A Luta continua

Marcos Domich*    31.Oct.08    Colaboradores

Marcos Domich

Neste texto, Marcus Domich, analisa as causas da derrota sofrida recentemente na Bolívia pela direita, representada pelos prefeitos da Meia-Lua e perspectiva os avanços do processo de mudanças em curso naquele país.

Uma vez mais, a direita e o imperialismo sofreram um forte contratempo político com a aprovação do referendo que terá lugar em Janeiro de 2009. Em Dezembro do mesmo ano realizam-se eleições gerais desde prefeitos e alcaides até Presidente da República, passando por senadores e deputados. Haverá uma grande renovação dos políticos, ainda que se mantenham à tona um pequeno grupo de figuras políticas que não se afundarão pela sua extraordinária capacidade de adaptação aos ventos que sopram. Alguém já prognosticou que não seria de admirar vê-los a vestir a camisa azul, visto que o MAS tem uma extraordinária tolerância para rebocar políticos desgastados.

Como se explica que a direita tenha sido acantonada e ficado quase sem alento? Concorreram vários factores. Mas o mais notório foi em Setembro – quando começaram as ocupações de instituições, desataram a golpear cidadãos e cidadãs indígenas, destruíram os seus estabelecimentos e casas e, finalmente, massacraram camponeses indígenas em Porvenir, fizeram feridos, balearam crianças e mulheres – esgotaram a paciência do povo. O sentimento de repulsa, pela violência que protagonizavam os grupos de choque fascistas, transformou-se num sentimento justiceiro. Basta de impunidade é o grito dominante que se torna prática corrente com o estado de sítio decretado em Pando e, sobretudo, com a prisão do prefeito Fernández. Ainda que um pouco branda, a resposta do executivo foi correcta e a única possível, e capaz de deter os desmandos reaccionários.

Houve uma clarificação da consciência popular. Por fim deu-se a aproximação entre a COB e a CONALCOM. Classe operária, camponeses, camadas médias e povos originários caminharam juntos.

Depois, há que considerar a real situação internacional. Não apenas a histórica resolução da UNASUR em Santiago. O VIII Encontro de Artistas e Intelectuais em Defesa da Humanidade-Fórum Alternativo Mundial (250 participantes de 65 países) constatou que o mundo vive uma situação peculiar, totalmente diferente da que se vivia há dez anos atrás. O neoliberalismo afundou-se e acabou-se o consenso de Washington. Vivemos uma conjuntura peculiar, dentro da época histórica que passa a humanidade: do sistema capitalista – hoje numa crise polivalente (financeira, alimentar, bélica, ambiental, etc.), – avançamos para um sistema em que se liquida a exploração do homem pelo homem e que não outro nome senão Socialismo.

Em Janeiro votar-se-á uma nova Constituição Política. Não é perfeita, mas é um avanço. A direita, se quer sobreviver de alguma maneira, tem de se adaptar às circunstâncias. Pensamos que continuará a resistir à mudança e é certo que não deixará de conspirar. É tenaz, e como dizia em Caracas o filósofo francês Georges Labica, as classes dominantes não se suicidam e ao modo de produção capitalista não lhe dá um enfarte. Isto não implica, necessariamente um acto cruel. Há que lidá-los como classe e como sistema, aplicando com consequência, com unidade e com organização o programa revolucionário.


* Marcus Domich, Professor da Universidade de La Paz, é amigo e colaborador de odiario.info

Tradução de José Paulo Gascão

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