A Lenin Moreno parece urgente distanciar-se de Rafael Correa

Dax Toscano Segovia    19.Jul.17    Outros autores

Já em Fevereiro deste ano, em Nota dos Editores, odiario.info manifestava apreensão acerca da evolução da situação no Equador após as eleições presidenciais. O candidato de Alianza País, a força política a que pertence Rafael Correa, venceu Guillermo Lasso, candidato da direita. Mas o seu desempenho como presidente parece até ao momento confirmar as apreensões então manifestadas

A Lenín Moreno parece urgente distanciar-se de Rafael Correa. Marcou território. É a hora da tolerância, do respeito e de acabar com os autoritarismos, disse. Há que ouvir o outro, dialogar e reconciliar o país. Com ele, não contem para o ódio, expressou o actual mandatário. Neste novo cenário, o presidente Moreno quer aparecer como politicamente correcto. Ele não é um troglodita. Amor e paz é o que declarou, impelido pela sua fé cristã e seus conhecimentos quânticos.

Neste processo de diferenciação, Lenín repetiu subtilmente, mas sem nenhum sentido crítico, o discurso dos opositores contra o ex. presidente Rafael Correa e seu governo que é permanentemente difundido pelos meios de comunicação privados a nível nacional e internacional.

É a hora da reconciliação, manifestou o actual presidente.

Nebot acusava Correa em 25 de Junho de 2015, num discurso pronunciado na cidade de Guayaquil, de ser o causador da divisão de um país em que conviviam harmoniosamente ricos e pobres, empresários e trabalhadores. Guillermo Lasso e seus partidários disseram o mesmo durante a campanha eleitoral(1) . Jornalistas como Janet Hinostroza, Diego Oquendo ou Alfonso Espinosa de los Monteros também sustentaram o mesmo. E a cúpula da Igreja Católica equatoriana pediu a Moreno que sare as feridas abertas.

O mito da unidade nacional, esgrimido pelas elites dominantes que vêm quem afecte os seus interesses de classe como o causador da discórdia social, também foi repetido pelo presidente Moreno, em manifesta discrepância com Rafael Correa. Da oposição nada disse e, pior ainda, guardou um silêncio cúmplice para com as acções que a direita e as forças disfarçadas de progressistas vêm desenvolvendo para desbaratar o projecto da Revolução Cidadã.

Daí vem a ordem emitida de zero confrontações com os media e seus jornalistas assalariados, bem como com os contraditores do governo. Que eles digam o que quiserem já não tem importância. Os ataques contra o vice-presidente Jorge Glas, que a oposição quer destituir do seu cargo, não merecem sequer pronunciamento algum por parte do primeiro mandatário e menos ainda as acusações e ataques lançados contra Rafael Correa.

É uma nova era. A outra fica no passado, inclusive tendo Lenín Moreno sido parte dela.

Neste cenário, o mandatário convocou o diálogo. Visto assim, esta convocatória é essencial para o exercício do governo, manter a estabilidade do país e evitar a conflitualidade. Só um individuo prepotente poderia opor-se a conversar com o contrário, ouvi-lo e inclusivamente ceder posições.
Cabem algumas precisões relativamente ao apelo do presidente Moreno.

Dialogar implica contraposição de teses argumentadas sobre um tema concreto e não o simples acto de ouvir o outro. Em termos socráticos, um dos objectivos do diálogo é descobrir as contradições dos interlocutores não só naquilo que expressam, mas também nos factos, para assim saber quais são as suas verdadeiras intenções e propósitos. O diálogo, neste sentido, deve ter como propósito gerar a verdade a partir da demonstração ao outro da invalidade da sua argumentação ou tese.

¿Quais foram as argumentações dos que acorreram ao diálogo com o presidente Moreno?

¿Puderam demonstrar a validade das suas propostas?

¿Quais foram as respostas do mandatário?

Aceitar sem mais as propostas feitas pela oposição é uma incoerência política.

Ceder posições não pode significar, de nenhum modo, ir contra o projecto de construção de um país oposto aos interesses da oligarquia vende-pátria e também das forças retrógradas disfarçadas de progressistas, entre as quais sobressaem os social-cristãos ou a direcção indígena e mestiça da CONAIE, por exemplo. Isso implicaria a aceitação dos programas de governo dos que não ganharam as eleições, o que constitui uma ingenuidade e estultícia política. Entregar espaços para o exercício de funções políticas, administrativas ou económicas a forças abertamente contrárias ao plano de governo da Revolução Cidadã, constituiria um acto de deslealdade que significaria o retorno à velha política de compromissos e arranjinhos.

O presidente Moreno deve esclarecer, por exemplo, se efectivamente existiu um pacto com os Bucaram para lhes entregar o controlo da Corporação Nacional de Electricidade.

O certo é que se Lenín Moreno continua complacente com os opositores a Rafael Correa, continuará a gozar dos aplausos daqueles que outrora também o questionaram e insultaram a ele. Se, pelo contrário, é coerente com as ideias que assumiu quando se vinculou ao projecto da Revolução Cidadã, quando foi vice-presidente do governo de Rafael Correa ou quando assumiu o compromisso para chegar à Presidência de la República na base do projecto de Alianza País, a sua lua-de-mel acabará e começarão a atacá-lo com virulência através dos meios de comunicação privados e das redes sociais.

Lamentavelmente, até ao dia de hoje o presidente Moreno tem dado mostras de se aproximar mais aos opositores do que de trabalhar com os seus verdadeiros aliados. Inclusivamente, o presidente lançou agudos ataques através das redes sociais que, ainda que não se dirijam directamente contra Correa, apontam contra ele, ataques que começaram já a ser reencaminhados e festejados pelos inimigos do ex. mandatário.

Nestas circunstâncias, a hora é de definições: ser ou não ser, eis a questão.

Quito, 6 de Julho de 2017.

http://www.lahaine.org/mundo.php/ecuador-a-lenin-moreno-le
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(1)Sobre as eleições no Equador ver, nomeadamente: http://www.odiario.info/o-presidente-do-equador-sera-eleito/

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