A guerra contra o Irão está em movimento

José Goulão    22.Jun.19    Outros autores

A ofensiva dos EUA prossegue em todo o lado, subservientemente acompanhada pelos seus vassalos. Os episódios contra o Irão integram uma estratégia de guerra híbrida, tão do agrado dos estrategos actuais do establishment e que está em andamento na Venezuela. Mas a estratégia actual integra também elementos já muito vistos: as acusações de um ataque iraniano a petroleiros reproduzem os “incidentes” do golfo de Tonquim, com barbas de 55 anos. Mas ainda há quem prefira ser enganado.

Segundo as mais fresquinhas informações vindas directamente das águas tépidas do Golfo de Omã, a marinha dos Estados Unidos descobriu fragmentos de minas que há uma semana terão danificado dois petroleiros que estavam de passagem pela região. E segundo as inscrições nelas registadas, agora sim não há dúvida de que o autor da maldade foi o Irão, há que castigá-lo. Razão tinham o presidente Trump e os seus guardas pretorianos Bolton e Pompeo, que juravam desde o primeiro momento ter pressentido as «impressões digitais» de Teerão no incidente.
Assim se definem hoje a guerra e a paz, os culpados e os inocentes, os juízes e os condenados em relações internacionais. Como o vídeo mal-amanhado apresentado pelo comando regional do Pentágono, e em cima do acontecimento, não convenceu ninguém da culpa do Irão – excepção feita ao Reino Unido, o mais aliado entre os aliados – eis que a incansável armada imperial, vasculhando cada polegada das águas do Médio Oriente, diz ter encontrado os despojos de uma verdade, agora sim, irrefutável. Mesmo que o proprietário japonês do navio acidentado tenha garantido que não houve quaisquer minas no casco, mas sim «um objecto voador», partindo daí para qualificar a teoria norte-americana como «falsa» e levando também o governo de Tóquio a afastar-se das maquinações bélicas do seu aliado de Washington.

União Europeia sem coragem política

Até os ministros dos Negócios Estrangeiros da sempre tão solícita União Europeia, dando sinais de desconcerto e de uma clamorosa falta de coragem política, optaram por pedir «provas independentes» susceptíveis de incriminar o Irão, como quem parte do princípio de que Teerão pode ter alguma coisa a ver com a encenação quando teria tudo a perder no caso de se dedicar a estas aventuras suicidas e inconsequentes de abrir rombos em navios alheios. O Irão, a quem o direito internacional confere toda a legitimidade para encerrar o Estreito de Ormuz e quase secar o fornecimento mundial de petróleo, só iria sofrer irreparáveis danos estratégicos se optasse por recorrer a crimes banais próprios de flibusteiros de meia tigela.
A alguns ministros dos Negócios Estrangeiros da União não bastou ainda terem sido ludibriados com o golpe na Venezuela; agora guardam alguma distância em relação aos procedimentos norte-americanos, mas são incapazes de dar um único passo para tentar travar um risco de guerra com repercussões imprevisíveis. Em nome da razão e dos direitos humanos que tantas vezes invocam têm o dever de se opor, desde já, a esta aventura criminosa em andamento.

