A guerra psicológica, à espera…

Rémy Herrera    25.Nov.16    Colaboradores

Não faltam aspectos em que a política que Trump porá em prática permanece uma incógnita. Um deles diz respeito a Cuba. Tanto Trump como o seu vice, Pence, fizeram na Flórida declarações ameaçadoras. A seguir à eleição Cuba realizou exercícios estratégicos durante cinco dias. Se a solidariedade internacionalista com Cuba era imperativa com a “abertura” de Obama, ainda mais o é com o imprevisível Trump.

 
Que linha seguirá a nova administração norte-americana em política externa?

 O que sucederá principalmente às relações entre Cuba e os Estados Unidos após a eleição de Trump? Raros são aqueles que apontam um prognóstico. Mas existem indícios que permitem calcular o que poderá seguir-se. «O acaso de calendário» fez que a 9 de Novembro, algumas horas depois de ter endereçado as suas felicitações ao candidato republicano pela sua vitória, o presidente Raul Castro anunciasse o lançamento de manobras militares extensivas a toda a ilha. Um comunicado do diário Granma indicava cinco dias de exercícios estratégicos para preparação das forças armadas revolucionárias para enfrentar a eventualidade de acções «de toda uma série de inimigos», A última exibição militar desse tipo, intitulado Bastion, em Cuba, teve lugar há três anos, no momento de tensões fortes entre os dois países que precederam a sua reaproximação a 17 de Dezembro de 2014. Lembremos que o primeiro exercício Bastion, mobilizando soldados e reservistas, assim como «um máximo de civis a fim de consolidar a invulnerabilidade da defesa nacional», subentendendo-se «face a um inimigo numérica e tecnologicamente superior», respondeu à eleição de Ronald Reagan em Novembro de 1980. E que a sua terceira edição surgiu a 13 de Dezembro de 2004, dia de reeleição de George W. Bush. Desta vez as autoridades cubanas não quiseram estabelecer a ligação entre esses exercícios e a chegada próxima do novo presidente à Casa Branca, Havana lembra-se bem de Washington. E lembra-nos também paradoxalmente — pois os fantasmas mais loucos circulam um pouco por toda a parte neste momento —, que caímos na realidade.
 
A lógica das contradições
 
Durante a campanha, Mike Pence disse e repetiu: o processo de reaproximação com Cuba iniciado por Barack Obama, tendo conseguido um restabelecimento de relações diplomáticas a 20 de Julho de 2015, será «interrompido» e «invertido». Durante uma reunião na Florida, «um bom lugar para pesca das vozes latinas» ultra-reaccionárias, o vice de Trump declarou: «Prometo que, quando Donald for presidente, vamos anular todos os decretos de Obama sobre Cuba. Continuaremos a impor o embargo até que existem reais liberdades políticas e religiosas para todo o povo cubano. Donald está ao lado dos cubanos que querem a liberdade no combate contra a opressão comunista». É verdade: podemos vê-lo na net a posar diante da bandeira da Brigada 2560 desses veteranos «amantes» da invasão falhada da Baia dos Porcos.

Trump é imprevisível. Já tinha anunciado que Obama não iria longe no melhoramento dos negócios com Cuba. Depois, de passagem em Miami, um mês antes da eleição afirmou: «Todas as concessões que Obama deu ao regime de Castro foram tomadas por decreto presidencial. Isso quer dizer que o presidente futuro poderá retomá-los. E é o que farei. A menos que o regime de Castro se dobre às nossas exigências». E depois: «Nada ganhamos com este acordo» O que interessa é um acordo bom para os Estados Unidos. O que isso quer dizer ninguém sabe. Talvez nem Trump saiba. O que se sente é que a incerteza aumenta depois do resultado do escrutínio de 8 de Novembro, que tantos comentadores acharam «absurdo». Mas se o contexto actual é o do absurdo — e supondo que todos os componentes das classes dirigentes da finança global se preparam para saudar o 45.o presidente dos Estados Unidos, não para destitui-lo — que o leitor nos autorize a formular uma hipótese… absurda, apenas para estimular a reflexão: e se ele fizer o que Obama não ousou fazer em oito anos? E se Trump levantar o bloqueio? Essa medida choque poderia acontecer, por exemplo, logo após, a saída de Raul, anunciada para Fevereiro de 2018. E simultaneamente (porque não?) uma agressividade redobrada contra os outros países de governos progressistas que estão na América Latina, a quem gostaria de enfiar o estoque.

