A Guerra do Golfo

Jorge Cadima*    21.Feb.16    Outros autores

“A heróica resistência dos povos evidenciou a rapacidade imperialista e a oposição à guerra do Vietname gerou um dos maiores movimentos mundiais de solidariedade, radicalizando parte importante do próprio povo norte-americano. A derrota dos EUA deixou marcas profundas e limitou durante alguns anos a ‘liberdade de agressão’ da maior potência imperialista (o ’síndroma do Vietname’)”.
Foi a guerra do Golfo que abriu as “portas à escalada das políticas imperialistas de guerra e agressão que ensanguentam o planeta há 25 anos. A destruição final da URSS, no Verão de 1991, libertou definitivamente as mãos ao imperialismo, que passou a agir de forma cada vez mais brutal e descarada”.

O quarto de século desde a Guerra do Golfo de Janeiro-Fevereiro 1991 tornou mais claro o seu significado histórico. O imperialismo sofreu nos anos 70 derrotas históricas, no Vietname e outros países. A heróica resistência dos povos evidenciou a rapacidade imperialista e a oposição à guerra do Vietname gerou um dos maiores movimentos mundiais de solidariedade, radicalizando parte importante do próprio povo norte-americano. A derrota dos EUA deixou marcas profundas e limitou durante alguns anos a ‘liberdade de agressão’ da maior potência imperialista (o ’síndroma do Vietname’). Os EUA incrementaram as agressões indirectas, criando autênticos exércitos terroristas para combater os avanços populares no Afeganistão, Nicarágua, Angola, Moçambique e outros países, mas as intervenções directas haviam-se tornado mais difíceis.

O imperialismo preparou o regresso às agressões militares directas. Primeiro, na minúscula ilha caribenha de Granada (1983) e mais tarde, já em pleno processo de destruição da URSS, no Panamá (1989-90). A Guerra do Golfo foi um salto qualitativo. Em Agosto de 1990 dá-se a invasão do Kuwait pelo regime iraquiano de Saddam Hussein – homem com fortes ligações ao imperialismo norte-americano, a quem em 1980 fez o frete de atacar a jovem revolução iraniana que derrubara a feroz ditadura pró-EUA do Xá. Os EUA prepararam uma guerra em grande escala. O presidente Bush (pai) ainda sentia a necessidade de recorrer à ONU. A 29 de Novembro de 1990, o Conselho de Segurança aprovou acções militares caso o Iraque não se retirasse do Kuwait até 15 de Janeiro. Essa resolução 678 do Conselho de Segurança da ONU teve o voto favorável duma União Soviética destruída pela perestroika, e que vivia já os seus meses finais. A China absteve-se, Cuba e o Iémen votaram contra. Mas foi com dificuldade que Bush conseguiu a aprovação do próprio Parlamento dos EUA para a primeira grande guerra desde a derrota do Vietname. No Senado, a autorização da acção militar apenas foi aprovada por 52 votos contra 47.

Porta aberta à escalada belicista

A Tempestade do Deserto envolveu enormes meios. Os EUA enviaram 540 000 soldados para a Arábia Saudita. A 17 de Janeiro foi desencadeada a guerra aérea. Foram usadas armas novas, como os mísseis cruzeiro (Tomahawk), armas à base de urânio empobrecido e sistemas de intercepção de mísseis (Patriots). Mas também armas antigas, como bombas de fragmentação e enormes bombas de 6800 kg (daisy cutters), capazes de arrasar tudo num raio de 1,5 km. A Guerra do Golfo serviu para ostentar a enorme capacidade destrutiva das forças armadas dos EUA e como mostruário de vendas para a sua poderosa indústria militar. Inaugurou as «directas televisivas» belicistas que fazem a guerra parecer uma espécie de vídeo-jogo, longe dos seus reais efeitos. Efeitos criminosos, como na destruição do abrigo do bairro de al-Amiriyah em Bagdade, na noite de 13 de Fevereiro de 1991, com duas «bombas de precisão» que vitimaram mais de 400 civis. Generalizaram-se cínicas expressões como «danos colaterais». A 24 de Fevereiro teve início a operação terrestre que, após ocupar o Kuwait, atravessou a fronteira iraquiana. A debandada iraquiana parecia ter aberto as portas de Bagdade, mas a coligação chefiada pelos EUA declarou um cessar-fogo no dia 28 de Fevereiro, deixando o regime de Saddam Hussein no poder. Na altura discutiu-se muito a razão de ser desse cessar-fogo. Um dia os arquivos históricos falarão. Mas em 1991 o Iraque possuía armas não convencionais (que lhe haviam sido vendidas pelas potências ocidentais para usar contra os soldados iranianos) e também os mísseis de longo alcance capazes de atingir Israel (os Scuds, que armados apenas com ogivas convencionais, atingiram efectivamente esse país durante a guerra). A década de sanções da ONU que se seguiu desarmou integralmente o regime de Saddam Hussein, mas foi um crime maior, responsável pela morte de centenas de milhares de iraquianos. Dois responsáveis dos programas humanitários da ONU (o irlandês Dennis Halliday em 1998 e o alemão Hans von Sponeck, em 2000), bem como a responsável do Programa Alimentar da ONU no Iraque, Jutta Burghardt, demitiram-se em protesto contra as sanções. Doze anos após o fim da Guerra do Golfo, e com um Iraque comprovadamente desarmado, o regime norte-americano e seus acólitos (como Durão Barroso) puderam desencadear com impunidade nova guerra e invasão do Iraque, mentindo sobre a existência de armas de destruição massiva.

A Guerra do Golfo abriu portas à escalada das políticas imperialistas de guerra e agressão que ensanguentam o planeta há 25 anos. A destruição final da URSS, no Verão de 1991, libertou definitivamente as mãos ao imperialismo, que passou a agir de forma cada vez mais brutal e descarada. O direito internacional e os tratados de desarmamento foram sendo substituídos pela lei da selva. A NATO expandiu-se e a União Europeia tornou-se oficialmente o seu ‘pilar europeu’. Um quarto de século depois da Guerra do Golfo, o Médio Oriente jaz em ruínas. E o imperialismo prepara novas e mais devastadoras guerras.

Este texto foi publicado no Avante nº 2.203 de 18 de Fevereiro de 2016.

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