Afinal há uma prova

Uma prova – esta sim autêntica, e já com dez anos de existência – do que está a passar-se por estes dias no Médio Oriente pode ser encontrada numa publicação de um dos pesos pesados da elaboração estratégica norte-americana, o Brookings Institution, no seu trabalho Que caminho para a Pérsia?1 , publicado em 2009. A dado passo pode ler-se:
«…Seria bastante preferível, antes de lançar os ataques aéreos, que os Estados Unidos pudessem citar uma provocação iraniana como justificação para realizá-los. Claramente, quanto mais sensacionalista, mais mortífera e mais improvável for a acção iraniana melhor será para os Estados Unidos. É claro que será muito difícil aos Estados Unidos incitarem o Irão a fazer tal provocação sem que o resto do mundo reconheça esse jogo, o que o prejudicaria».
E mais adiante:
«… No caso de Washington pretender tal provocação, poderia tomar acções que tornassem mais provável a possibilidade de o Irão a fazer (embora o risco de o processo ser demasiado óbvio poder anular a provocação). No entanto, se for deixado apenas ao Irão o movimento de criação da provocação, uma coisa em relação à qual o Irão tem sido muito reservado no passado, os Estados Unidos nunca saberão ao certo se virão a dispor da necessária provocação iraniana. De facto, ela poderá mesmo não acontecer de todo».
Em dois singelos parágrafos reconstitui-se a velha estratégia de «bandeira falsa» a que os Estados Unidos têm recorrido em quase todas as guerras que iniciam. Um método que pode ir buscar-se aos finais do século XIX, quando foi lançada a guerra contra o domínio espanhol em Cuba; ao episódio do navio Lusitânia, que abriu as portas à participação dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial; a Pearl Harbour, idem aspas para a Segunda Guerra Mundial; ao caso do Golfo de Tonquim na guerra do Vietname; e sem esquecer, com as suas características muito próprias, a encenação sobre as armas de destruição massiva que estariam em poder do Iraque de Saddam Hussein.
É certo que os episódios com os petroleiros no Golfo de Omã não têm a consistência que a Brookings Institution recomenda, mas servem para provar que o quarteto fascista Trump-Pence-Bolton-Pompeo não parece preocupado com a qualidade e a credibilidade do pretexto para avançar.

Guerra híbrida

Para já os episódios contra o Irão – haja ou não os «bombardeamentos massivos», mas «limitados», norte-americanos ou israelitas de que já se fala – integram uma estratégia de guerra híbrida, tão do agrado dos estrategos actuais do establishment e que está em movimento na Venezuela, por exemplo.
Na frente iraniana, trata-se de juntar a desestabilização provocada pela ameaça latente de uma guerra convencional aos efeitos das sanções e embargos, capazes de colocar a economia de Teerão à beira do abismo por não vender petróleo, às conspirações internas para minar o regime, ao terrorismo propagandístico. Combinam-se assim múltiplas acções com uma sobrecarga de efeitos a que um país cada vez mais isolado terá muita dificuldade em resistir.
O embargo petrolífero, depois das mais recentes medidas de Washington, fechou praticamente a torneira das exportações de hidrocarbonetos iranianos. De tal modo que as autoridades de Teerão decidiram ultrapassar os limites de enriquecimento de urânio estabelecidos no Acordo Nuclear de Genebra – do qual os Estados Unidos se retiraram – para tentar contornar dificuldades energéticas suscitadas pelo descalabro económico.
Os responsáveis iranianos advertem, contudo, que esta medida será imediatamente suspensa se a União Europeia não acatar o embargo petrolífero imposto pelos Estados Unidos – uma atitude que depende assim da coragem política de Bruxelas que, como já se viu, é pouca ou nenhuma.
A guerra contra o Irão está, portanto, em movimento. Arbitrária, desumana, ilegal mas em relação à qual as Nações Unidas permanecem inactivas, a não ser pedindo «contenção às duas partes».
Duas partes? Agressor e vítima, juiz e condenado ao mesmo nível num conflito que só tem um sentido. É assim que age a chamada «comunidade internacional» perante a prepotência imperial.
O Irão está isolado; os Estados Unidos transformam as medidas decididas pelo seu governo fora-da-lei em leis de âmbito universal. De tal modo que, até ver, potências como a Rússia e a China não parecem dispostas a desafiá-las.
Na cena internacional o crime compensa. E o criminoso talvez nem necessite – embora a vontade seja muita – de recorrer à guerra convencional.
A guerra híbrida está a cumprir o seu papel.

Ver Pollack, Byman, Indyk e outros, Which Path to Persia - Options for a New American Strategy toward Iran, The Saban Center for Middle East Policy, Brookings Institution (Washington: 2009).

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/guerra-contra-o-irao-esta-em-movimento

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