A «guerra contra o terror» dos EUA é a verdadeira causa da crise de refugiados na Europa

Patrick Cockburn    22.Sep.20    Outros autores

Oito guerras promovidas directamente pelos EUA ou que têm a sua aprovação tácita (Afeganistão, Iraque, Síria, Iémen, Líbia, Somália, noroeste do Paquistão e Filipinas) provocaram 38 milhões de pessoas deslocadas e em fuga. Destes, 8 milhões em fuga para o exterior dos seus países, 27 milhões no interior dos seus países destruídos. Esta tragédia não terá fim enquanto essas guerras não terminarem, e não será superada sem um fim que devolva aos povos o pleno direito de reconstruírem livremente o que a agressão imperialista destruiu e destrói.

Refugiados desesperados amontoados em barcos casca-de-noz que acostam nas praias de cascalho da costa sul de Kent são facilmente retratados como invasores. Manifestantes anti-imigrantes exploravam esses temores no fim de semana passado, enquanto bloqueavam a estrada principal para o Porto de Dover para “proteger as fronteiras da Grã-Bretanha”. Entretanto, a ministra do Interior, Priti Patel, culpa os franceses por não fazerem o suficiente para conter o fluxo de refugiados através do Canal da Mancha.

Os refugiados atraem muita atenção nas altamente visíveis últimas etapas das suas viagens entre França e Grã-Bretanha. Mas há absurdamente pouco interesse em saber por que suportam eles tais sofrimentos, correndo o risco de detenção ou de morte.

Existe uma suposição instintiva no Ocidente de que é perfeitamente natural que as pessoas fujam dos seus próprios Estados falhados (fracasso supostamente causado por violência e corrupção autoinfligidas) para procurar refúgio em países melhor administrados, mais seguros e prósperos.

Mas o que estamos realmente a ver naqueles patéticos barcos de borracha semi-submersos às voltas para cá e para lá no Canal da Mancha é a extremidade estreita da cunha de um vasto êxodo de pessoas provocado pela intervenção militar dos Estados Unidos e seus aliados. Como resultado da sua “guerra global contra o terror”, lançada após os ataques da Al-Qaeda nos Estados Unidos em 11 de Setembro de 2001, nada menos que 37 milhões de pessoas foram deslocadas das suas casas, segundo um revelador relatório publicado esta semana pela Brown University.

O estudo, parte de um projecto chamado “Custos da Guerra”, representa a primeira vez que esse massivo movimento populacional impulsionado pela violência é calculado usando os dados mais recentes. Os seus autores concluem que “pelo menos 37 milhões de pessoas fugiram das suas casas nas oito mais violentas guerras que a tropa dos EUA lançou ou em que participou desde 2001”. Destes, pelo menos 8 milhões são refugiados que fugiram para o estrangeiro e 29 milhões são pessoas deslocadas internamente (IDPs) que fugiram no interior dos seus próprios países. As oito guerras examinadas pelo relatório são no Afeganistão, Iraque, Síria, Iémen, Líbia, Somália, noroeste do Paquistão e Filipinas.

Os autores do estudo dizem que a deslocação de pessoas em resultado dessas guerras pós-11 de Setembro é quase sem precedentes. Comparam os números dos últimos 19 anos com os de todo o século XX, concluindo que apenas a Segunda Guerra Mundial produziu uma maior fuga em massa. Por outro lado, a deslocação pós-11 de Setembro excede a causada pela Revolução Russa (6 milhões), a Primeira Guerra Mundial (10 milhões), a Partição Índia-Paquistão (14 milhões), Bengala Oriental (10 milhões), a invasão soviética do Afeganistão (6,3 milhões) e a Guerra do Vietname (13 milhões).

Os refugiados são visíveis quando cruzam uma fronteira internacional, mas os deslocados internos são muito mais difíceis de rastrear, embora três vezes e meia mais numerosos. Podem deslocar-se várias vezes conforme os perigos que enfrentam diminuem e fluem. Por vezes regressam às suas casas, apenas para as encontrar destruídas ou que os meios de ganhar a vida desapareceram. Frequentemente têm de escolher entre o mau e o pior conforme as linhas de batalha mudam, forçando-os a uma existência nómada dentro do seu próprio país. Na Somália, o Conselho Norueguês de Refugiados afirma que “virtualmente todos os somalis foram deslocados por violência pelo menos uma vez na vida”. Na Síria, há 5,6 milhões de refugiados, mas também 6,2 milhões de deslocados internos com famílias desnutridas desempregadas lutando para sobreviver.

