A Fusão French-American

Rémy Herrera    27.Abr.18    Outros autores

A viagem de Macron aos EUA juntou duas almas gémeas que entre outras coisas partilham o ridículo e o reaccionarismo. Macron tentou fazer passar que procurava inflectir posições de Trump. Mas o que fez foi comprometer ainda mais a França com a máquina de guerra EUA/NATO, como sucedeu (e ao que parece com falhanços caricatos) no recente ataque à Síria. E em França as greves e lutas prosseguem, com grande destaque para a luta dos ferroviários.

Como se não bastasse a calamidade que se abateu sobre ele em 8 de Novembro de 2016 – com a eleição de Donald Trump para a presidência – o povo dos EUA ainda teve que aguentar a visita de Estado do Napoleão em miniatura: Macron I. «E da sua mulher Brigitte» como a imprensa cor-de-rosa gosta de chilrear. Esta última não diz se, entre o Goat Cheese Gateau e os Crème Fraîche Ice Creams do jantar elaborado pela First Lady Melania, os dois presidentes tiveram ocasião de conversar sobre os disparos falhados da tropa francesa na recente intervenção conjunta na Síria.
Como anedota: em 14 de Abril, algumas disfunções teriam impedido sets dos 16 mísseis «punitivos» franceses de serem lançados como tinha sido inicialmente previsto. Apenas uma das três fragatas da Marinha chegou a efectuar os seus disparos – tendo os outros deparado com bugs informáticos…A 2,8 milhões de euros cada ultra-sofisticado míssil (que equipa também os submarinos nucleares franceses) fica caro cada falhanço! Um dos cinco aviões de combate da Força Aérea destacados para esta operação não conseguiu senão lançar um de cada dois mísseis – tendo o outro de ser deixado cair ao mar… Mais 850 000 euros por água abaixo! Excelente montra comercial para os comerciantes de armas made in France! Os patrões estado-unidenses a quem o dinâmico dirigente da start-up francesa, Emanuel Macron, apertou a mão ficaram seguramente impressionados.
Macron não é homem de ficar amuado: desempenhou para os fotógrafos o papel de jardineiro da Casa Branca e plantou uma árvore no jardim do homem que, a 1 de Janeiro de 2017, arrancou pela raiz os acordos de Paris sobre o clima. Para «make our planet great again» (“tornar de novo grande o nosso planeta” [Macron gosta de se exprimir em inglês]? Os media franceses comprazem-se a dizer que Macron procura inflectir as posições de Trump. Parece que se passa sobretudo o contrário: enquanto visitava os monumentos de Washington D.C., Macron fazia aprovar na Assembleia Nacional francesa a lei «Asilo e imigração» restringindo consideravelmente os direitos fundamentais das pessoas estrangeiras em França. Comprometeu-se sobretudo junto do seu homólogo americano a aumentar a despesa militar e a participação da França na NATO. Emmanuel «Micron» - que, humildemente, se tinha comparado a Júpiter após a sua eleição no ano passado – não é apenas um eco de Trump: tornou-se a pequena mascote dos EUA.
E entretanto, em França…no próprio dia da chegada dos Macron ao outro lado do Atlântico, a greve dos ferroviários prosseguia; e, coincidi com a na Air France. A publicação em meados de Fevereiro de um relatório provocador sobre a «reforma» (ler: o desmantelamento) do transporte ferroviário, e depois o anúncio feito pelo governo da sua vontade de o concretizar, tinham de imediato provocado um alerta nos sindicatos ferroviários. O que é posto em causa – apesar dos mentirosos desmentidos da ministra dos Transportes -, é a manutenção do carácter realmente público da SNCF e do estatuto do seu pessoal. Mas lá onde os concorrentes privados assumam o controlo (evidentemente sobre as partes da rede mais rentáveis), os ferroviários transferidos para o privado verão o seu estatuto desvalorizado e os seus salários revistos segundo os interesses das novas direcções. Para além disso são de prever os encerramentos de linhas «não rentáveis», sobretudo nas zonas rurais.
A chantagem do governo é perversa; a sua arma é a retoma da dívida da SBCF por parte do Estado. Problema: esta dívida não resulta do estatuto «privilegiado» dos ferroviários (porque trabalhar de noite e nos dias de Natal e Ano Novo para receber 1 500 euros mensais como agulheiro ou trabalhador da manutenção seria de agora em diante um privilégio!). A dívida resulta, por um lado, da prioridade atribuída aos comboios de alta velocidade e, por outro lado, das encomendas forçadas que o Estado impôs à SNCF para salvar a Alstom do naufrágio – jarrão da indústria francesa que o próprio Macron, quando era ministro do Presidente Hollande, deixou desmantelar, sob o alto patrocínio do banco Rothschild, para vender uma parte (o ramo energia) à General Electric! E pouco depois uma outra (o ramo transportes) à Siemens alemã? É o desmantelamento organizado da indústria francesa, juntamente com o desmantelamento dos serviços públicos e da flexibilização do emprego! Eis porque estão em greve os ferroviários. Até Junho, e mais além se for necessário. E eis por que razão os apoiamos.

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