A probabilidade está perto do zero, mas existe. Para bem do próprio Trump são os chefes de banda republicanos do Congresso e suas más intenções que minoram essa eventualidade. Trump não é apenas imprevisível; é sobretudo um homem de negócios que quer ganhar dinheiro com Cuba. Não foi já atacado eleitoralmente, precisamente por ter «violado o embargo» e tentado em 1998 fazer negócios com Cuba? Não há já 24 meses que regimentos de empresários, vindos até de Indiana donde é originário o vice-presidente Pence, ali têm ido em missão de reconhecimento? Trump não fala em termos mais polidos que o habitual da Rússia e da China, que são amigas de Cuba?
 
O objectivo último
 
O importante não é saber se esta hipótese «absurda» se realizará ou não. Reside no problema colocado a uma revolução cubana que, na noite de 7 de Novembro ainda, não tinha estado tão próxima do levantamento do bloqueio. Somos muitos no mundo a lutar, há muito tempo. Se, com uma nova «surpresa» de que Trump tem o segredo, ele decidisse — para melhor vencer a resistência cubana — levantar esse velho bloqueio, provocando assim sobre a ilha, simultaneamente um imenso desafogo há tanto aguardado, um tsunami de dólares cairia do Norte, esta revolução seria capaz de defender-se? E em caso afirmativo, de que meios disporiam para lutar contra o poder extraordinário do dólar? Se a hipótese é absurda, o problema de fundo permanece.
O objectivo de Trump não será diferente do de Obama — talvez porque querem finalmente abater esta Cuba Socialista vizinha, cuja luz perturba o sono de 11 presidentes ianques sucessivos. O mais ingénuo de nós mesmo em Cuba acabou por não ver em Obama - talvez porque ele não fosse branco — o imperador que não deixou de ser. Apesar de (e por causa) disso o avanço inegável que foi o restabelecimento de relações diplomáticas, Obama fez tantas promessas.

Mas Guantánamo continua ocupada (é uma prisão) quando a sua restituição é um preliminar essencial a toda a «normalização». Em nome dos EUA a jovem embaixatriz democrata Samantha Power tocou pela primeira vez o botão de «abstenção» a 26 de Outubro de 2016 quando do voto da Assembleia-Geral das Nações Unidas sobre o bloqueio. E continua em vigor. Desde a visita a Havana do ex. secretário de Estado John Kerry em Agosto de 2015, as reuniões da Comissão bilateral continuam. Porem, as trocas comerciais têm sido fracas. Pedra de toque: a manutenção — pela administração Obama — de restrições que impedem o progresso das importações de produtos cubanos para os Estados Unidos e de investimentos norte-americanos em Cuba. Não há relações bancárias entre os dois países, e o medo permanece no sector desde que se trate de negócios com a ilha. Os 8,9 milhares de dólares de sanções contra o PNP-Paribas não se esquecem facilmente. Ainda não foi aplicada qualquer das medidas evocadas por Obama para tornar possível a utilização do dólar pelas instituições cubanas nas suas transacções financeiras internacionais. Cuba não pode depositar liquidez, nem efectuar pagamentos a terceiros, nem receber créditos… em dólar. É difícil incrementar relações económicas. O presidente de saída também não quis recorrer às prerrogativas de que dispunha para «flexibilizar» a posição de Washington. E, em 2016, o orçamento público destinado a financiar os programas de «mudança de regime e de promoção da democracia em Cuba» chegou a 30 milhões de dólares por ano. A guerra psicológica continua portanto contra Cuba. Assim como continua a resistência anti-imperialista da sua Revolução, que precisamos manter com todas as forças, hoje mais do que nunca.  

Rémy Herrera é investigador do CNRS

Tradução: Manuela Antunes

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