham negociado para voltar ao contrato, e assim fortalecer o exército libanês e “compensar sua debilidade face ao Hezbollah“, a relutância de Israel (que quer todos os seus vizinhos armados apenas com paus e pedras) paralisou a compra. Neste esforço para beneficiar a indústria de armamentos francesa e tornar o país comprador politicamente dependente de Paris, Macron (tal como o resto dos membros do Conselho de Segurança, todos vendedores de armas), opôs-se ao pedido de Trump continuar com o embargo de armas ao Irão, apesar de Teerão ter cumprido a sua parte do acordo nuclear que estipula o levantamento do bloqueio nesta matéria.

• Participar no negócio milionário de reconstrução de Beirute, e também no desenvolvimento do campo de hidrocarbonetos no Mediterrâneo, cerca de 3,45 milhares de milhões de metros cúbicos de gás natural e 1,7 milhares de milhões de barris de petróleo em águas libanesas. Beirute já denunciou Tel Aviv à ONU pela extração ilegal do seu gás.
• Vigiar e neutralizar, já que o Líbano é desde há dias base das actividades expansionistas da Turquia.
• Controlar o destino dos palestinos: Paris também sabe que quem dominar o Líbano (e a Síria) poderá jogar com a carta palestina. Beirute é também o centro da guerra árabe-israelita, mas também da guerra inter-árabe, árabe-iraniana e israelo-iraniana.
• Vigiar o país mediterrâneo para que cumpra a sua função de “saco de areia”, como a Turquia e a Líbia, retendo a emigração dos refugiados para a Europa.
• Fazer com que o Líbano cumpra a sua função de “estado tampão”, estando no centro das tensões o conflito Israel-Palestina, Irão-Arábia Saudita e franco-norte-americano.
• Apresentar-se como “mediador de conflitos” na região, desbancando o Sr. Putin que reestabeleceu Saad al Hariri no governo do Líbano, depois do seu sequestro pelos sauditas em 2017, mas que também fracassou em convencer Trump a voltar ao acordo nuclear com Teerão. Na ausência de “líderes de estatura mundial”, o jovem francês deseja tentar a sua sorte num cenário em que abundam personagens como Trump.
• Devolver o poder a um dos homens de Riade, Saad al-Hariri, cidadão libanês-saudita. A França quer assumir os projectos de desenvolvimento das duas centrais nucleares na Arábia Saudita, antes que os russos se antecipem. Moscovo também negociou com Beirute a promoção de intercâmbios culturais, como a abertura de academias de língua russa e cooperação nos sectores militar e de energia.
• Instale uma base militar no Líbano. A França tem actualmente cerca de 900 soldados neste país, sob mandato da ONU.

E tudo para que o Líbano continue francófilo e francófono.
Macron fará o possível para salvar o Líbano de outra guerra lançada por Israel, que promete ser mais devastadora do que nunca. O facto de Tel Aviv preferir atacar o Partido de Deus em solo sírio mais do que no próprio Líbano oferece uma pequena oportunidade para Paris lançar o seu plano para Beirute. Na Síria, a estratégia de Obama funcionou: em vez de matar Bashar al-Assad, optou por não lhe tocar, prolongando a guerra com o fim de desgastar os inimigos e rivais de Israel-EUA, dividindo-os em “os inimigos e os defensores de Assad “, conseguindo assim que oito anos de guerra devorassem ​​milhares de milhões de dólares da Turquia, Arábia Saudita, Catar, Emirados, Irão e Rússia em benefício de Israel. O Hezbollah, além de perder centenas de combatentes e destacados comandantes, também perdeu o seu prestígio: passou de partido patriótico “libanês” a grupo que defende o país que ocupou o Líbano. Agora, a Síria alberga uma vintena de bases militares dos EUA e, além das milícias armadas patrocinadas por xeques árabes e aiatolas iranianos, há tropas turcas: Paris não conseguiu resgatar os curdos dos ataques de Erdogan a “Rojava” e ficou fora do jogo da Síria, pelo que se apega ao Líbano.

Líbano e Grande Israel

O expansionismo está nos genes do imperialismo. O ex-general Wesley Clark dizia que os EUA têm o plano de desmembrar 7 países: Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irão. “Faltam apenas o Líbano e o Irão! Apontámos em 2018 que o Líbano é já um estado falhado, ele apenas acelerou a sua marcha em direcção a uma perigosa incerteza.

O general Martin Dempsy e Israel anunciaram em 2015 a criação de um exército druso (um povo de dois milhões de membros repartidos entre Síria, Israel, Jordânia e Líbano), garantindo a guerra religiosa durante anos. O druso é uma cisão do ismaelismo xiita, batizado com o nome do seu fundador, o iraniano Ahmad Zuzani (século XII), e actualmente no Líbano é dirigido pelo curdo Walid Jumblatt do Partido Socialista.

O Líbano faz parte do projecto do Grande Israel, que também inclui terras palestinas e parte da Síria, e a USAID, a agência humanitária da CIA, está já a trabalhar no país, enquanto o Pentágono planeia potenciar o exército e seus militares, para desempenharem um papel na política. Aqui ninguém cederá do poder sem antes travar uma guerra brutal, e a França sabe-o, embora eu não saiba se Emmanuel Macron também sabe.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6620/francia-disena-un-libano-que-haga-de-contrapeso-a-israel/

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