A ignorada revolta haitiana*

António Santos    03.Nov.17    Outros autores

No Haiti, um dos mais pobres e desiguais países do mundo, levanta-se um movimento popular contra o corrupto regime de Jovenel Moïse, o lacaio do imperialismo de serviço. Afrontando a repressão, transformou-se em mobilização nacional contra a doutrina neoliberal, em clamor popular pela soberania, em exigência de demissão do governo.

A revolta do povo haitiano estalou há dois meses e na comunicação social da classe dominante nem uma notícia. Talvez o critério editorial seja uma escala tanatológica de um para mil em que, para o Haiti ser notícia, é necessário mil haitianos mortos por cada morto estado-unidense. Mas hoje não há terramotos no Haiti e os rodapés dos telejornais voltarão a desfilar fait divers sobre celebridades, futebol, curiosidades avulsas, a grande questão nacional Santana versus Rio e um restaurante em Manchester que dá os restos aos pobres.
Entretanto, por todo o Haiti, o povo desafia nas ruas a proibição de manifestações contra o regime cleptocrata de Jovenel Moïse. O movimento que começou, em Setembro, quando foi apresentado o Orçamento do Estado, como um protesto contra o aumento dos impostos e taxas sobre o trabalho, transformou-se em mobilização nacional contra a doutrina neoliberal, clamor pela soberania e exigência de demissão do governo de Moïse.
No poder há um ano, Jovenel Moïse, partido Tèt Kale, é apenas o último nome na longa lista de serventuários do imperialismo dos EUA que, desde o golpe de Estado com o selo CIA contra o governo democraticamente eleito de Jean-Bertrand Aristide, em 2011, se sucedem num caótico turbilhão de violência, miséria e privatizações. Moïse tomou o poder através de uma farsa democrática de um só acto eleitoral que, embora anémico (menos de 30 por cento dos haitianos votaram), exigiu o brutal esmagamento do movimento de massas. Depois de decapitar as duas agências anti-corrupção, Moïse deu o braço ao presidente do Banco de Desenvolvimento Interamericano, o guru neoliberal Luis Alberto Moreno e pôs em marcha a Caravana da Mudança, um bizarro circo que melhor pode ser descrito como um cruzamento entre um programa de austeridade, uma máquina de lavagem de dinheiro e um comício de demagogia itinerante.

O preço da revolta

As manifestações de massas sucedem-se, em Porto Príncipe, várias vezes por semana, apesar do Estado recorrer com crescente brutalidade à repressão. Na passada terça-feira, a título de exemplo, homens armados dispararam 24 tiros contra uma manifestação pacífica. As matrículas revelaram que os veículos dos atiradores pertenciam ao Estado. Mas nem as dezenas de detenções, nem os disparos, nem as provocações orquestradas pelo Estado estão a conseguir deter a luta das massas. Quando, no passado dia 21 de Setembro, Moïse tentou fazer uma demonstração de força, encabeçando uma parada militar na principal avenida da capital, uma chuva de pedras e garrafas obrigou comitiva do presidente a fugir. No dia 2 de Outubro, uma greve geral marcou a nova fase da luta, contra o neoliberalismo e pela demissão do governo, consciente da sua própria história.
Mais de duzentos anos depois da primeira revolta colonial e anti-esclavagista das Américas, o Haiti continua a pagar o preço do atrevimento. 60 por cento dos haitianos vivem na pobreza e 25 por cento passam fome; 40 por cento são analfabetos e os um por cento mais ricos detêm tanta riqueza como os 45 por cento mais pobres; segundo a ONU, é um dos países do mundo onde mais crianças são abusadas sexualmente.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2292, 2.11.2017

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