A mentira na ponta das espingardas

José Goulão*    31.Oct.06    Colaboradores

Bombardeamentos de Bagdad
Além da confissão de derrota, há outra razão de peso que desaconselha o reconhecimento da Resistência iraquiana pelos círculos imperiais. A sua existência é um contributo para o reforço da unidade nacional iraquiana perante os esforços em curso para fraccionar o país.

De maneira muito lenta, mas com a consistência própria da verdade, estão a cair dois dos argumentos que serviram de base à invasão imperialista do Iraque.
O primeiro argumento: o Iraque de Saddam Hussein dispunha de armas de destruição em massa, confirme o então secretário de Estado norte-americano, Collin Powell, testemunhara perante as Nações Unidas exibindo fotos supostamente comprovativas obtidas por satélites.
O segundo argumento: o Iraque de Saddam Hussein era um poderoso centro operacional da Al Qaeda, beneficiando da cumplicidade estreita entre o próprio presidente iraquiano e Ussama bin Laden.
Os dois argumentos foram explicados ao mundo, até à exaustão, por uma das mais conseguidas barragens de comunicação da história da Humanidade, fazendo parecer as práticas de Goebbels não mais do que diabruras de um anjinho papudo.
As vozes que então se ergueram, com a energia e o alcance possíveis, para identificar estas mentiras rapidamente tiveram que se confrontar com uma acusação recorrente: não eram mais do que ecos de teorias da conspiração urdidas para evitar a operação militar no Iraque ou para descredibilizá-la, perpetuando Saddam Hussein no poder. Do mesmo modo que correm o risco de ser apontados como instrumentos de Bin Laden aqueles que levantem qualquer objecção às explicações oficiais do 11 de Setembro; ou, da mesma maneira que não escapam de ser acusados de anti-semitas aqueles que denunciam as práticas terroristas do sionismo.
Hoje sabe-se, sem qualquer margem de dúvida, que o regime iraquiano não possuía qualquer arma de destruição em massa nem condições para as fabricar, em grande parte devido à forma como os inspectores das Nações Unidas cumpriram a sua missão.
Por outro lado, já circulam hoje com toda a tranquilidade, até em meios que participaram na barragem de mentiras, os artigos e as opiniões negando qualquer ligação entre Saddam Hussein e Bin Laden.
Com toda a naturalidade, o Mundo assimila que a invasão do Iraque se fez com base em mentiras universalizadas, assim se aceitando que se escreva supostamente a verdade por linhas tortas. E nada acontece aos que mentiram e agrediram. Porque são eles que mandam no Mundo e possuem até o poder de dar à mentira a força que devia ser exclusiva da verdade.

O Iraque não tinha, pois, armas de destruição em massa ao tempo do início da invasão norte-americana. Tivera armas químicas alguns anos antes e usou-as sem pudor no final da década de oitenta, por exemplo contra populações curdas durante a guerra com o Irão. Nesses tempos, porém, a chacina foi convenientemente silenciada porque Saddam era um braço da civilização e dos valores morais do Ocidente, ansiosos por esmagar a revolução islâmica iraniana.
É certo que nos primeiros tempos da invasão do Iraque os soldados da “coligação” – outro dos eufemismos que se usam para designar as forças armadas dos Estados Unidos da América – detectaram barris suspeitos algures em propriedades agrícolas que poderiam afinal ser fábricas de armamento muito bem disfarçadas. Os factos viriam dar razão a Collin Powel? Nada disso, as propriedades agrícolas eram, prosaicamente, propriedades agrícolas e os barris tinham sido usados para armazenar fertilizantes.
Dezenas de diplomatas congregados na sede das Nações Unidas e, por arrastamento, todo o Mundo foram confrontados com as fotografias obtidas por satélite e que tudo desvendavam: o Iraque tinha armas químicas armazenadas em regiões ocidentais do País. No terreno, porém, a realidade teimou em desmentir as fotos. De armas químicas nem o menor rasto
Tais fotografias foram usadas para que o secretário de Estado da maior potência planetária mentisse ao Mundo inteiro, sabendo que o estava a fazer. Powell tem hoje a sua reforma dourada, quiçá sonhando com a Casa Branca. E porque não?

Os factos conhecidos são hoje suficientemente sólidos para sustentar que não houve, nem há, qualquer aliança ou colaboração entre o “saddamismo” e a Al Qaeda.
Tal cumplicidade seria, à partida, contra-natura. O regime de Saddam Hussein era secular e fazia por se sustentar através da colaboração com diferenciados cultos. Introduzir questões religiosas no regime seria matar o próprio regime, torná-lo-ia muito mais vulnerável no xadrez regional.
Estas seriam linhas de raciocínio lógico e, como tal, foram logo asfixiadas pelo histerismo comunicacional. Saddam e a Al Qaeda integravam o eixo do mal, logo eram parceiros naturais em tal aliança satânica. Negar esta cumplicidade era, sempre e mais uma vez, recorrer à teoria da conspiração.
Até que chegou o dia do assassínio de Al-Zarkawi, tido como o expoente máximo da Al Qaueda no Iraque, apontada como a fonte de todas as dificuldades levantadas à presença militar norte-americana no território iraquiano.
De George W. Bush aos editorialistas de turno, passando pela inevitável Condolezza, todos saudaram o desaparecimento de Al-Zarkawi como uma vitória da democracia iraquiana, prevendo-se a rápida pacificação do Iraque.
E, no entanto, bastou pouco tempo para se perceber que a situação dos invasores no terreno se agravou de então para cá. A-Zarkawi não tinha, afinal, o poder que os arautos do eixo do bem lhe outorgavam.
Será tudo isto fruto de um erro de cálculo dos analistas de informação imperiais?
Nada disso. É, como sempre, resultado de se jogar com a mentira para tentar ocultar a realidade.
O que o Império deveria reconhecer, mas não está em condições de o fazer porque seria confessar a derrota, é a existência de uma Resistência Nacional aos invasores cada vez mais forte no Iraque. São centenas de milhar de iraquianos em armas contra os invasores e os colaboracionistas, um movimento a que a Al Qaeda pontualmente talvez se junte por oportunismo, mas sem expressão política nem militar – antes por necessidades de sobrevivência e de combate ao isolamento.
São cada vez mais os jornalistas em serviço no Iraque confrontados com a realidade gritante que é a existência dessa Resistência Nacional que nada tem a ver com a Al Qaeda nem com as fracções religiosas em que os porta-vozes imperiais pretendem desmontar o puzzle iraquiano. Sabe-se que alguns desses jornalistas sofrem pressões dos seus responsáveis, ou então são penalizados com o silêncio, quando se limitam a comprovar a existência e o poder dessa Resistência multifacetada.

Além da confissão de derrota, há outra razão de peso que desaconselha o reconhecimento da Resistência iraquiana pelos círculos imperiais. A sua existência, onde convivem forças políticas e religiosas muito diversificadas, é um contributo para o reforço da unidade nacional iraquiana perante os esforços em curso para fraccionar o país.
Não é novidade que em meios neo-conservadores norte-americanos se teoriza sobre a partilha do Iraque em mini-Estados confessionais a nascer de um caos para o qual a situação no Médio Oriente caminharia. A defesa da unidade territorial iraquiana é um obstáculo a esses planos, que podem parecer delirantes mas são reais. Revelar a sua existência é mais um modo de ter em conta realidades que as mentiras na ponta das espingardas pretendem distorcer.

Lisboa, 20 de Outubro de 2006

* Jornalista

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