“A mensagem de Obama a Cuba transmitida por Mujica, é para que Cuba implemente a política neoliberal que Mujica aplica no Uruguai

James Petras    10.Jul.14    Colaboradores

James Petras

“Aparentemente o presidente norte-americano, Barack Obama, tem enorme apreço e apoia o presidente uruguaio José Mujica, porque este apoiou os exercícios militares com os Estados Unidos, abriu todas as portas para a penetração dos investimentos estrangeiros, abraçou o neoliberalismo. Então para Washington ele é o mensageiro ideal para avançar algumas propostas com as quais Washington tenta convencer os cubanos”, afirmou o sociólogo norte-americano James Petras na sua coluna de análise da conjuntura internacional em CX36. Nesse quadro, assegurou que a mensagem de Obama para Cuba que Mujica transmitiu, “é obviamente para converter outra vez Cuba em satélite de Washington e que implemente a política neoliberal que Mujica aplica no Uruguai”. Para além desse tema Petras analisou a situação no Iraque, o drama das centenas de crianças imigrantes detidas nos Estados Unidos, o apelo pela paz do presidente de facto da Ucrânia e a proclamação de Dilma Rousseff à reeleição. Transcrevemos a seguir a análise de James Petras que pode ser ouvida neste link:
http://www.ivoox.com/james-petras-23-junio-audios-mp3_rf_3248963_1.html

Efraín Chury Iribarne: Com muito gosto estamos recebendo James Petras, bons dias. ¿Como estás?
James Petras: Bons dias. Estamos muito bem, com bom tempo e bem de saúde.

EChI: Muito bem, comecemos então.
¿O que é está a passar-se no Iraque?

JP: É uma situação bastante complicada.
Em primeiro lugar temos o governo títere de (o primeiro-ministro iraquiano, Nuri Al) Maliki, produto da invasão norte-americana, um governante ditador, opressor de tudo o que não está sob o seu comando. Devemos entender que é um governo sumamente desprovido de popularidade. Isso de um lado.
Do outro lado, estão as milícias dos ISIL (acrónimo que significa “Estado Islâmico do Iraque e Levante”), os grupos nacionalistas, os oficiais do ex governo de Sadam Hussein e muitos insurgentes que estão lutando contra o governante repressivo.
Neste contexto, os Estados Unidos estão perante um panorama muito complicado porque se intervêm perdem a popularidade de 80% do público norte-americano que se opõe ao regresso de tropas. Em segundo lugar, se mandam aviões têm grandes possibilidades de matar dezenas de milhares de civis porque os insurgentes estão instalados nas cidades em lugares muito povoados. E em terceiro lugar, se começam a atacar as tropas no Iraque, vão debilitar a guerra que eles mesmos estão a lançar contra o governo de Bashar Al Assad. Então hoje Washington está ante o dilema de apoiar na Síria as forças às quais se opõe no Iraque. Os sunitas, os insurgentes, têm um pé em cada país.
Ainda nesse quadro, o Irão está contra a intervenção norte-americana no Iraque, porque entendem que a presença norte-americana provoca a oposição de todas as forças anti-imperialistas.
Por último, (o presidente estado-unidense Barack) Obama procura um governo de unidade nacional, afastando Al Maliki do poder e substituindo-o por outro líder disposto a integrar os sunitas e curdos num governo de coligação. Mas Al Maliki, que controla os Ministérios da Defesa, das Informações e do Interior, não quer largar o poder.
Portanto, Washington está a vacilar entre mandar os aviões para deter o avanço das forças rebeldes e, por outro lado, vai tratando de pressionar Al Maliki para que renuncie, sem êxito. Entretanto, os milicianos estão a ganhar terreno todos os dias, conquistando novas cidades particularmente nas fronteiras.
O ambiente aqui entre os meios de comunicação é de tratar de instalar a ideia de que há um terrorismo que ameaça todo o mundo, para justificar o regresso da intervenção norte-americana. Todos os meios, televisão, imprensa escrita, etc. estão nessa campanha de pintar uma situação muito dramática. E nesse contexto Washington está com poucas opções efectivas. Se manda aviões tem que ter alguma informação sobre os movimentos de tropas porque se atacam os insurgentes podem fomentar mais nacionalismo e maiores compromissos entre as forças opositoras.
Para além disso, o governo de Al Maliki está a cair, está muito débil, o Ministro das Relações Exteriores pede abertamente a entrada de tropas norte-americanas; os membros do gabinete já mandaram as suas famílias para fora do país e têm as malas feitas; não confiam nem na presença norte-americana – os trezentos efectivos de tropas especiais – nem numa rápida decisão de intervenção militar directa. Então há um pessimismo entre os integrantes do governo de Al Maliki sobre a continuidade deste no poder.
Em todo caso é outro indicador de como, apesar dos enormes gastos económicos e militares estado-unidenses, tudo fracassou. No fim de contas, o principal ganhador pode ser Israel quando o Iraque se quebre em três pedaços, que é a opção promovida pelos países ocidentais: o norte para os curdos, o centro para os sunitas e o sul para os xiitas. Esta fragmentação debilitará o Iraque como país e facilitará as perspectivas de poder israelita que sempre têm tido a ideia de dividir os Estados de Médio Oriente para poder impor-se pela força, como estão fazendo actualmente a partir dos bombardeamentos à Síria.