Algumas dessas guerras foram iniciadas como consequência directa do 11 de Setembro, principalmente no Afeganistão e no Iraque (embora Sadam Hussein nada tivesse a ver com a Al-Qaeda e a destruição do World Trade Center). Outras, como a guerra em curso no Iémen, foram desencadeadas pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros aliados em 2015. Mas em primeiro lugar isso não poderia ter acontecido, e ter já durado cinco anos devastadores, sem uma luz verde tácita de Washington. Com 80% da população do Iémen em extrema necessidade, a única razão de não haver mais refugiados é que eles estão retidos no interior do Iémen pelo bloqueio saudita.

Esta disposição de lançar guerras e mantê-las em andamento poderia ser menor se os líderes norte-americanos, britânicos e franceses tivessem que pagar um preço político pelas suas acções. Infelizmente, os eleitores nunca compreenderam que o afluxo de refugiados, ao qual tantos se opõem, é a consequência da vasta deslocação causada por essas guerras no estrangeiro pós-11 de Setembro.

A Síria ultrapassou o Afeganistão em 2013 como o país que produz mais refugiados no mundo. À medida que a violência e o colapso económico prosseguem, é mais provável que o número de sírios forçados a fugir das suas casas aumente do que diminua. Uma característica que as oito guerras pós-11 de Setembro têm em comum é que nenhuma delas terminou, apesar de anos de combates inconclusivos. É por isso que o número de deslocados é muito maior do que em conflitos extremamente violentos, mas muito mais curtos, no século XX. A natureza interminável desses conflitos actuais parece fazer parte da ordem natural das coisas, mas não é absolutamente o caso.

Potências estrangeiras fingem que estão a trabalhar incessantemente para acabar com essas guerras, mas só querem a paz nos seus próprios termos. Na Síria, por exemplo, o presidente Bashar al-Assad, com forte apoio da Rússia e do Irão, venceu militarmente a guerra em 2017/18. De qualquer forma, já ia longe o tempo em que os Estados Unidos e o Ocidente queriam realmente livrar-se de Assad, porque temiam a sua substituição pelo Ísis ou movimentos tipo Al-Qaeda.

Mas Washington e seus aliados também não queriam que Assad, Rússia e Irão obtivessem uma vitória total, e portanto mantiveram a panela em ebulição num conflito em que os sírios são a miserável carne para canhão. Semelhante calculismo cínico na negação de uma vitória total ao outro lado mantiveram as outras guerras em andamento, independentemente dos custos humanos.

Os Estados Unidos não são os únicos responsáveis ​​por esses conflitos e pela deslocação em massa de pessoas que causaram. A guerra na Líbia, desencadeada pela Grã-Bretanha e pela França com o apoio dos EUA em 2011, foi anunciada como uma forma de salvar o povo líbio de Muhammar Khadafi. Na realidade, entregou o país a senhores da guerra e gangsters assassinos, tornando a Líbia a porta através da qual os imigrantes do norte da África tentam chegar à Europa.

Mesmo líderes tão estúpidos como David Cameron, Nicolas Sarkozy e Hillary Clinton deveriam ter previsto as consequências politicamente desastrosas dessas guerras. Geraram uma inevitável vaga de refugiados e imigrantes que deu energia à extrema-direita xenófoba em toda a Europa e foi um factor decisivo no referendo do Brexit de 2016.

Na Grã-Bretanha, o desembarque de refugiados e imigrantes sob os White Cliffs está mais uma vez a tornar-se uma quente questão política. No outro lado da Europa, migrantes dormem à beira da estrada em Lesbos após o incêndio do acampamento onde viviam.

Essas vagas de migração - e a reação anti-imigração que tanto tem feito para envenenar a política europeia - não vão acabar enquanto houver 37 milhões de pessoas deslocadas por essas oito guerras.

Isso só acontecerá quando as próprias guerras chegarem ao fim, como há muito tempo deveria ter acontecido, e as vítimas dos conflitos pós-11 de Setembro deixarem de acreditar que qualquer país é melhor que o seu para viver.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2020/09/15/americas-war-on-terror-is-the-true-cause-of-europes-refugee-crisis
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