EChI: ¿Que foi John Kerry fazer ao Egipto?
JP: Foi dar um abraço forte (com el presidente egípcio Abdul Fatá el Sisi), uma afirmação de apoio à ditadura, no preciso momento en que a ditadura de Sisi emitiu a sentença de morte para mais de duzentos egípcios, oficiais muçulmanos, que apoiam a democracia e se opõem ao golpe de Estado.
Quer dizer, Kerry afirma o apoio norte-americano às ditaduras que apoiam a política militar dos Estados Unidos, principalmente as que pactuam com Israel. Ou seja, Kerry mostra a ‘face negra’ de Washington na sua intervenção no momento em que se dá uma eleição fraudulenta na qual apenas 25% do eleitorado votou; no momentos em que se encarceram milhares de opositores e agora, sentenciam à morte dirigentes da oposição. Isto é um claro indício do que é a política exterior dos Estados Unidos, onde o principal é apoiar a política imperialista e a democracia e outras considerações são colocadas em segundo plano.

EChI: O semanário Búsqueda de Montevideo informou que o presidente uruguaio José Mujica interviria para normalizar as relações entre Cuba e Estados Unidos. ¿Sabe-se aí algo deste assunto?
JP: Sim, recebemos a mesma notícia aqui.
Aparentemente o presidente norte-americano, Barack Obama, tem enorme apreço e apoia o presidente uruguaio José Mujica, porque este apoiou os exercícios militares com os Estados Unidos, abriu todas as portas para a penetração dos investimentos estrangeiros, abraçou o neoliberalismo. Então para Washington é o mensageiro ideal para avançar algumas propostas com as quais Washington procura convencer os cubanos: En primeiro lugar é que Cuba permita que o sector privado avance em todos os seus sectores; segundo que permita às ONG’s norte-americanas financiar os diferentes tipos de oposição; e terceiro que deixe de apoiar qualquer movimento progressista latino-americano.
Essa é a mensagem que Obama ordenou a Mujica que transmitisse a Cuba, que obviamente é para converter outra vez Cuba em satélite de Washington e que implemente a política que Mujica apoia no Uruguai.
Agora, creio que esta iniciativa – o facto de que Washington se proponha negociar com Cuba- tem tantos obstáculos porque não há nenhum compromisso de levantar o bloqueio; segundo, porque se exige a Cuba que liberte o espião Alan Gross – que estava funcionando com a CIA para criar canais de transmissão com agentes en Cuba -; e terceiro, porque ao mesmo tempo que Mujica dirige a mensagem a Cuba, Washington aumentou as sanções contra Cuba.
Então, é o duplo discurso: Obama fala do bloqueio e diz abrir a possibilidade de negociar por intermédio de Mujica; enquanto na Casa Branca está reforçando as sanções contra Cuba.
Por isso, qualquer mensagem que Mujica tenha recebido e qualquer missão que queira cumprir para Obama contradiz as práticas actuais que Washington está a implementar em relação a Cuba.

EChI: No Brasil Dilma Rousseff lançou-se à reeleição.
JP: Sim, foi unânime entre todos os chamados delegados.
Há uns dez anos fiz um estudo sobre a representatividade dos delegados ao Congresso do Partidos dos Trabalhadores do Brasil (PT) onde, aparte uma minoria de sindicalistas, 90% dos delegados do PT são profissionais liberais, advogados, políticos profissionais. Não há nada de operário ali e muito menos consultam os operários acerca do programa ou do tipo de campanha.
O PT é um partido de classe media que procura associar-se com o grande capital. Nesse sentido têm aplicado no Brasil a fórmula tradicional de clientelismo com programas dirigidos à pobreza, e do outro lado a fortalecer o capital monopolista no Brasil.
Não tenho dúvidas de que Rousseff vai ganhar las eleições porque tem o apoio dos sindicatos, dos multimilionários, tem bom financiamento, tem aliança com o partido do centro direita, o PMDB – que tem uma boa máquina eleitoral particularmente nas províncias-; esta combinação talvez não consiga ganhar na primeira volta, mas na segunda seguramente que ganha alcançando alguma coisa como 55% dos votos. Não é a esmagadora maioria dos anos anteriores porque não cumpriram com muitas promessas e não ganharam muita simpatia com a prodigalidade realizada para organizar a Copa do Mundo.
Há desconfiança, há protestos, há desencanto, mas as alternativas são piores ainda. São mais neoliberais e sem as políticas assistencialistas.
Então creio que ao ser o mal menor, provavelmente o eleitorado vai votar em Rousseff, embora com uma alta taxa de abstenção e com a ampliação dos protestos.

EChI: ¿En que outros temas estás trabalhando actualmente?
JP: O primeiro é o enorme desastre humano nas fronteiras entre Estados Unidos e México. Actualmente há 52 mil crianças encarceradas em centros de detenção, são crianças imigrantes sem acompanhante vindas da América Central. E agora estão na fronteira sul estado-unidense em centros de detenção que estão saturados e os Estados Unidos não sabem que fazer. Estão em condições de superlotação, sem condições higiénicas.
O problema é que os Estados Unidos destruíram as comunidades com a intervenção nas guerras na América Central. Se tivessem permitido que as revoluciones tivessem tido êxito, este problema não existia, já que com programas sociais, progressistas, poderiam ter-se incorporado os pobres na produção. Mas sem reforma agraria, com políticas neoliberais, países como Honduras, El Salvador, Guatemala, estão cheios de quadrilhas de jovens armados, sem futuro. E nestes países uma das saídas para las famílias é a emigração.
Um problema grave foi que depois das guerras, se impôs uma política neoliberal, aplicando-a com toda a força e a única saída para as pessoas é procurar um transporte até à fronteira do México com os Estados Unidos. Como há leis en Estados Unidos sobre as crianças imigrantes que entrem no país e que poderiam conseguir a residência depois de vários anos; as famílias mandam as crianças e depois procuram alguma forma de os parentes chegarem ao país e ocuparem-se delas.
Mas agora estão detidas aos milhares, são crianças de 3 a 7 anos sem os seus pais, em dormitórios superlotados, com crianças mais velhas. É uma situação insalubre e a postura das autoridades estado-unidense é repressiva, mandando mais soldados para as fronteiras e mais aviões para os deportar. Mas não existe nenhuma proposta para facilitar a entrada das famílias dessas crianças para que possam viver ao menos em família. É um drama. Uma situação trágica. E não sei quantas crianças podem sofrer as consequências físicas, morais e éticas, porque quem sabe como tratam esses meninos e meninas, e os adolescentes, os guardas norte-americanos e os aproveitadores entre os migrantes.
O outro tema que queria mencionar, é o da Ucrânia. Onde o títere presidente (Petro) Poroshenko supostamente apelou a um cessar-fogo e a um diálogo pela paz, mas entretanto continua a enviar forças de ocupação militar e continua a bombardear, apesar de proclamar o cessar-fogo.
Não há que confiar nada neste arranjo para a guerra interna, a guerra civil entre a democracia do Leste e a ditadura pró OTAN na parte ocidental.
Para além disso, a posição de Vladimir Putin é insuportável, diz que apoia o plano de paz mas o governante Poroshenko não tem nenhuma intenção de implementar uma paz com justiça, apenas quer impor a ditadura de Kiev, castigar os líderes da resistência popular. Compreende-se a posição de Putin porque os oligarcas na Rússia querem evitar sanções dos governos ocidentais e pressionam Putin a aceitar qualquer proposta de Poroshenko.
Aquilo a que chamam forças pró-russas, não são pró-russas, na realidade são pró-independência, pró-federalistas, pró-democratas. É uma grande mentira chamar pró-russa à resistência democrática do Leste, são pró-democracia e contra a repressão do massacrador exército de Poroshenko, apoiado pela OTAN.

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